ALELUIA, ALELUIA, ALELUIA! Cristo Ressuscitou!

A Páscoa é um tempo de família, de união, de alegria. Não estando fisicamente com a família, reforçaram-se os outros pilares da Páscoa. E assim foi.

A missa começou às 8h00 em Praia Melão. Era cedo, mas o calor já tinha despertado há muito. Cânticos de alegria ecoavam e um júbilo especial esticava os sorrisos dos fiéis. Foi uma bonita celebração. Terminando às 10h00, fui rapidamente buscar o sino que iriamos usar como “chamariz” nas visitas pascais dessa manhã. A nossa ideia era, como acontece nalguns sítios em Portugal, ir de casa em casa desejando boa Páscoa, rezando e aspergindo de água benta as famílias que nos recebiam. Depois da foto da praxe lá partimos, eu, a Matilde e a Inês, com cerca de 10 jovens da paróquia. Íamos todos vestidos de vermelho e branco, carregando uma cruz com flores e um balde de água benta, portanto, não passávamos despercebidos.

Com a alegria do Ressuscitado, o constrangimento inicial rapidamente sumiu. Logo começámos a entoar cânticos por onde passávamos, que despertavam a atenção dos que nos ouviam. Alguns curiosos iam perguntando o que era aquilo, outros chamavam-nos. Para os que nos acolhiam, o ritual era o mesmo: fazíamos uma oração inicial, aspergíamos a casa e as pessoas, cantávamos cânticos pascais, e despedíamo-nos. Em muitas casas chamava-se com urgência as crianças para serem molhadas pela água benta, e tinham de ser bem molhadas!

Achei curioso as pessoas que, mesmo sem serem católicas ou sem compreenderem bem o que estávamos para aí a fazer, de forma simples nos chamavam. Era sinal de que estávamos a ter o efeito certo – levar as pessoas a aproximarem-se do Cristo ressuscitado e da sua alegria. Reflito sobre a espiritualidade dessas pessoas que, sem saberem ao que vinha este grupo de 15 jovens, nos abria as portas e pedia uma oração. A maior parte delas sem grandes teologias, mas apoiadas n’Ele. Sem medo de se mostrarem vulneráveis ou dependentes do Seu amor. Ao vê-las, imagino que Deus tenha ficado feliz. De que nos vale sermos eruditos se perdemos o amor? Uma senhora com os seus 60 anos aproximou-se de mim e, de maneira muito espontânea, com o seu sotaque São Tomense bem carregado, disse-me: “Eu estou a precisar muito de Deus”. Queria responder-lhe com humor – “Minha senhora, estamos todos!”, mas contive-me dado que estava até emocionada. Entrámos na sua casa e demos o que tínhamos para dar.

Entre chapas, tábuas de madeira e árvores, o nosso percurso foi sendo ajustado. Andámos nas ruelas labirínticas de Praia Melão, em sítios que eu desconhecia e onde me teria perdido, não fosse a orientação dos jovens que iam connosco – estavam a jogar em casa. O sol abrasador, sem qualquer vento, ia sugando as nossas energias. Dou muitas graças a estes jovens que personificaram verdadeiros discípulos! Teria perdido as forças para cantar muito antes do fim. Mas eles não – mantiveram sempre o ânimo.

Estavam a aproximar-se as 14h00 e a barriga já clamava por um aconchego – tinha chegado a hora de comer. Abrandámos o ritmo da caminhada e fomos recebidos em várias casas até não termos mais capacidade interna. Mesas fartas, muitas gargalhadas, muito amor.

Visitámos muitas casas. Estimo que tenhamos passado as 40. Voltando a casa neste dia recheado, ainda parámos no bairro português para abençoar a casa de uma amiga que nos tinha convidado de antemão. E o que era só uma visita rápida acabou por ser três – o sino que levávamos chamou mais duas famílias que nos quiseram receber. Assim fechámos o dia. Há quem diga que vivemos mais no passado do que no presente. Vivemos nas memórias e nas saudades dos tempos que passaram. Este dia é daqueles que vou vivendo e revivendo nesta Páscoa.

 

Francisco Santos
Praia Melão (São Tomé), 2025-2026