Exposição: Um Templo para Xavier

Na Galeria de Exposições Temporárias do Museu de S. Roque está patente uma exposição que assinala o 10º aniversário da entrega do cofre relicário de S. Francisco Xavier ao Museu de S. Roque. É esta a sugestão cultural Brotéria desta semana.

Na Galeria de Exposições Temporárias do Museu de S. Roque está patente uma exposição que assinala o 10º aniversário da entrega do cofre relicário de S. Francisco Xavier ao Museu de S. Roque. É esta a sugestão cultural Brotéria desta semana.

Na Galeria de Exposições Temporárias do Museu de S. Roque está patente uma exposição que assinala o 10º aniversário da entrega do cofre relicário de S. Francisco Xavier ao Museu de S. Roque, pela família Mendia de Castro (Nova Goa) a quem pertencia desde o século XVII.

A veneração das relíquias, com raízes profundas nos cultos devocionais da Igreja Antiga e Medieval, foi largamente reafirmada na XXV sessão do Concílio de Trento, em 1563 e insere-se num conteúdo programático importante da reação contra-reformista, em clara resposta à abordagem corrosiva de Calvino no seu Traité des reliques, de 1543. A aversão calvinista ao culto das imagens e a sátira à veneração das relíquias, que atingiu o seu ponto extremo durante a guerra com os huguenotes, com a onda de destruição de imagens nas igrejas francesas, provocou esta demarcada reação romana: “manda o Santo Concílio a todos os bispos e aos mais que tem o oficio e cuidado de ensinar (…) instruam diligentemente os fiéis acerca da intercessão dos santos, sua invocação, veneração das relíquias e legítimo uso das imagens”. Para evitar o comércio crescente e desordenado, bem como a superstição em redor da veneração das relíquias, o Concílio de Trento continuava a sua ação disciplinadora, determinando ainda que estas só eram dignas de serem veneradas, quando autenticadas pelo bispo.

Pelo seu carácter sagrado as relíquias serviram como oferendas de grande estima e eram muito desejadas e disputadas pelos soberanos, nobres e prelados e por instituições religiosas. A sua posse e veneração concedia prestígio às pessoas e instituições que as custodiavam, assim como aos locais em que elas estavam expostas. Era essa fama que atraía os crentes e as suas piedosas esmolas aos locais onde se veneravam.

Pelo seu carácter sagrado as relíquias serviram como oferendas de grande estima e eram muito desejadas e disputadas pelos soberanos, nobres e prelados e por instituições religiosas.

A Igreja de S. Roque, anexa à antiga Casa Professa da Companhia de Jesus, constitui a par de outras igrejas jesuítas, um dos maiores santuários de relíquias existente em Portugal, graças às avultadas coleções que foi abrigando ao longo dos séculos, de que se destaca a doação de 1587 de D. João de Borja, embaixador de Filipe II de Espanha na corte do Imperador Rodolfo II e filho de S. Francisco de Borja (que viúvo e pai de cinco filhos entrou na Companhia de Jesus e veio a ser o seu 3º prepósito geral).

O cofre relicário da família Nova Goa, permaneceu ao longo de gerações nesta família, após a sua conceção por volta de 1680, por ourives goeses, por encomenda de D. Rodrigo da Costa, governador da Índia. Tinha sido exposta apenas uma vez, em 1961, por ocasião da eminente anexação de Goa à União Indiana.

A passagem dos 10 anos sobre a doação do relicário de S. Francisco Xavier ao Museu de S. Roque, em 2008, associada ao quarto centenário da conceção do ciclo pictórico dedicado à vida do santo, da autoria do pintor André Reinoso, que integra a sacristia-pinacoteca da igreja de S. Roque são as razões principais que motivaram esta exposição.

A exposição acha-se organizada em sete núcleos, acompanhados de acurada explicação, bilingue, que aqui reproduzimos e que permite um enquadramento do precioso relicário Nova Goa, das suas relíquias e de outros objetos devocionais e iconográficos na temática do culto das relíquias, na devoção a S. Francisco Xavier e no património imaterial ainda vivo nas comunidades cristãs, hindus e muçulmanas de Goa e Portugal:

O cofre relicário – Peça de ourivesaria goesa mas recriando uma composição arquitetónica clássica, o cofre relicário da Casa Nova Goa terá sido encomendado entre 1686 e 1690 por D. Rodrigo da Costa, governador do Estado Português da Índia, provavelmente na sequência do assédio à cidade pelos exércitos do marata Sabadagy. Acreditava-se que as relíquias dos santos protegiam as cidades onde eram veneradas e as famílias que as veneravam. O relicário passou sempre por via hereditária pelas famílias dos Costas (1686-1708), dos Almeidas (1708-1779) e dos Castros (1779-2009) até ser doado à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa por D. Teresa Mendia de Castro (Nova Goa) em 2009.

O conteúdo do cofre – as relíquias do interior do cofre foram sendo guardadas pelas sucessivas gerações de proprietários, havendo relicários com várias tipologias e datações. Destaca-se um fragmento do dedo mindinho de S. Francisco Xavier arrancado devotamente por D. Isabel de Cron. O dedo foi posteriormente devolvido ao Santuário do Bom Jesus de Goa, com excepção deste fragmento que foi encastoado, em meados do século XVIII, num relicário com forma de relógio de bolso de senhora.

As origens – o culto das relíquias é próprio da Idade Média europeia, motivando intensas peregrinações e construções de capelas. Foi reafirmado pelo Concílio de Trento (1563), não obstante a contestação dos protestantes. Muitos relicários eram concebidos para as grandes manifestações públicas de fieis, permitindo a devoção em massa da relíquia sem comprometer a sua integridade.

A Conceção –  o relicário foi concebido como um templete de planta hexagonal, tipologia que teve um grande desenvolvimento em Portugal e no Brasil nos séculos XVII e XVIII, em ermidas dedicadas a santos protetores das comunidades, instaladas nas franjas urbanas. Estas eram entendidas como baluartes de defesa localizadas nas entradas e saídas das respetivas vilas e cidades. Reafirmava-se a relíquia como meio de proteção da cidade e o seu santuário como um baluarte de defesa através da fé, contra os invasores, infiéis e doenças. A fonte arquitetónica para esta tipologia é clássica (Vitrúvio e Serlio) onde se aplica o conceito de perfeição da Antiguidade às igrejas cristãs. A forma acabou por ser utilizada também na arquitetura militar, levando a que seja indissociável na forma, a Fé e a sua defesa, algo típico da Igreja Militante.

O gosto – enquanto objeto artístico, o relicário de São Francisco Xavier demonstra o sincretismo estético entre as várias culturas através da inclusão de animais e motivos florais presentes noutras obras orientais e nacionais desde a porcelana de azulejo, passando pelas muito apreciadas colchas da Índia. Este exotismo era muito apreciado na Europa como manifestação de riqueza e de aquisição de experiência adquirida através do contacto com outras culturas, nomeadamente aquelas valorizadas pela sua evolução tecnológica e cultural, como a chinesa e a indiana.

A iconografia – São Francisco Xavier foi o apóstolo do Oriente, sendo por essa razão representado em associação com o crucifixo nos diversos momentos da sua vida. A devoção ao crucifixo representava a devoção à entidade representada, ou seja diretamente a Jesus Cristo, a quem a Companhia era dedicada, e aos seus ensinamentos descritos no Novo Testamento. O exemplo de São Francisco Xavier foi aclamado pelas outras ordens religiosas que se dedicavam à missionação de outras culturas. Os franciscanos capuchos tinham a seu cargo a evangelização da América espanhola, tendo-se destacado nessa missão São Francisco Solano (1549/1610), o qual era, muitas vezes repetindo a iconografia de São Francisco Xavier, batizando os régulos das populações autóctones e ostentando a cruz. A repetição da composição artística não era, na época entendida como um “plágio” mas antes como a validação de um exemplo e um elogio.

O desenvolvimento do culto a São Francisco Xavier implicava a existência de relíquias através das quais o crente se poderia aproximar do santo.

As relíquias do Santo – o desenvolvimento do culto a São Francisco Xavier implicava a existência de relíquias através das quais o crente se poderia aproximar do santo. Porém o corpo do santo encontrava-se incorrupto e íntegro no seu sarcófago relicário no Santuário do Bom Jesus de Goa, não sendo praticada a sua repartição como acontecia com os santos medievais na Europa. Em compensação, a falta de partes do corpo, surgem relíquias de contato, compostas por objetos que foram de uso pessoal do santo, ainda em vida, como o seu crucifixo e um sapato. Também surgiram objetos que tinham estado em contato direto com o corpo do santo, como os véus do esquife, a almofada que sustentava a cabeça, madeira e forro do caixão, e que eram periodicamente substituídos e cedidos aos devotos.

Património ImaterialA Comunidade – São Francisco Xavier assume consensualmente um papel de agregador e unificador da comunidade católica goesa, tanto da residente em Goa como da diáspora. Mesmo nos praticantes das religiões mais representativas em Goa, como as de hindus e muçulmanos, o culto em relação a este santo é reconhecido e assumido. Apelidado de Goencho Saib – o Senhor de Goa- os seus milagres e a incorruptibilidade do seu corpo foram fundamentais para este estatuto. Preserva-se na memória coletiva a sua vida de exemplo e o trabalho na Companhia de Jesus, na evangelização, educação e assistência a portugueses e goeses. Por esta razão, a cultura goesa valoriza o gosto pela música e pela Medicina, tendo gerado importantes nomes. A festa de São Francisco Xavier é celebrada em Goa e acompanha as comunidades goesas na diáspora sendo um motivo para o reencontro da comunidade, com muita música, dança e boa comida.

A exposição é comissariada pelo historiador de Arte João Miguel Simões, técnico superior do Museu de São Roque e contou com a coordenação cientifica e técnica de Teresa Freitas Morna (directora do Museu de S. Roque) e de Helena do Canto Lucas e Maria Margarida Montenegro (do Departamento de Cultura da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa).

 

EXPOSIÇÃO TEMPORÁRIA – Até 3 de fevereiro
Entrada livre
Local: Galeria de Exposições Temporárias do Museu de São Roque
(acesso pela Igreja de São Roque – Mapa)
Programa completo
Horário
2ª feira | 14h00 – 18h00
3ª feira a domingo | 10h00 – 18h00
Encerrada todos os dias entre as 12h00 e as 14h00
Contactos:
Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural
Direção da Cultura da SCML
Tel. 213 240 887/69/66
culturasantacasa@scml.pt

Fotografias: Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.


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Esta seção é da responsabilidade da revista Brotéria – Cristianismo e Cultura, publicada pelos jesuítas portugueses desde 1902.

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