Houve deslocamento

A missão principal da Área Transversal de Economia Social da Universidade Católica Portuguesa (ATES/UCP) foi uma formação em “Liderança, Serviço e Compaixão: Cuidar da Casa Comum”.

 

A missão principal da Área Transversal de Economia Social da Universidade Católica Portuguesa (ATES/UCP) foi uma formação em “Liderança, Serviço e Compaixão: Cuidar da Casa Comum”.

Fomos recebidas na missão dos Leigos para o Desenvolvimento na Ganda com toda a hospitalidade e cuidado. Desde o primeiro minuto, percebemos que ir dar formação, é, em si, a oportunidade de uma formação: de interligação.

Não se pode dissociar o trabalho dos Leigos para o Desenvolvimento da sua forma profunda de estar em comunidade, como sempre lá estivessem estado e como se preparam para o dia em que não lá estarão. Porque a ideia de desenvolvimento parte desta premissa de invisibilidade de serviço. Uma de nós é anciã e por isso, o regresso a casa e à memória foi o primeiro mergulho na comunidade. Para quem não é Leiga para o Desenvolvimento, a hospitalidade e exemplo foram a entrada numa casa que depressa ficou de todas.

Os dias de formação foram repletos de reflexão, trabalho em conjunto e compromisso para o futuro. Cerca de 50 pessoas marcaram presença e desenharam os seus projetos. Desenharam o futuro.

Somos as duas – Mariana e Joana – companheiras em diversos projetos. Temos a sorte de aliar a amizade ao sentido. Por isso, a nosso pedido, completamos a missão principal com alguns extras que se transformaram em máximos. Foi um privilégio e enorme aprendizagem, introduzir a sensibilização para as pessoas com deficiência na Escola Secundária do Alto da Catumbela, onde desafiamos os alunos, através de histórias, a transformar o olhar sobre a diversidade humana. Numa das tardes, convidamos a comunidade para um Death Café onde em roda, conversamos sobre a morte e o luto. E, por fim, no último dia dançamos a vida e celebramos a mulher num encontro sobre Liderança com as mulheres do Alto da Catumbela (Promaica).

É difícil para nós definir o tempo que passamos na missão dos Leigos para o Desenvolvimento pois corremos o risco de sermos incompletas. Na verdade, foi um homem sábio que resumiu os dias que vivemos no Alto da Catumbela – Ganda, quando partilhou que “ houve deslocamento”.

De facto, o tempo deslocou-nos para um tempo que ficou. Sem dramatismo ou heroísmo. Foi tão fundo como as manhãs em que o sol nos lembra a alegria de estarmos vivos e a certeza de que um dia, não estaremos. É difícil transmitir sem injustiça a vida geográfica e o tempo cronológico de um lugar novo que, rapidamente, ficou velho. Porque se entranhou, sem estranhar. Recusamos a descrição porque arriscado seria cair em banalidades visuais ou facilitismos morais. E…nada há mais injusto ou violento do que sermos vistos pela lente da lógica ilógica de quem se fere com o sofrimento que não sente. Não se trata de apologismos à justiça, nem balanços à dignidade.

O deslocamento é outra coisa. Algo sagrado. Que permanece para lá das palavras ou dos silêncios. São frações de segundos multiplicados em que nos, entendemos. Que nos permitimos, entrelaçar. Que encontramos, o encontro. A transformação, foi um coletivo deslocado. Foi para lá do que imaginamos e para dentro do que sabíamos.

Partimos partidos e chegamos reunidos. Foi só isso. Uma partida, uma chegada. E por isso…tanto.

Caminharemos, juntos, deslocados.

Mariana Abranches Pinto
Joana Morais e Castro