Uma action figure da Idade Média

O Cristo articulado do Museu Grão Vasco, em Viseu, é um exemplar excecional dentro do grupo medieval de esculturas articuladas de Jesus – encontradas em muitos países europeus – por ser dos objetos mais flexíveis de todo este conjunto.

O Cristo articulado do Museu Grão Vasco, em Viseu, é um exemplar excecional dentro do grupo medieval de esculturas articuladas de Jesus – encontradas em muitos países europeus – por ser dos objetos mais flexíveis de todo este conjunto.

Na Idade Média a articulação de uma figura era a maravilha técnica que possibilitava uma encenação: uma “escultura animada” de Cristo tinha o mesmo papel que um ator, transformando-se em protagonista de uma história particular; a imagem viva numa dinâmica dramática em que os espetadores também representavam uma importante parte.

A peça mais antiga do Museu Grão Vasco é um Cristo Crucificado – com uma datação que se estabelece entre meados do século XII e o início do século XIII –, contudo, diferente das que se costumam encontrar em capelas, paróquias, dioceses e museus em Portugal. Como uma action figure à escala humana, o Cristo de Viseu é articulado no pescoço, ombros, cotovelos, pulsos, joelhos, anca esquerda e dois pés. As semelhanças deste Cristo românico com as action figures não se ficam apenas pelos dispositivos de dobradiças e das esferas que permitem que o seu corpo seja manipulado – o Cristo de Viseu é também uma escultura viva, concebida para participar em rituais e cerimónias de cariz litúrgico e paralitúrgico que, e em vários sentidos, adquiriam uma dimensão verdadeiramente teatral.

Não será preciso viajar no tempo para imaginar uma destas cerimónias religiosas teatralizadas, com uma espécie de marionetas representando personagens bíblicas. A Semana Santa, tanto em Braga como em Jerusalém, e ainda diversas celebrações associadas a esta época litúrgica do ano, refletem claramente a herança cultural que a religiosidade medieval nos legou. Muitas vezes, ainda são usadas imagens articuladas de Cristo que, tal como o Cristo românico de Viseu, cumprem diversas das etapas desta reencenação litúrgica dos últimos dias da vida de Jesus. A liturgia é como teatro: reencena, homenageia e revive pontos cruciais de episódios narrados nas Escrituras: o altar da igreja é a mesa onde Cristo tomou a sua última ceia, o cálice, o vinho e a hóstia são também adereços nesta construção teatralizada dos momentos vividos por Jesus e as outras personagens, num ciclo que é retomado em todas as missas, recriando ad aeternum este episódio, projetando-o para o infinito.

As celebrações da Semana Santa cumprem o mesmo objetivo: são uma atualização da Paixão de Cristo que estabelece uma relação entre os fiéis e Jesus através do culto. Nestes rituais encenados participam figurantes e as pessoas interpretam os papéis dos romanos, ou do Menino Jesus, do Bom e do Mau Ladrão; usam-se fatos, adereços, e lêem-se textos. Mas muitas outras vezes, os “atores” são as esculturas. O Cristo de Viseu terá sido um desses “atores”: a mobilidade desta peça escultórica permitia que conseguisse assumir as diversas iconografias relativas aos eventos celebrados na Semana Santa – o caminho para o Calvário, a Crucificação, a Deposição da Cruz, o sepultamento no Santo Sepulcro, a Deposição no Túmulo e a Ressurreição – podendo até ter sido usado para encenar episódios adicionais, tal como a Pietà ou a Ascensão aos Céus.

O Cristo de Viseu, tal como todos os outros exemplares de esculturas cristãs articuladas da Idade Média (e ressalve-se que foram identificadas cerca de vinte destes Cristos medievais só na Península Ibérica), tem uma dupla função: enquanto escultura devocional, cultuada localmente ao longo do ano litúrgico, mas também representando-o, “em ação”, durante as celebrações da Semana Santa.

Não será preciso viajar no tempo para imaginar uma destas cerimónias religiosas teatralizadas, com uma espécie de marionetas representando personagens bíblicas.

A action figure do Museu Grão Vasco é um exemplar excecional dentro do grupo medieval de esculturas articuladas de Jesus – encontradas em quase todos os países europeus – por ser dos objetos mais flexíveis de todo este conjunto e, possivelmente, o mais antigo da Península Ibérica. Outros Cristos “animados” da Idade Média incorporavam outras qualidades técnicas, tais como olhos e língua com a capacidade de se moverem, recetáculos para a saída de sangue, perucas ou materiais que imitavam a pele humana. Em certas cerimónias litúrgicas, esculturas de Cristo eram suspensas ou movidas de um lado para o outro por meio de ganchos, fios e roldanas.

Estas imagens “vivas” medievais podiam ser ainda representações do Menino Jesus, objetos que incorporam os acervos de inúmeros mosteiros femininos e que eram dotadas de diferentes conjuntos de roupas, berços, manjedouras e até banheiras. Estão bem documentadas as relações íntimas que as freiras, afastadas da maternidade, tinham com estes “bonecos sagrados”, feitos para serem amparados, segurados ao colo, abanados no seu berço como se se tratassem de um moderno Nenuco ou de um bebé real.

Outros exemplos destas esculturas e da sua participação em construções teatrais de episódios do Cristianismo são as das figuras do presépio, frequentemente representadas por atores de carne e osso numa tradição iniciada por São Francisco de Assis, criador do primeiro presépio vivo. Há ainda diversos registos medievais de celebrações litúrgicas por toda a Europa – nomeadamente na cidade francesa de Dieppe, durante o século XV – que eram como verdadeiros espetáculos de cenas bíblicas em palco, envolvendo figurantes, objetos, cenários, adereços, efeitos de palco e até mesmo esculturas mecânicas, que tinham a capacidade de se moverem sozinhas.

Este tipo de celebrações mais festivas e folclóricas foram banidas durante o Concílio de Trento. Ao contrário das esculturas devocionais, as action figures implicam uma proximidade maior e até contacto direto entre espetador e imagem. Estas imagens participam na ação e nas encenações, agindo como protagonistas nestes espetáculos e quebrando as barreiras entre o real e a fantasia, o crente e a divindade. O Cristo de Viseu, figura de ação, funcionava como um avatar de Jesus, ganhando para o crente um particular poder de mediação e intercessão, por oposição a esculturas não-animadas. Tal como uma marioneta moderna, um objeto que é criado e manipulado por alguém, este Cristo faz-nos refletir sobre a ideia de agência das coisas. As coisas que, nesta relação recíproca que estabelecem connosco, também nos criam a nós, nos formam e transformam o nosso mundo.

Museu Nacional Grão Vasco,
Paço dos Três Escalões, Adro da Sé,
3500-195 Viseu

Contactos:
T.: +351 232 422 049
mngv@mngv.dgpc.pt

Site: http://www.museunacionalgraovasco.gov.pt/

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.


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Esta secção é da responsabilidade da revista Brotéria – Cristianismo e Cultura, publicada pelos jesuítas portugueses desde 1902.

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