Por onde começar a descrever um mês e meio de Vida em Angola?
Os dias são intensos, cheios de encontros e aprendizagens, como se coubessem vários dias num só. Poderia ficar difícil reconstituir o que fiz ontem, mas por aqui também se trabalha muito a memória, a começar pelas expressões em Umbundo a língua falada pelo povo Ovimbundo. Talvez seja melhor percorrer apenas um dia.
Viver na Ganda é acordar com o sol que entra pela janela, através da rede mosquiteira, e com o som das pessoas que já enchem as ruas. Ah!, e o som das vassouras feitas de palha a varrer as ruas logo pela manhã. É sair de casa e dizer, com alegria, “Bom dia!” e receber de volta “Obrigada” e um sorriso rasgado que ilumina o caminho. Este obrigada, em resposta ao bom dia, evidencia a forma como aqui se responde à Vida, com gratidão e sorrisos que falam mais do que as palavras.
As pessoas são, sem dúvida, o ponto alto do Alto Catumbela. A generosidade e o gosto com que acolhem as visitas, o humor, a alegria e o tempo que oferecem. É inspiradora a forma como vivem de porta aberta e em comunidade, de tal forma que “pai”, “mãe” e “mano” são formas de tratamento comuns por aqui. As saudades da família vão sendo suavizadas por virmos ao encontro de pessoas que nos tratam por “filhos” e “manos”.
As mães, que trabalham nas lavras e nas praças, são um testemunho de resistência e amor. Vê-las cuidar da terra, e bater o milho na pedra para fazer fuba, com serenidade e força firmes, é uma lição de entrega.
Aqui, aprende-se também o respeito pela história de cada pessoa. Cada rosto carrega memórias, dificuldades e esperanças. Ouvir essas histórias é um privilégio e um convite a olhar o outro com maior profundidade, com mais empatia. Os relatos, na primeira pessoa, de quem viveu a guerra, só confirmam que esta deixa rasto de destruição e marcas indeléveis.
As paisagens também falam, as montanhas, as pedras desenhadas e os rios lembram-me a presença de Deus, tal como em cada curva do caminho entre a Ganda e o Alto Catumbela. Neste caminho, olho pela janela do carro e penso: tudo aqui convida à contemplação, à gratidão pelo simples facto de estar e ver, até que caímos num dos buracos da estrada e volto à realidade num salto. Contemplação interrompida, mas fé fortalecida!
Não poderia terminar sem falar do final do dia, quando me reencontro com os meus manos de missão, partilhando o dia em oração e comunidade. É lugar onde aprendemos a servir e a ser servidos, onde temos a certeza que o Reino de Deus começa já aqui e é, também, quando o sol se põe e as lanternas se põem na cabeça.
Um mês e meio depois, sinto que Angola já me habita. Que a missão não é só o que fazemos, mas, sobretudo, o que vivemos e o que deixamos que os outros transformem em nós.
Despeço-me, da forma como se termina o dia por aqui: Uteke uwa (feliz noite, em Umbundu)!
Maria Santos
Ganda (Angola), 2025 – 2026
