Mysterium paschale: Só o amor é digno de fé - Ponto SJ

Mysterium paschale: Só o amor é digno de fé

«Mysterium Paschale» são 4 catequeses de Tríduo Pascal, que pretendem promover o crescimento na inteligência da fé e na profundidade do mistério celebrado na Semana Maior da nossa fé. Da autoria do P. Nelson Faria, sj

«Mysterium Paschale» são 4 catequeses de Tríduo Pascal, que pretendem promover o crescimento na inteligência da fé e na profundidade do mistério celebrado na Semana Maior da nossa fé. Da autoria do P. Nelson Faria, sj

 

Que a alegria e a paz de Cristo estejam consigo.

O mistério pascal é o centro do ano litúrgico cristão. É no Tríduo Pascal que nós celebramos a morte, sepultura e ressurreição de Cristo. Aquele começa na tarde de quinta feira Santa e culmina nas vésperas do domingo de Páscoa, na Vigília Pascal.

Estes três dias não são três dias separados, mas um único mistério pascal, vivido em três movimentos. Nós, por vezes, podemos ficar agarrados a qual é que é a centralidade da nossa fé e depositamos as nossas esperanças, ou numa espécie de espiritualidade do bem estar, ou na observância da norma, ou no conhecimento da doutrina, ou na aplicação do rito a toda a minha vida. E se tudo isto é bom e concorre para o bem, nós não nos podemos nunca demitir de observar, de olhar com atenção, o centro da nossa fé.

Só o amor é digno de fé e só o amor é digno de esperança. A nossa crença não é um conceito, não é um grupo de ideias, não é uma ideologia, mas uma pessoa. A nossa fé implica, não só acreditar na pessoa de Jesus Cristo e no que ela fez, mas viver uma relação com ela. Daí uma das graças a pedir, um dos desejos maiores da espiritualidade inaciana, seja expressa pela fórmula “conhecimento interno de Jesus, que por mim se fez homem, para que eu mais O ame e siga”. Para que eu mais O ame e siga. Para que eu ganhe a forma d’Ele. Para que eu ganhe a forma da Páscoa. É aqui que tudo se joga. Deus atravessa toda a experiência humana. Até a morte. E transforma-a por dentro.

E neste mistério pascal podemos cair na conta de que nenhum lugar está fora do alcance e da vivência de Deus. O mistério pascal é o lugar do parto da esperança cristã. É aqui que ela nasce. É aqui que ela brota. Que ela nasça de dentro, que ela brote de dentro, é a razão para a nossa esperança de tudo poder viver em Cristo. Porque, de facto, o nosso Deus atravessa toda a realidade, toda a existência e toda a vivência humana.

A Páscoa não é apenas um acontecimento histórico entre Deus e a humanidade. É também a revelação da vida interna de Deus. O mistério de que Cristo, entregue na cruz, manifesta a sua obediência ao Pai, manifesta a sua confiança no Pai e a sua entrega total nos braços do Pai.

A cruz revela que o amor trinitário é a autodoação total e que o Espírito Santo é o laço de amor que mantém esta entrega na unidade divina. A Páscoa mostra quem Deus é: o amor que se dá sem reservas. Claro que nós podemos falar disto também na Encarnação. E é curioso que, na maneira como nós festejamos o Natal, parece tudo muito mais claro, porque de alguma maneira nós vamos apagando a sombra. Mas a radicalidade da nossa fé compreende-se melhor na experiência radical da Páscoa, em que nós proclamamos e constatamos em alta voz a radicalidade, o “até onde” chega o amor de Cristo. Até onde vai o amor de Deus. Até onde Deus é amor. Não é por acaso que no Tríduo Pascal, o Evangelho escolhido é o de São João, que inaugura esta experiência, dizendo: “Ele, amando os que eram seus, amou-os até ao fim”. Até ao limite, até ao extremo.

A Páscoa não é um evento passado, mas um caminho elementar de conversão para cada um de nós, cristãos. Porque na quinta-feira santa nós aprendemos a entregar-nos. E na sexta-feira santa nós aceitamos atravessar o sofrimento, todo o sofrimento, o próprio e o dos outros, com Cristo, com Deus. E no sábado santo, que tantas vezes parece que é mais um interlúdio em que parece que nada acontece, nós vivemos momentos de silêncio e confiança na obscuridade. E no domingo, naquelas vésperas de domingo que inauguram a Vigília Pascal, nós acolhemos a vida nova de Deus.

A Páscoa mostra que Deus salva o mundo, descendo até ao ponto do mais profundo abandono da experiência humana, a morte. Para aí mesmo, no seio da morte, fazer nascer a vida nova da ressurreição, no seio do mistério pascal, como quem quer ganhar a forma da Páscoa, a forma de Cristo ressuscitado, a forma do amor, do amor que é o centro da nossa fé. Nós não somos salvos pelo sofrimento. E não somos salvos pelo serviço. E não somos salvos por uma alegria de confetis e muito menos fomos salvos por um vazio de Deus. O que salva é o amor, que é tornado claro no meio da mais profunda sombra. Ele aí está.

Daniel Faria reza num dos seus poemas:

“Este é o dia novo. Sei-o pelo desejo
De o transformar. Este é o dia transformado
Pelo modo como apoio este dia no chão.
Coloco-o na posição humilde dos meus joelhos na terra
Abro-o com os olhos que retiro de todas as coisas quando os fixo
Na atenção.”

A oração nunca é uma questão de concentração. A oração é um jogo da atenção. Nós por vezes ficamos aborrecidos porque nos distraímos. As distrações são santas chamadas de atenção àquilo que ocupa o meu coração. Entremos neste mistério pascal, buscando, com o nosso coração, fixar o olhar na atenção a Cristo, no seguimento de Cristo, para tudo viver com Ele.

Inauguremos esta aventura para que ganhemos a forma da Páscoa.

Que assim seja.


«Mysterium Paschale» são catequeses de Tríduo Pascal, que pretendem promover o crescimento na inteligência da fé e na profundidade do mistério celebrado na Semana Maior da nossa fé. Preparadas pelo P. Nelson Faria, sj, pode ler ou escutar quando e onde lhe for mais conveniente, estando disponíveis no portal Ponto SJ e no canal whatsapp do Ponto SJ. Uma primeira catequese será publicada no domingo de ramos, sendo as outras oportunamente publicadas nos dias em que se assinalam os respectivos mistérios da paixão, morte e ressurreição do Senhor.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.