“Era estrangeiro e acolheste-me” (Mt 25,35)

Nem posso acreditar que já passaram seis meses desde a nossa chegada a Tete.

Nem posso acreditar que já passaram seis meses desde a nossa chegada a Tete. Na nossa paróquia, temos um grupo responsável pelo acolhimento da comunidade na igreja e, nas suas t-shirts, tem este versículo: “Era estrangeiro e acolheste-me” (Mt 25,35). Quando prestei mesmo atenção a ele, senti que é exatamente isto que sinto sobre o acolhimento deste povo moçambicano. Sou estrangeira, mas sinto-me sempre tão acolhida. Quero partilhar alguns dos sinais de acolhimento que fui sentindo ao longo destes meses.

Aqui é comum caminhar pelo bairro e parar para visitar alguém sem termos avisado previamente e, no entanto, mal chego, saudamo-nos e, de seguida, ouve-se: “Traz cadeira” ou “Senta na cadeira”. Este convite é irrecusável: sentar numa cadeira para conversar. Se não houver cadeiras suficientes numa casa, isso não é problema – pedem ao vizinho ou então os donos da casa abdicam da sua cadeira em prol dos “hóspedes”.

Quando é uma visita programada, também posso encontrar já tudo pronto para me receber. Lembro-me da minha primeira reunião com a equipa de coordenação do Grupo Comunitário, em casa do Sr. Jo, que, mal cheguei, já tinha uma mesa de madeira com uma toalha; em cima, tinha água e copos e várias cadeiras à volta, inclusive uma cadeira de computador almofadada que era para mim… porque sou quem está a acompanhar este grupo. Em casa de cada membro da equipa que visito e onde reunimos, temos sempre uma mesa preparada e várias cadeiras ou bancos, e há sempre algo na mesa – o quê depende de cada um e das suas posses.

Quando estou pelo bairro e é perto da hora de uma refeição, é muito comum receber um convite para mata-bichar, almoçar ou até jantar em casa de alguém, muitas vezes sem nos conhecerem, e querem partilhar aquilo que têm connosco. Também temos vários convites de pessoas com quem trabalhamos e com quem nos damos para ir a sua casa almoçar. Destes vários convites, comi desde papa de malambe até xima com matapa, feijão, arroz, peixe pende e frango. Vê-se que é tudo preparado com orgulho e gosto e, claramente, “anima” a barriga.

Antes de iniciarmos uma refeição, abençoamos e vem uma pessoa com um jarro com água, um alguidar e uma toalha – é o que chamam aqui “água de lavar mãos”. Nesse momento, a pessoa entorna o jarro de água para as minhas mãos, que estão sobre o alguidar, e, quando termino de lavar as mãos, é-me entregue uma toalha para as secar. Há algo neste gesto que me relembra a humildade de Jesus a lavar os pés aos seus discípulos na Última Ceia.

No final da refeição, repete-se este gesto, porque é comum comer-se com as mãos. No entanto, a mim entregam-me sempre um garfo, dando-me a opção de como comer; também ensinam como se deve comer a xima com as mãos.

Sinto-me mesmo bem acolhida aqui em Tete, onde vou compreendendo cada vez mais o que significa ser acolhida e cuidada.

 

Joana D’Orey
Tete (Moçambique), 2025-2026