Seguindo os passos de Inácio, no Campo de Viajantes - Ponto SJ

Seguindo os passos de Inácio, no Campo de Viajantes

Então, o que é o Campo de Viajantes? Talvez seja mais fácil começar pelo que não é. Não são os clássicos Exercícios Espirituais. Também não é uma simples peregrinação.

Então, o que é o Campo de Viajantes? Talvez seja mais fácil começar pelo que não é. Não são os clássicos Exercícios Espirituais. Também não é uma simples peregrinação.

De 25 de julho a 1 de agosto, entre participantes e organização, 54 pessoas das mais variadas proveniências tivemos a graça de participar nesta aventura inesquecível que é o Campo de Viajantes. Ao longo destes dias, pudemos percorrer os passos de Santo Inácio, movidos pelo desejo – de Inácio, mas também nosso – de buscar a Deus em todas as coisas e de descobrir o seu plano de amor para as nossas vidas.

Tudo começa com uma ferida. Uma ferida que confronta o ser humano com a sua própria vulnerabilidade[1] e o lança em direção ao Transcendente. Para Inácio, foi assim: uma ferida real, causada por uma bala de canhão que lhe partiu uma perna;[2] e outra ferida, que sucedeu a esta, mais interior e metafórica que aquela, que surge quando Inácio é atingido no seu orgulho e vê ruir todos os seus ideais de grandeza e a possibilidade de vir a ser um nobre cavaleiro, capaz de grandes feitos e conquistas heroicas. É durante a sua convalescença em Loiola que Inácio se decide a partir em peregrinação. É assim que “o Peregrino” começa uma nova vida, inaugurando aquilo que hoje chamamos de caminho inaciano, um itinerário que o levaria de Loiola a Manresa. Talvez também seja assim connosco, sempre que as nossas feridas nos abrem caminho.

Então, o que é o Campo de Viajantes? Talvez seja mais fácil começar pelo que não é. Não são os clássicos Exercícios Espirituais. Também não é uma simples peregrinação. É algo que talvez possamos situar algures entre ambos: uma versão “reduzida” e “invertida” do caminho inaciano; a oração acontece ao longo do caminho, a partir de uma adaptação da proposta dos Exercícios Espirituais (EE), que visam «preparar e dispor a alma, para (…) buscar e achar a vontade divina na disposição da sua vida para a salvação da alma» [EE 1].

O Campo de Viajantes percorre os passos de Inácio, embora caminhando em sentido inverso: neste caso, rumo a Loiola. É, necessariamente, um caminho reduzido, de apenas quatro etapas. Partindo de Alda, fomos percorrendo montanhas e vales – sempre deslumbrados com a beleza natural das paisagens que fomos encontrando – passando por Araia, Arantzazu e Zumarraga, até chegar a Loiola. Em Loiola tivemos a graça de celebrar missa no quarto de Inácio, pudemos visitar a casa da família Loiola e o Hospital da Madalena, onde Inácio chegou a estar hospedado numa das vezes que visitou Loiola. Finalmente, terminámos em beleza, celebrando o dia de Santo Inácio em plena basílica de Loiola.

As dores e as agruras do caminho – porque subimos e descemos montanhas que pareciam intermináveis – não nos roubaram o espanto e a alegria, diante da beleza que fomos encontrando: na natureza, em nós mesmos e naqueles que caminham connosco. Foi assim o Campo de Viajantes. É assim a nossa vida.

O itinerário percorrido levou-nos, a todos, de Alda até Loiola. Contudo, no plano interior, cada um partiu da sua própria realidade, percorrendo o seu caminho, único e irrepetível. Acredito que, no final, todos tenhamos ficado mais perto daquela que é a nossa única meta: Jesus Cristo, o Alfa e o Ómega.

Até 2028! Se Deus quiser.
Duarte Nifo, SJ

[1] É curioso referir que a palavra vulnerabilidade tem origem na palavra latina vulnus, que significa ferida, golpe.
[2] Inácio de Loiola é ferido a 20 de maio de 1521, enquanto procurava defender o castelo de Pamplona do avanço das tropas francesas.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.