Cantar graças ao Senhor

De vez em quando, dançá-las também na Missa. Mas e se fosse ao longo do dia, todos os dias?

Algo que me surpreendeu logo nas primeiras semanas de Missão foi constatar que se canta ação de graças em todas as Missas, dominicais e diárias. Por ser algo que já não vejo tanto em Portugal, alegrou-me poder voltar a cantar este momento da Missa, poder contar com ele sempre.

Algo que torna este momento mais especial (e que não se vê em todas as Missas), é ser acompanhado de dança! O coro que anima a Missa costuma designar entre duas a seis pessoas para dançar, mas certas ocasiões permitem que qualquer um se junte para louvar a Deus assim. Para quem já tem o hábito de ver a vida com Deus como uma dança, vê-lo incluído na Missa foi uma emoção!

Devo realçar a alegria que vem de dar graças. Não é apenas na Missa, mas em qualquer momento do dia. Cumprimentar alguém e ouvir de volta um “sem macas”, “sem queixas” ou “todos de saúde” sempre pontuado com um “Graças!”. Bater palmas quando alguém partilha uma boa notícia, grande ou pequena. Cantar para marcar o ritmo de trabalho ou da marcha. É qualquer coisa estar no meio de mulheres a pisarem milho na pedra e ouvi-las a cantar em conjunto, com os pisos a marcarem o ritmo. Ou estar a regressar algures em grupo e espontaneamente fazê-lo a cantar, a dançar e a correr ao mesmo tempo.

Numa vida marcada pelo imprevisto e pela falta de recursos, dar graças torna-se a fonte de estabilidade, alegria e ação. Há sempre algo a agradecer. Pode-se sempre partilhar a alegria, tão gratuitamente dada. Dar graças ajuda a reconhecer o que se pode fazer para se continuar, quando parece que mais nada pode ser feito. Acima de tudo, ajuda a estar presente, a ser presente. Não há maior presente que se possa dar como a nossa vida. Assim nos mostrou Deus. Fazer-nos presentes, fazer-nos próximos, é algo que deixa marcas duradoras – ainda hoje ouvimos falar de antigos voluntários por causa disto. Vêmo-lo nos muitos que se reúnem para ajudar num óbito ou para acolher visitas. Enquanto se é e se está, há sempre algo para dar e alegria para partilhar.

Por isso, viver dando graças ao Senhor alegra a vida, marca o ritmo dela e aproxima as pessoas. Ainda que com alguma resistência pela “produtividade” familiar de onde venho, estar em Missão tem-me levado a sair mais de mim e a seguir o exemplo que tanto vejo naqueles com quem me cruzo todos os dias: num contexto onde a falta de recursos e a pouca acessibilidade a necessidades básicas levam as pessoas a viver um dia de cada vez, dar graças e partilhar o possível torna-se o colete salva-vidas que não deixa afundar.

Sofia Byrne

Ganda (Angola), 2025-2026