É porque vivo que escrevo

Maria Durão começou a compor músicas num grupo de oração, depois juntou-se ao primo Luís e criaram os SIMPLUS. Uma banda que fala de Deus e de fé e que, ao longo dos anos, tem despertado o coração de muitas pessoas para uma sede de Deus.

Maria Durão começou a compor músicas num grupo de oração, depois juntou-se ao primo Luís e criaram os SIMPLUS. Uma banda que fala de Deus e de fé e que, ao longo dos anos, tem despertado o coração de muitas pessoas para uma sede de Deus.

Ainda me lembro como se fosse ontem: sentada de pernas estendidas numa rampa de cimento da Escola Secundária de Cascais (mais conhecido pela “Poli”), com duas amigas a falar de banalidades, quando uma delas rompe toda aquela conversa para me perguntar: ”Não queres vir hoje ao grupo de oração?” Eu respondo: ”Não, obrigada”. Acontece que esta minha amiga não desistiu facilmente do seu objectivo e voltou a fazer-me o convite tantas vezes que eu acabei por ir.

Já sentada numa das cadeiras em forma de círculo do Grupo de Jovens de São Francisco (que se reunia numa capela em Cascais, onde é hoje o auditório do Centro Cultural de Cascais), depois de termos cantado durante cerca de 30 minutos, cada um com o seu cancioneiro na mão, sei que cheguei pela primeira vez na minha vida à seguinte conclusão: ”É bom cantar.”

Algumas semanas mais tarde, sentada nessas mesmas cadeiras, dou uma delicada cotovelada à amiga que tinha ao lado para lhe perguntar: ”Bora fazer um coro?” Ela responde de imediato: ”Bora.” É claro que passados os primeiros 10 minutos de entusiasmo caí na realidade e pensei: “Mas espera lá… para fazermos um coro precisamos que alguém toque viola…” Graças a Deus tudo se resolveu rapidamente quando, no final dessa noite, uma das responsáveis doe Grupo se lembrou de que havia alguém que nos poderia dar aulas de viola. Qual não foi o nosso espanto quando percebemos que essa pessoa era o Tozé Brito! Pensando nisso hoje comove-me pensar na generosidade e gratuidade do Tozé que durante meses, todas as semanas, apareceu fielmente para nos ensinar a tocar.

Na primeira aula, o Tozé disse-nos: ”Vocês vão aprender a tocar viola com muita facilidade e rapidamente se levarem a sério uma regra: tocar todos os dias 30 minutos. Todos os dias.” Lembro-me de ter levado muito a sério esta indicação e ter começado a tocar todos os dias 30 minutos a música que tínhamos visto na sua aula. Acontece que (experimentem vocês e verão), tocar todos os dias (mas todos mesmo) 30 minutos a mesma música torna-se, passados dois dias, fácil, passados quatro…insuportável. E foi assim que escrevi a minha primeira música. Ainda sem saber grandes notas e sabendo tocar só uma música (“I don`t wanna talk about it”), com as mesmas notas inventei outra melodia e escrevi uma letra, para variar. Esta primeira música foi a “Entrega”.

Mas a verdade é que escrever e compor, para mim, rapidamente se tornou, antes de mais, numa necessidade porque é como que uma modalidade facilitadora de diálogo com o Mistério.

Maria Durão

A minha ligação à música, já não como ouvinte ocasional ou “cantora no duche”, não começa, portanto, na banda de garagem, no liceu, no karaoke, mas sim num grupo de oração, na Igreja, estando por isso, desde o início, intimamente ligada à minha vida de fé.

Penso que nunca me teria ocorrido começar a fazer uma música se não me tivesse cruzado com o Tozé ou o Father Stan (padre franciscano americano, também músico, que acompanhava este grupo de oração) e percebido que as músicas, alguém as faz!

Depois da primeira comecei a fazer outras e a mostrá-las ao meu primo Luís que entretanto estava no nosso coro e, já na altura, tocava muito bem viola. Ele interessou-se, ajudou-me a melhorá-las, começou a cantá-las comigo e também a compor. Assim nasceram os Simplus que, hoje, têm 5 discos gravados e um sexto a caminho.

Como se percebe, toda esta história começou porque eu encontrei qualquer coisa, aquela amiga que insistiu, aquele grupo, aquelas pessoas concretas. Foi este conjunto de circunstâncias que, misteriosamente, fez nascer na minha vida qualquer coisa que eu não poderia inventar sozinha. Ou seja, foi porque recebi que comecei a criar. Mas para as coisas existirem não basta começarem, têm de continuar, e não é automático que continuem se não houver uma razão para isso. Aliás, quando se deixa de estudar para começar a trabalhar, quando se começa a ter maiores responsabilidades na vida, menos tempo, etc, é mesmo preciso uma razão forte para continuar a compor e a gravar sem que isso seja o nosso “ganha pão”.

Esta é a grande razão para um trabalho como este: a possibilidade de despertar o coração dos outros (e antes de mais os nossos) para que possa reconhecer o que responde realmente a essa sede infinita que o caracteriza

Maria Durão

A verdade é que escrever e compor rapidamente se tornou, antes de mais, numa necessidade porque é como que uma modalidade facilitadora de diálogo com o Mistério. Existe forma mais adequada de se dizer tudo o que nos “ferve” cá dentro, de gritá-lo a Deus, do que cantar? Por outro lado, o facto de a vida ser dominada cada vez mais pelo grande significado cristão, de estar cheia deste significado, cheia desta esperança, cheia desta razão, faz querer dar aos outros o tanto que se recebe. Por isso, a música para mim é uma necessidade e um serviço.

Ao longo do tempo foram-nos também chegando notícias de tantos frutos e surpresas inesperadas relacionadas com as nossas músicas. Uma rapariga que, sendo obrigada a ficar internada por um grande período de tempo em situação grave, se sente confortada na fé através da nossa música “Entrega”, uma outra que me aborda um dia no corredor de uma casa de retiros para me dizer: ”Maria, obrigada pela tua música Entrega. Nunca me esqueço que foi ouvindo essa música que tomei a decisão de dar um passo definitivo de entrega a Jesus.” Ou também a surpresa de estar a começar um café-concerto no Colégio Ramalhão quando uma das pessoas da organização me agarra no braço com determinação e diz: ”Desculpe mas não podem começar sem falar a este senhor que fez 150 quilómetros e um grande esforço para vos vir ouvir.” Olho para o lado e vejo um senhor de cadeira de rodas muito sorridente acompanhado por uma senhora que o tinha trazido. Depois desse concerto recebo uma mensagem no facebook do mesmo senhor: “Olá Maria. As suas letras continuam a fazer pequenos milagres na minha vida. Dão-me serenidade, paz e são alimento para a minha fé. Com estes ingredientes encontro coragem para ultrapassar as dificuldades com mais facilidade. Deus permita que a possa escutar novamente ao vivo. É esse o meu desejo. Bem haja e um até breve se Deus quiser. Rui”

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Maria Durão canta com o primo, Luís Roquette. SIMPLUS já têm 5 discos editados

Estas mensagens, e tantas outras que nos foram chegando, tiveram o seu papel no tempo, fazendo com que crescesse a nossa consciência de que estávamos a levar realmente aos outros qualquer coisa maior do que nós. Mas a consciência dessa responsabilidade nunca se tornou um peso porque, se pensarmos bem, é a missão e vocação de qualquer cristão.

Apoio-me agora duma frase de Ferdinand Ebner para sublinhar um ponto que me parece verdadeiro: “Não o artístico, mas o humano é decisivo, em última instância, para o verdadeiro valor duma obra de arte ou de uma poesia”. O que sempre percebi e percebo desta inesperada surpresa de dar por mim a escrever músicas é que todas nasceram e nascem da vida. Há uma ligação muito directa e forte entre a minha vida e o que escrevo. É porque vivo que escrevo. Seja a minha pertença à Igreja, através do Movimento Comunhão e Libertação, que mantém viva a minha amizade com Jesus e introduz na minha relação com tudo uma nova intensidade (e dramaticidade!) e alegria, seja o meu trabalho como terapeuta na Associação Vale de Acór, em que colaboro também na grande missão de reconstruir o humano onde ele foi destruído, seja através dos amigos e encontros inesperados que a vida traz, tudo isto enche a vida até ao ponto de “transbordarem” músicas novas.

O que sempre percebi e percebo desta inesperada surpresa de dar por mim a escrever músicas é que todas nasceram e nascem da vida.

Maria Durão

Mas talvez o que melhor resuma e descreva a nossa “pretensão” ao fazermos músicas e mostrá-las ao “mundo” é a frase que Don Luigi Giussani (fundador do Movimento Comunhão e Libertação) disse num encontro com um coro: “É uma tarefa antes de mais vossa, vocês que têm esta vocação, a tarefa de despertar o coração humano dos vossos companheiros! E o instrumento para despertar o coração, o instrument principal, é o canto.” Esta é a grande razão de um trabalho como este: a possibilidade de despertar o coração dos outros (e antes de mais os nossos) para que possa reconhecer o que responde realmente a essa sede infinita que o caracteriza. Como tentámos dizer uma vez numa nossa música: “A que hora do dia foi mais forte a procura desse bem ausente? Quem és tu? Senão coração que chama porque conhece?”

P.S: Já agora: no dia 27 de Novembro às 21h os Simplus fazem um concerto no auditório de Santa Joana Princesa, em Lisboa, e os bilhetes podem ser reservados através do e-mail: simplus.querotemais@gmail.com

Lá vos esperamos!

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.