Estes primeiros meses de missão têm sido como uma ida ao rio lavar roupa. Tudo começa com uma bacia cheia, cheia de roupa, mas também cheia de tudo aquilo que trazemos connosco, as nossas capacidades, talentos, expectativas, fragilidades e a própria maneira de ser, prontos para servir.
Carregamos a nossa bacia na cabeça e, pelo caminho, vamo-nos cruzando com muitas pessoas que nos cumprimentam ou perguntam se estamos a vender pixi (peixe). Aos poucos, essas caras deixam de ser desconhecidas e tornam-se parte da nossa história, da nossa bacia, tal como aqueles a quem demos um abraço antes de partir. São estes encontros e estas pessoas, que Deus coloca no nosso caminho, que nos lembram que a missão começa sempre na relação.
Depois de muitos Kumá ê? (Como estás?) e Buá sô! (Estou bem!), chegamos finalmente ao rio. Ali encontramos muitas caras, umas conhecidas, outras com histórias por descobrir. Pousamos a bacia e a gamela sobre as pedras e, como tantas mulheres e homens que lavam ali a sua roupa, também nós começamos a esfregar. Curvamo-nos e encarnamos, deixando que a vida desta comunidade nos toque e nos transforme.
Tal como o processo de lavar a roupa, também a missão vive de diferentes momentos. Esfregamos, deixamos de molho, enxaguamos, torcemos… É o tempo de conhecer as pessoas, de escutá-las, de pensar e agir com elas, de entrar no ritmo próprio deste lugar que nos acolhe.
Depois de tudo bem lavado levamos a roupa para a praia e deixamo-la a secar ao sol. É tempo de esperar, esperar junto daqueles com quem criamos laços de amizade e confiança. É tempo de apanhar vento e recuperar forças. Tempo de confiar que os frutos do trabalho chegarão no momento certo, pois tudo se revela a seu tempo, como a roupa que só deixa de pingar quando está seca.
Mas também há dias de chuva. Dias em que a bacia fica mais pesada e que parece difícil encontrar um sítio seguro para estender a roupa. É aí que recorremos aos outros, aos amigos, aqueles amigos que ajudam sem questionar, que oferecem o seu espaço, tempo e presença.
Depois de muito caminho percorrido, chegamos a casa com a roupa seca. Chegamos renovados: com novas amizades, novas aprendizagens, e também com algumas dores, dores normais do trabalho e da entrega, que às vezes nos fazem hesitar. Mas o coração vem cheio. Cheio de gratidão, de encontros e alegria. E é esse coração cheio que nos faz querer regressar com a bacia na cabeça.
Para mim a missão tem sido assim: deixar-me lavar, deixar-me transformar, e voltar sempre ao rio onde me esperam e sou enviada.
Matilde Lourenço
Praia Melão (São Tomé e Príncipe), 2025 – 2026
