Que a alegria e a paz de Cristo estejam consigo.
Neste dia de sexta-feira santa, aceite entrar no amor que sofre e se esvazia. Acompanhe Cristo de perto. Ouça e torne-se sensível ao clamor dos irmãos. Desde a antiguidade – desde os inícios da Igreja – que neste dia não se celebra a Missa.
A liturgia própria deste dia tem três partes. A Liturgia da Palavra, em que recordamos a Paixão de forma narrada. A Adoração da Cruz, em que somos chamados a reconhecer a dor que há no mundo, a reconhecer a dor que há nas nossas vidas, a colocá-las na cruz e entrar no Coração de Cristo, que o vive connosco na grande compaixão e misericórdia do nosso Deus. E depois, de maneira plena, comungar com hóstias que foram consagradas de véspera ou nesses dias, mostrando que hoje não celebramos a Eucaristia, mas ainda assim o nosso Deus continua a alimentar-nos.
No sofrimento, a graça de Deus continua. O Senhor continua a fazer-se pão e a ser o nosso alimento. O núcleo teológico deste dia é a morte de Cristo, que não é mera execução histórica. Não é somente um homem que morre, é uma autoentrega redentora. “A minha vida ninguém a tira. Sou Eu que a dou.” Quantas vezes nós poderemos recordar esta frase quando sentimos que estão a pedir nos demasiado, que se calhar até o Senhor está a pedir demasiado? Esta frase torna um pedido amoroso um desejo do próprio Deus, que se comunica. “Ninguém ma tira. Sou eu que dou, sou eu que me desejo entregar.”
É por isso que este é o dia próprio para nós nos recordarmos deste amor que sofre com o outro, que não é imune ao sofrimento próprio, também, e se esvazia. Há neste dia um silêncio, na ausência de Eucaristia. Experimentamos o vazio da morte de Cristo. Há uma comunhão, mas a comunhão daquilo que foi sendo acumulado, um tesouro de graça, mas não a alegria da celebração. Há uma cruz exposta, mas esta cruz não é uma cruz mero instrumento de tortura. É uma cruz que se torna trono. O trono da glória de Deus. Como se Ele pudesse dizer: “Eu sento-me em todos os lugares de sofrimento. Eu habito os lugares de sofrimento e aqui coloco a promessa de uma alegria que virá depois.”
O melhor vinho, como se diz nas bodas de Caná, está sempre por vir. O melhor vinho virá sempre no fim. O melhor da nossa vida virá sempre depois, quase como aqueles padres que, ao abençoar recém-casados dizem: “que este seja o dia menos feliz das vossas vidas”. Que a alegria do casamento seja o dia menos feliz, que, a partir daqui, só conheçam a graça.
A cruz não é feita para que nós a habitemos e fiquemos lá, reféns. A cruz atravessa-se. Mas para atravessar a cruz, temos de aprender a fazê-lo. E a cruz só se atravessa de cabeça erguida, olhando para o nosso Senhor, para o nosso Deus, lá cravado e abrindo os braços, ganhando a sua forma. E, assim, atravessa-se.
O nosso Deus carpinteiro faz da cruz, que poderia ser um beco sem saída, uma porta. Não uma fuga, mas uma porta, que se atravessa para palmilhar a esperança. E daí termos um símbolo forte, que é o da prostração inicial do celebrante, que mostra a gravidade do momento. Nós caímos por terra diante do sofrimento e não há que ter vergonha. Nós caímos por terra, seja diante do nosso sofrimento, dentro do nosso sofrimento ou diante e dentro do sofrimento de outro.
A primeira resposta ao outro não deve ser uma vã palavra de consolação, mas um cair por terra num terreno que é sagrado, que é o seu sofrimento. A cruz manifesta – não a vitória da dor e do sofrimento – mas a solidariedade total de Deus com o sofrimento humano. Uma solidariedade radical. Solidariedade de quem a vive connosco. De quem não é imune à dor, ao sofrimento, à perda e à ausência. De como quem o viveu e experimentou na pele, no coração, na mente.
Cristo, o nosso Deus encarnado, experimenta a distância e o abandono, entrando na profundidade mais crua da condição humana: a rejeição. Não há lugar para ti. Recorde-se de como, em Lucas, na narração da Encarnação, nós podemos ouvir: Não havia lugar para ele na estalagem. Isto não é um mero momento logístico. É mostrar, já na encarnação, como por vezes não há lugar para Deus no mundo, não há lugar para o amor. E ainda assim o amor habita, o amor que se entrega. O amor que se esvazia e que sofre.
Daniel Faria, no primeiro poema que me ofereceram a ler, reza:
Cruz, rosa
Dos ventos sem direção que não seja o centro. Coluna
Sustentada pelos braços como um amigo que chega. Rosa
De orvalho e sangue para o corpo trespassado de sede. Árvore
Que bebe do homem. Árvore
Em silêncio onde escutamos a palavra
Em carne viva. Verbo
Tão inteiro que se fez espelho
Na cruz nós vemos o Verbo. Na cruz nós vemos como o nosso Deus é também espelho do nosso sofrimento. Ele conhece-nos. Ele conhece-o. E nós somos chamados a atravessar a dor e o sofrimento, como amor que sofre e se esvazia.
Que assim seja.
«Mysterium Paschale» são catequeses de Tríduo Pascal, que pretendem promover o crescimento na inteligência da fé e na profundidade do mistério celebrado na Semana Maior da nossa fé. Preparadas pelo P. Nelson Faria, sj, pode ler ou escutar quando e onde lhe for mais conveniente, estando disponíveis no portal Ponto SJ e no canal whatsapp do Ponto SJ. Uma primeira catequese será publicada no domingo de ramos, sendo as outras oportunamente publicadas nos dias em que se assinalam os respectivos mistérios da paixão, morte e ressurreição do Senhor.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.