Sair de mim para me encontrar

Hoje contamos com um texto do mais jovem colaborador do Ponto SJ desde o seu começo. O Miguel Corsino leu um conto de Saramago e partilha connosco o impacto que esta leitura deixou.

Hoje contamos com um texto do mais jovem colaborador do Ponto SJ desde o seu começo. O Miguel Corsino leu um conto de Saramago e partilha connosco o impacto que esta leitura deixou.

A necessidade de ler um livro e fazer um projeto de leitura para a disciplina de Português levou-me a um pequeno livro que acabou por se tornar grande.

“O CONTO DA ILHA DESCONHECIDA” [1997], de José Saramago da editora Caminho, é um conto que nos faz pensar no que é importante na vida. Fala de um Homem determinado em encontrar uma ilha desconhecida (ou encontrar-se a si mesmo!). Este Homem vai ter com o rei que, inicialmente, não o atende e manda outra pessoa, em quem manda, para o fazer, que manda outra, que manda outra… até chegar à mulher da limpeza (que não tem em quem mandar). O Homem insistiu tanto que, três dias depois, o rei foi falar com ele e aceitou dar-lhe um barco. A (tal) mulher da limpeza, que foi acompanhando tudo, saindo pela “porta das decisões”, juntou-se a ele. Juntos, num barco que escolheram, limparam e pintaram, foram à procura da ilha desconhecida – “pela hora do meio-dia, com a maré, a [caravela] ilha desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma”. O Homem e a mulher da limpeza foram à procura de quem eram!

No momento da escolha do barco, o Homem diz “Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar.” Embora não concordando inteiramente com esta ideia, parece-me que ela tem muito de verdadeiro. Quando dizemos de algo É MEU!, parece que estamos a assumir que temos isso como garantido e, portanto, não lhe damos o devido valor – parece que a pessoa ou algo não vale pelo que é e tem, mas sim pelo que eu posso fazer com ela, porque é minha. Porque a possuo. Quando gostamos, damos valor e esforçamo-nos para o manter e apreciamo-lo. Não estamos só à espera de receber, estamos também prontos a dar. Por que razão não concordo totalmente com a ideia? Porque me parece que nos podemos esforçar por algo ou alguém e valorizá-lo. Não como quem possui, mas como quem gosta. Como quem ama.

Ao ler “[…] mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou quando nela estiver […] Se não sais de ti, não chegas a saber quem és” pensei que uma pessoa se conhece verdadeiramente quando está perante uma situação nova. À partida, sabemos como reagimos numa situação do dia a dia, com a qual estamos sempre a depararmo-nos. E se for uma situação diferente? – Uma situação de pobreza. Uma situação de perigo. De guerra. De doença. Numa viagem pelo mundo. Numa boa surpresa. – Como reagimos no desconhecido? É nestas situações, nas quais não temos controlo sobre tudo, que nos revelamos. É nelas que nos conhecemos e damos a conhecer.

“[…] todo o homem é uma ilha […] é necessário sair da ilha para ver a ilha.” Todo o homem é um desconhecido para si mesmo e para os outros até ao momento em que se procura encontrar e se dá a conhecer. Ao mesmo tempo que se relaciona com outros, o homem é uma ilha, porque tem características próprias que o definem – a sua personalidade. Para nos conhecermos, precisamos de sair da nossa zona de conforto, do espaço em que controlamos quase tudo. Precisamos de sair do habitual.

“O Homem do Leme“, dos Xutos e Pontapés, a “Pedra filosofal”, de António Gedeão e “Viagem“, de Miguel Torga [e até o livro que li recentemente para um outro projeto de leitura, “Quando Hitler me roubou o coelho cor-de-rosa”, de Judith Kerr] são textos que falam de alguém que sai de si próprio, enfrentando o desconhecido, seguindo ideais e o seu sonho. Encontrando-se!

Identifico-me com as personagens deste livro porque, como elas, também tenho ideais e sonhos que quero seguir. Neste conto, as personagens tomam as suas decisões e fazem tudo para as poder concretizar. Ambos fazem escolhas e as suas vidas acabam por se encontrar e, juntos, permitem que cada um se descubra e seja quem é.

 

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.