De corpo e alma - Ponto SJ

De corpo e alma

Novo livro do P. Paulo Duarte, sj "De corpo e alma - crónicas para caminhos de encontros humanos e divinos" será apresentado no dia 18, às 18h30 na Casa do Jardim da Estrela, em Lisboa.

Novo livro do P. Paulo Duarte, sj "De corpo e alma - crónicas para caminhos de encontros humanos e divinos" será apresentado no dia 18, às 18h30 na Casa do Jardim da Estrela, em Lisboa.

“De corpo e Alma – crónicas para caminhos de encontros humanos e divinos” será apresentado no dia 18, terça-feira, às 18h30 na Casa do Jardim da Estrela, em Lisboa. O Ponto SJ antecipa a divulgação desta obra com a pré-publicação do Prólogo.

 

Prólogo

Fazer caminho desde corpo e alma 

Há uns anos, assisti à peça coreográfica Atomos de Wayne McGregor, com música de A Winged Victory for the Sullen. Na apresentação e folha de sala referia-se que «a equipa envolvida neste projeto recorreu à tecnologia para explorar o funcionamento do próprio corpo, uma vez que o “eu” ganha forma através dos outros e com os outros». E ainda «o público vai, com esta peça, experienciar uma abordagem coreográfica completamente inovadora.  Mais do que um espetáculo, Atomos é uma experiência sensorial onde todos os sentidos estarão em alerta na senda da descoberta do corpo enquanto derradeira ferramenta tecnológica. Um corpo que pensa e reage, um corpo que se adapta e comunica através do movimento, da postura e, sempre, da ligação estabelecida com o próximo, característica que lhe confere humanidade».

Recordo a emoção que senti quando, em gesto firme, como em todos ao longo da coreografia, os bailarinos elevaram os braços com as mãos em jeito de oração ou então «nada tenho a temer, sinto-me livre». Na altura, escrevi nos meus apontamentos as perguntas que ainda hoje estão tão vivas: qual a relação entre o indivíduo e a comunidade? Qual a minha relação entre o meu ser corpo e o ser Corpo de mundo? E a minha relação diante do corpo vulnerável, que apenas quer ser amado? Qual a relação corpo humano e corpo divino?

Sim, são perguntas ainda muito vivas na atualidade. E ainda mais nos meios mais religiosos, algo tímidos em abordar de forma mais concreta, em movimento, consciência de corpo, que permite ampliar a vida de forma mais plena. Tenho testemunhado as transformações nas muitas propostas desde corpo que tenho vindo a fomentar, tanto nos Exercícios Espirituais, como nos workshops e formações em empresas, escolas e casas de retiros.

«À escuta do corpo que somos» é uma das atividades que oriento.  Recordo em particular a que orientei como experiência MAGIS, uma atividade de pré-JMJ em 2023. O grupo era constituído por vinte peregrinos de sete nacionalidades. Trabalhámos a consciência de corpo, começando pela respiração, depois movimento orientado, em diálogo com as emoções, a memória, levando ao encontro com Deus desde o todo que cada pessoa é. A serenidade de cada participante ao longo dos dias, salientada nas tão profundas partilhas finais, em modo de avaliação, revelou mais uma vez como o trabalho humano e espiritual desde corpo é transformador do ser.  É possível. É visível. É real. E quanto mais descubro a beleza de encontrar Deus desde corpo, mais confirmo a densidade do mistério da encarnação como caminho de sanação e, em profundidade teológica, de consciência de salvação.

As páginas seguintes são uma compilação de crónicas publicadas entre os anos 2021 e 2023 na revista Mensageiro. Agora ajustadas e organizadas em livro, nas crónicas tanto de Corpo como de Alma, o leitor poderá encontrar visões no aflorar de respostas às perguntas sobre corpo individual e comunitário que tentam iluminar o encontro com Deus desde quem somos de forma o mais concreta possível, fugindo de idealizações. Sendo nós criados à imagem e semelhança de Deus, o mistério também nos habita de modo encarnado. O ser humano, como corpo que é, abre-se também de modo corporal à transcendência. Sou suspeito, mas tenho para mim que, se nos habitarmos mais em corpo, integrando as luzes e sombras da existência, muitas guardadas em memória corporal, fomentaremos também a paz e o respeito entre nós e, alargando, entre os povos. Afinal, continuamos a ser criados e modelados por si desde terra húmida da existência. Que o alento divino continue a inspirar-nos a frescura da autenticidade e da liberdade em corpo, para nos tornarmos cada vez mais Corpo de Cristo.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.