Acolher e ser acolhido

O exercício de esvaziar e encher, de largar e partir, para aterrar e acolher, é típico do missionário. É pois, um exercício de movimento, de quem quer caminhar.

Qualquer chegada tem os seus desafios. A minha não foge à regra: as diferenças que  encontramos num novo lar são muitas vezes um desafio. Mas também uma bênção! Quando estava em formação para vir para missão, pensava muitas vezes que este sair da zona de conforto é um ótimo espaço para descobertas e crescimento. Sinto que a vinda em missão para São Tomé é para mim uma abertura ao incerto, à novidade e ao desfazer de certezas e estabilidade, e que isso me relembra a minha fragilidade e limitações.

Passou um mês desde que aterrei. O espaço temporal e mental que estava habitualmente reservado para os meus entreténs em Portugal, que larguei, é agora preenchido, ou inundado, por novidades. Por pessoas que conheço e amizades que vou criando, por sítios que visito, por cultura que provo, oiço, sinto. Tudo isso me enche. Assim, outro desafio é o acolher tudo isso! Pois tanto acolhem os que recebem gente em casa, como os que chegam. E tem sido claro o acolhimento que tenho vivido. Acolher e ser acolhido. Hospedar e ser hospedado. É o que me propõe São Tomé, e todas as novas caras com que me tenho cruzado.

Nesta “aterragem” em São Tomé, saltam à vista os contrastes desta ilha. O ambiente constante de festa, mas a simplicidade das mesmas. Há sempre um motivo para festejar. Mesmo na falta de eletricidade e água, animação não falta, às vezes à luz de velas feitas com óleo de palma dentro de papaias. Outro contraste evidente é a beleza natural no mar, na floresta, que choca com a sujidade e desorganização nas ruas. Um último, tão presente no dia a dia da nossa comunidade, é a alegria na pobreza.  Os sorrisos por cá são constantes e contagiantes, mesmo perante as muitas dificuldades e carências que existem. Estes contrastes tão rapidamente apaixonam, como chocam.

Nesta terra tão fértil, é impossível não dar graças a Deçu (“Deus” em crioulo forro)! No quintal cá de casa cheira a manga e a goiaba, não faltam papaias, nem bananas, nem frutos locais – sape-sape e carambola. Eu, a Inês e a Matilde damos graças a Deus por esta terra fértil e pedimos que também o terreno onde trabalhamos – Praia Melão – seja fértil no desenvolvimento, no trabalho, nos frutos da nossa presença.

Não poderia testemunhar este primeiro mês de missão sem falar da Mãe. No dia 15 de novembro fomos receber a imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima ao aeroporto de S. Tomé, em peregrinação com muitos fiéis. Esta imagem percorrerá todas as paróquias da ilha neste próximo mês. Esta Mãe, que é símbolo de ternura e cuidado, de missão, também a mim me interpela a fazer do seu “Sim” o meu. Um “Sim” que acolhe os caminhos de Deus, que parte apressadamente ao encontro do próximo e é reflexo da vida do Cristo que queremos servir.

Francisco Santos
Praia Melão (São Tomé e Príncipe), 2025 – 2026