Missa, tradição e comunhão: o Motu proprio do Papa Francisco

Este episódio, não obstante as feridas que possa ter introduzido e que agora todos temos o dever de ajudar a curar, nos permitiu pôr novamente no centro da vida da comunidade cristã a ação litúrgica na sua beleza, profundidade e função.

Este episódio, não obstante as feridas que possa ter introduzido e que agora todos temos o dever de ajudar a curar, nos permitiu pôr novamente no centro da vida da comunidade cristã a ação litúrgica na sua beleza, profundidade e função.

A liturgia é a face mais visível da Igreja, a sua verdadeira e mais autêntica epifania. Ela traduz, visivelmente, aquilo que a Igreja acredita, mas também, de forma muito particular, aquilo que a Igreja é, na sua identidade de Povo de Deus e Corpo de Cristo. Desta forma, o axioma lex orandi, lex credendi (a norma da oração é a norma da fé) continua atual e espelha a importância que a liturgia tem na vida eclesial. É, por isso, que a forma como se celebra não é indiferente, nem secundária. A reforma litúrgica promovida pelo Concilio Vaticano II não foi só uma operação de cosmética sobre os ritos, mas a tentativa de traduzir, na linguagem ritual, a fé da Igreja e, muito concretamente, a sua eclesiologia. A reforma litúrgica não espelha, por isso, só a Sacrosanctum concilium, como unidade independente, mas a totalidade do pensamento conciliar, constituindo com ele uma unidade indissolúvel.

Em 1988, o Papa João Paulo II, na sequência do cisma lefebvriano, que não só negava a reforma litúrgica, como o Concílio no seu todo, procurou reintegrar na unidade da Igreja os seguidores de Lefebvre, permitindo-lhes conservar a liturgia, na sua antiga forma, desde que assumissem a totalidade do magistério conciliar e pontifício. Esta tentativa, feita de equilíbrios difíceis e, de alguma forma, pouco consistentes, tendo em conta a unidade entre magistério conciliar e reforma litúrgica, permitiu que a sensibilidade pré-conciliar se mantivesse, ainda que num contexto muito limitado e reduzido. Contudo, foi o suficiente para fazer crescer um grupo cada vez maior de saudosistas, que encontravam nos muitos abusos litúrgicos que se foram fazendo ao longo dos anos do pós-concilio e também nas crises que foram surgindo no seio da Igreja, a confirmação da sua convicção pessoal de que aquela forma particular da expressão da fé era a mais correta, a mais autêntica e a única que espelhava a verdadeira tradição da Igreja católica.

O Motu proprio do Papa Bento XVI, Summorum pontificum (Sp), em 2007, acolhido com perplexidade por uma parte da Igreja, mas com grande alegria por uma outra, teve a intenção, nas palavras do Papa Emérito, de restabelecer a unidade da Igreja, afirmando a existência de duas formas do rito romano: uma ordinária, a de Paulo VI, e uma extraordinária, a de Pio V, segundo os livros aprovados pelo Papa João XXIII. Ao mesmo tempo, deu a total liberdade a qualquer presbítero, independentemente do parecer do bispo diocesano e das comunidades cristãs, de celebrar na forma extraordinária, de acordo com a sua sensibilidade e arbítrio. As consequências que advieram, ao contrário das expectativas do Papa, foram dramáticas: acentuaram-se divisões no seio da Igreja, entre progressistas e tradicionalistas, quer nas dioceses, quer nas comunidades cristãs e até dentro do contexto familiar; aumentaram os grupos, no seio da Igreja, que negam a reforma litúrgica e a totalidade do Concílio Vaticano II, apelidando-os inclusivamente de heréticos; a liturgia começou a ser usada ideologicamente como arma de arremesso contra os outros e não como instrumento de unidade, ao serviço do louvor de Deus e da santificação dos irmãos; surgiu uma nova geração de padres que vive deslumbrada com um tempo que nunca viveu, mas que tende a idealizá-lo como se tivesse sido perfeito; e gerou-se em muitos a incapacidade de reconhecer a liturgia como um organismo vivo, que se vai transformando no devir da história, de acordo com os contextos teológicos, eclesiais, sociais, políticos e artísticos, com os quais vai interagindo, sempre com e pela ação do Espírito Santo, que guia a Igreja.

As consequências que advieram, ao contrário das expectativas do Papa, foram dramáticas: acentuaram-se divisões no seio da Igreja, entre progressistas e tradicionalistas, quer nas dioceses, quer nas comunidades cristãs e até dentro do contexto familiar.

No passado dia 16 de julho, o Papa Francisco, na sequência de uma auscultação feita ao episcopado do mundo inteiro, publicou um novo Motu proprio, o Traditionis custodes (Tc), sobre o uso da liturgia pré-conciliar, pelo qual revoga o anterior motu proprio de Bento XVI. Na carta de apresentação que acompanha o documento, o Papa Francisco justifica a sua decisão precisamente pelas dramáticas divisões que a liberalização do rito introduziu no seio da Igreja. Na perspetiva do Papa, a unidade da comunidade eclesial deve ser restabelecida precisamente a partir de uma liturgia unificada e reformada, única e verdadeira lex orandi da Igreja, conforme o desejo dos bispos do mundo inteiro, reunidos no Concílio Vaticano II.

No atual contexto de crispação e de divisão, a decisão de Francisco é, no mínimo, corajosa. Apesar de ser difícil prever as suas consequências, parece ser o único caminho justo para que a liturgia possa aparecer como verdadeiro rosto da Igreja e ser a sua mais autêntica manifestação e epifania. Dos documentos pontifícios, agora publicados, realço três aspetos que me parecem fundamentais:

a) Em primeiro lugar, o facto de restabelecer a unidade entre lex orandi e lex credendi, manifestando que a forma de celebrar não é uma questão secundária e indiferente. A liturgia não é só um conjunto de ritos e de textos, mas traduz no seu conjunto a identidade mais profunda da Igreja na sua fé, na sua teologia e na sua eclesiologia. Por isso, a restabelecimento de um único rito romano, reformado segundo os princípios do Concílio Vaticano II, como expressão da fé da Igreja, é também um caminho essencial para a sua unidade.

b) Em segundo lugar, o facto de devolver aos bispos diocesanos, unidos ao sucessor de Pedro, a responsabilidade primeira sobre a liturgia, em cada diocese, de forma a que o uso da liturgia pré-conciliar, quando permitido, seja sempre expressão da comunhão eclesial. Para o seu uso ser autorizado aos grupos já existentes, cuja finalidade é exclusivamente o dar tempo para retornarem ao Rito Romano autêntico, aprovado pelos Papas São Paulo VI e São João Paulo II, é necessário: que os que nele participam aceitem a totalidade do magistério conciliar e pontifício; que decorra numa igreja não paroquial designada pelo bispo; que se usem as leituras em língua vernácula, com o texto aprovado pela conferência episcopal; e que seja celebrado por um padre conhecedor do rito, da língua latina e sempre autorizado pelo bispo diocesano.

Penso também que constitui um grande desafio de fidelidade à própria liturgia, não como algo que nos pertence e que usamos de forma arbitrária, mas como dom de Deus, mediado pela autoridade da Igreja, que recebemos e que temos a missão de conservar e transmitir.

c) Por último, e talvez não menos importante, seja o apelo do Papa a que os bispos diocesanos cuidem de modo muito particular, em cada diocese, a celebração da liturgia reformada, para que esta decorra com decoro, fidelidade e sem excentricidades que possam degenerar facilmente em abusos. Talvez tenham sido estes abusos que tenham feito surgir em muitos o desejo de um rito mais “espiritual”, mais “profundo” e mais revelador do Mistério de Cristo.

Penso que este episódio, não obstante as feridas que possa ter introduzido no seio da Igreja e que agora todos temos o dever de ajudar a curar, nos permitiu pôr novamente no centro da vida da comunidade cristã a ação litúrgica na sua beleza, na sua profundidade e na sua função de nos introduzir na intimidade do mistério pascal de Jesus Cristo. Penso que nos pode ajudar a descobrir o rito romano, particularmente a sua última versão reformada e aprovada pelos papas Paulo VI e João Paulo II, segundo a vontade do Concílio Vaticano II, não como uma realidade fixista, mas como o mais recente fruto da Tradição Viva da Igreja, que evolui nas circunstâncias da história. Penso também que constitui um grande desafio de fidelidade à própria liturgia, não como algo que nos pertence e que usamos de forma arbitrária, mas como dom de Deus, mediado pela autoridade da Igreja, que recebemos e que temos a missão de conservar e transmitir. Penso ainda que nos pode ter ajudado a reconhecer que a liturgia, não esgotando a totalidade da ação e da vida da Igreja, é e será sempre a sua mais alta manifestação e a fonte de onde deriva toda a sua força e vitalidade.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.