Estar em Missão é ter a oportunidade de conhecer muitas pessoas especiais. Hoje escrevo sobre uma dessas pessoas que tivemos a sorte de encontrar. A Melita é especial para nós, Leigas em Missão, e muito querida por tantas outras pessoas da comunidade.
A Melita nasceu a 10 de novembro de 1991 no Niassa, em Moçambique, no seio de uma família muçulmana, numa família de 9 irmãos. A sua vida mudou profundamente quando foi viver com uma prima, em circunstâncias muito difíceis. Sobre esse tempo, partilha: “Eu já cresci antes de crescer. Ainda menina, mas já estava numa batalha tão forte. Cresci sozinha, enfrentei os medos sozinha. Ninguém me ajudava a matricular, desde a terceira classe. Eu já fui abandonada com crianças pequenas em casa da minha prima. Sem nada em casa, mas eu consegui superar. E cuidava daquelas crianças como se fossem meus filhos. Então hoje sou mãe, mas eu me orgulho porque posso dizer que fui mãe, antes de ser mãe.”
Apesar das dificuldades, a Melita tem o dom raro de conseguir reconhecer o bem que a vida fez nascer mesmo nos momentos mais duros. “Aquilo ajudou-me a amadurecer cedo. A minha vida hoje não é tão difícil porque desde que nasci enfrento muita coisa. Isso conforta-me. Fico forte por saber quem sou, a mulher que sou.”
Da sua história nasce um valor que a vida lhe ensinou, a coragem. “Quando a situação está difícil, a primeira coisa é ter coragem. Quando se tem coragem, tem-se força para se levantar do buraco onde a pessoa estiver.”
A Melita é mãe de quatro filhos. Ser mãe é para ela uma alegria imensa. “Ser mãe é algo inexplicável, mas maravilhoso. Só de ver que está a carregar uma vida dentro de si, é uma alegria.” Além dos seus filhos de sangue, é mãe para todas as crianças que passam pela sua casa (e são muitas!), acolhendo-as como se fossem suas.
Vive em Tete, no Bairro Samora Machel, desde 2017. É uma referência para quem a rodeia, um verdadeiro exemplo de viver em comunidade. Quem visita a Melita encontra sempre um ombro amigo. Estar em sua casa é saber que haverá sempre mais alguém a chegar – e mais uma cadeira, um lugar na esteira ou um espaço à sombra da árvore do seu quintal. “Eu gosto de ver todo mundo a sorrir. Quando vejo alguém de cabeça para baixo, é uma tristeza para mim. E quando vejo alguém a passar dificuldades, mesmo que eu não tenha… eu não tenho muito, mas compartilho aquilo que eu tenho (…) Se a pessoa concordar de eu dar a minha mão, então vou lhe apoiar, vou pegar, vou dar minha mão, vou segurar e vou lhe levantar quando estiver caída.” Para a Melita, viver bem em comunidade exige humildade. “Viver em comunidade é saber rebaixar-se. Não se colocar como superior. É pôr-se no lugar da outra pessoa.”
Tendo vivido em diferentes províncias de Moçambique, aprendeu a importância de adaptar-se a cada contexto em que está “Se as pessoas andam descalças, numa sociedade que encontro que as pessoas andam descalças, eu também tiro meus sapatos e escondo. Sigo caminhando com as pessoas. Para não existir diferença.”
Apesar de vir de uma família muçulmana, a Melita é católica, influenciada por uma amiga de infância, que lembra com grande carinho, e que lhe deu a conhecer esta fé. A fé ocupa um lugar central na sua vida, sobretudo nos momentos difíceis, onde sente de forma mais nítida a presença de Deus. “É nos momentos difíceis que eu sinto mais a presença de Deus. É a mesma coisa que dizem que a pessoa humilde está mais apegada a Deus. Então, eu sinto que Deus em mim está presente porque eu preciso d’Ele. Se não fosse d’Ele também, eu não seria nada.” A importância da humildade na fé, de nos colocarmos como necessitados, é para a Melita uma experiência profunda de encontro. A sua relação com Deus é vivida de forma constante no seu dia-a-dia. “Quando acordo, falo d’Ele. Quando descanso, falo d’Ele. Cada moedinha que ganho, digo graças a Deus. Eu não O vejo, mas sinto que Ele está comigo.”
A Melita é também um membro essencial do grupo de mulheres Akazi Wakumussa Andzao (Mulheres que levantam outras mulheres, em Nyungwe), um nome que descreve bem a sua forma de estar e viver. Já teve vários pequenos negócios e é uma líder natural, uma voz respeitada por todas. Para ela, o valor deste grupo está na partilha de experiências e na certeza de que há sempre algo a aprender com o outro. “Ninguém nasce sabendo tudo. Quem ensina, também aprendeu com alguém. Partilhar o pouco que se tem pode ajudar outra mulher a levantar a cabeça e seguir em frente.” É uma pessoa atenta a quem vive em situações mais difíceis, movida por um desejo genuíno de fazer o bem e querer o bem do outro.
As pessoas que vou conhecendo aqui lembram-me todos os dias que tenho muito mais para aprender do que para ensinar. É uma graça que as nossas vidas se tenham cruzado com a vida da Melita. Na sua forma de viver, de cuidar e de se dar aos outros, vou aprendendo o que é viver em missão.
Mariana Ortigão
Tete (Moçambique), 2025-2026
