Em missão, o tempo ganha outro significado.
Era uma impressão que já trazia comigo, mas que não percebia exatamente em que se materializava, quando cheguei a Angola. O tempo pode manter-se acelerado, se assim estivermos interiormente. Se a urgência de fazer acontecer se mantiver, o dia pode ser, de facto, acelerado de manhã até à noite, cheios de tarefas e objetivos. No entanto, estar em missão é tempo privilegiado onde cabem a oração individual, a oração comunitária, o estar com o outro e conhecê-lo verdadeiramente. Tudo isto, desacelera o tempo.
Tenho pensado muito no tempo que os processos exigem, e em como isso pode ser desafiante, mas ao mesmo tempo, é no processo que vamos encontrando grandes alegrias e aprendizagens.
A proposta dos LD para cada voluntário, inclui o acompanhamento de um Grupo Pastoral. No meu caso, tenho acompanhado o grupo local de mulheres da PROMAICA (Promoção da Mulher Angolana na Igreja Católica), que se reúnem para louvar a Deus, partilhar o tempo, estar e aprender sobre diversas temáticas, umas com as outras. Nestes encontros, perceciono de forma muito clara a beleza dos processos lentos, que fazem valorizar ainda mais o resultado final.
As mulheres deste grupo costuram, fazem tricot, crochet, entre outras atividades. Ao observá-las, recordo-me frequentemente de uma frase que me tem acompanhado, de Antoine de Saint-Exupéry, em O Principezinho:
“Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante”.
Cada ponto de crochet que observo, é um caminho a percorrer para alcançar algo maior. Lembra-me que podemos e devemos desacelerar. Que devemos investir empenho e brio no que fazemos e, por isso, nem tudo é rápido e eficaz. Vinda de uma sociedade do “pronto-a-vestir” e do “pronto-a-comer”, encontro-me muitas vezes entre a urgência do fazer e a sabedoria do cuidar. Lembra-me que os processos demoram, mas que o caminho também pode ser desfrutado. Que não precisamos de querer acelerar o resultado, mas que podemos aproveitar o processo, como quando entoam cânticos, enquanto criam uma demorada peça de crochet.
Vejo este mesmo investimento e dedicação na cozinha, que em dia de festa começa, alegremente, às seis da manhã e pode prolongar-se até às treze horas, para desfrutar de um almoço de trinta minutos. No entanto, durante todas estas horas (forma cronométrica com que estou habituada a contar o tempo), as conversas e cânticos transformam-nas em tempo pleno, partilhado e bem aproveitado (desafiando a forma utilitária com que estou habituada a olhar o tempo).
Também no projeto de desenvolvimento que me foi confiado acompanhar, o Grupo Comunitário do Alto Catumbela, o tempo dedicado, muitas vezes sem resultados visíveis imediatos, pode ser fonte de frustração. No entanto, volto à frase que me acompanha: “Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante”. Acredito que, também aqui, o tempo dedicado conduzirá a um desenvolvimento sustentável. É um processo demorado, e é precisamente isso que o torna tão desafiante e significativo ao mesmo tempo.
Também nas relações humanas, é o tempo investido que cria laços e que as torna tão valiosas. Sonho que todos consigamos cuidar com dedicação das nossas rosas, porque vale só por si.
Maria Santos
Ganda (Angola), 2025 – 2026
