Orunoko ou o Escravo Real – Romance

Esta semana a Brotéria sugere-nos um livro publicado pela primeira vez em 1688 e recentemente traduzido para português. Baseada em viagens pela África da autora Aphra Behn, Orunoko é a história homónima de um príncipe feito escravo.

Esta semana a Brotéria sugere-nos um livro publicado pela primeira vez em 1688 e recentemente traduzido para português. Baseada em viagens pela África da autora Aphra Behn, Orunoko é a história homónima de um príncipe feito escravo.

Orunoko, ou o Escravo Real estreia-se numa primeira tradução portuguesa pelas mãos de Aníbal Fernandes, com a tutela da editora Sistema Solar. Esta obra, cujo o título original é Oroonoko or the Royal Slave, é um curto romance da escritora britânica Aphra Behn, publicado em 1688, pouco antes da sua morte (1689). Aphra Behn é, segundo os registos disponíveis, a primeira mulher a viver e a sustentar-se exclusivamente da escrita, contrariando um ciclo que apenas permitia férteis devaneios imaginativos a mulheres de alta classe, sem preocupações materiais, cuja sobrevivência cabia a um pai ou marido.

Parcialmente baseada em viagens pela África da própria autora, Orunoko é a história homónima de um príncipe feito escravo por meios inesperados, e levado à traição para o Suriname, onde vive desditas, peripécias e um romance tumultuoso com Imoinda, na condição de escravo fora do seu contexto nobre.

Algumas críticas, ou até meras descrições deste romance, apontam para uma condenação inequívoca da escravatura e uma crítica à discriminação racial. A mim, porém, não me pareceu tão claro.

Num curioso prefácio, Aphra Behn propõe-se a relatar os factos exactamente como eles aconteceram, e não a contar uma história de um “herói fictício, com vida e destinos que a imaginação do poeta manipula a seu bel-prazer”. Parece aqui quebrar com uma importante doutrina aristotélica, a mimesis, segundo a qual a ficção [a arte] deve ser uma imitação da realidade, e que o aspecto imitativo é o que distingue Arte de História. “A função de um poeta não é contar o que aconteceu, mas aquilo que poderia acontecer”[1]. Que alguns elementos deste romance tenham sido baseados em factos testemunhados por Behn é verosímil, mas um cenário mais razoável é o de esta declaração de intenções realistas seja, em si, uma ficção.

Algumas críticas, ou até meras descrições deste romance, apontam para uma condenação inequívoca da escravatura e uma crítica à discriminação racial. A mim, porém, não me pareceu tão claro. Reiterar simplesmente que este é um romance anti-escravatura, seria fechar o espírito a muitas subtilezas de natureza política, social e humana que Behn imprimiu na narrativa. Por exemplo, a questão da igualdade não é tratada neste livro como a correcção política actual esperaria. Vejamos: Orunoko, o grande príncipe, que é descrito como sendo de uma notável beleza que em tudo se afastava da fisionomia africana, antes de ser feito escravo é, ele próprio, proprietário e comerciante de escravos. Depois de ter sido escravizado, por ser reconhecido como um príncipe ou até um quase-deus, tem um tratamento fortemente distinto, tanto da parte de outros escravos, como da parte dos senhores que o detinham. O desfecho do destino de Orunoko abre, porém, espaço à interpretação de uma certa crítica à escravatura, embora não encontremos os pruridos moralistas, e por vezes pouco profundos, das análises anacrónicas mais divulgadas.

[1] ARISTÓTELES, Poética. Cap. 9, 1451b. Trad. Ana Maria Valente (2008), Ed. Gulbenkian, Lisboa

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Capa da 1ª edição do livro. Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=231587

 

Orunoko ou o Escravo Real
Autora: Aphra Behn
Tradução: Aníbal Fernandes
Editora: Sistema Solar, 2019
128 págs
(12 €)
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* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.


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