“Irmãos, de facto, foi para a liberdade que fostes chamados.” (Gal 5, 13)
Sob este mote, 16 jovens jesuítas, delegados de quase todas as províncias da Companhia de Jesus na Europa, juntaram-se durante duas semanas em Cluj, na Roménia, para o Encontro de Jesuítas Europeus em Formação (EJIF).
O local do encontro foi em si profético: Cluj é um ponto de confluência e coexistência fecunda entre culturas e tradições religiosas. Num raio de um quilómetro traçado desde o centro da cidade, podemos encontrar sete templos de diferentes denominações cristãs, todas com culto, todas com fiéis, todas decididas a caminhar em conjunto, apesar dos condicionalismos históricos. É uma cidade excecional na circunstância e na prática ecuménica, ainda que seja inegável o impacto do comunismo, em termos de perseguições e martírios, sobretudo ao nível das Igreja católica. Pertencendo à região romena da Transilvânia, Cluj alberga uma porção muito significativa de habitantes de ascendência e cultura húngara, o que contribui para o reforço da experiência multicultural na cidade. De modo análogo, também nós, vindos de 14 países da Europa, com histórias e tradições muito diferentes, se não mesmo conflituais em alguns casos, fizemos a experiência de que o que nos une – Cristo e o seu chamamento à Companhia – é maior e muito mais significativo do que aquilo que nos separa.

Para nós, jesuítas, este encontro foi um tempo generoso dedicado às dimensões fundamentais do nosso estilo de vida religiosa – a oração, o apostolado, a vida em comunidade e a reflexão – com a afetividade como tema unificador das diferentes experiências.
A primeira semana foi maioritariamente dedicada a uma colaboração com o movimento juvenil dos padres escalópios, o Piarists Young Movement. Este encontro reuniu mais de 200 jovens provenientes de países desta região da Europa, como Hungria, a Polónia e a Eslováquia, bem como um grupo de alunos dos colégios escalópios em Espanha. Foi-nos pedido que puséssemos a espiritualidade inaciana ao serviço do Encontro, na formação dos voluntários do encontro, no acompanhamento espiritual dos líderes e na dinamização de propostas de oração para os participante. O fruto que sobressaiu deste tempo foi a colaboração: não só aquela entre companheiros jesuítas, de contextos culturais tão diferentes, mas que souberam trabalhar em equipa de modo dedicado e comprometido; mas também aquela consoladora experiência de sentir com a Igreja, de caminhar lado a lado – sinodalmente – com o movimento dos escalópios, na criação de um futuro cheio de esperança para os jovens.

Por outro lado, na segunda semana, depois de apresentarmos uns aos outros de forma mais profunda a história da nossa vocação, a realidade da própria Província e uma experiência pessoal marcante na Companhia, o tempo foi dedicado a um workshop sobre a afetividade na vida de jesuíta. Orientado pelo experiente P. Brandam Callaghan, SJ, partimos de casos de estudo muito significativos e pudemos partilhar experiências e visões, afrontando temas tão relevantes como: a dimensão afetiva da nossa vocação, os riscos de abusos, o papel da amizade, a nossa vulnerabilidade e aquela de quem acompanhamos. Deste tempo, destaco o modo transparente como nos confiamos uns aos outros ao partilhar as nossas luzes e sombras, como verdadeiros companheiros de caminho.
Por fim, depois de alguns dias dedicados ao descanso em conjunto, pelas magníficas paisagens da Transilvânia – por entre florestas, lagos de sal e desfiladeiros íngremes – tivemos um dia de “deserto” para colher os frutos destas duas semanas, focado na ideia de que é Deus, como primeiro formador, quem opera em nós o amadurecimento afetivo, a integração do que vivemos e a liberdade interior.

Foi esse o ponto de partida para a fase final do encontro: a avaliação e a eleição do comité organizador do encontro do próximo ano. Seguindo um método inspirado na eleição do Padre Geral da Companhia de Jesus, fizemos a experiência de ser assistidos pelo Espírito Santo. De facto, quando nos reunimos em oração para pedir luz sobre quem indicar para esta função, e quando nos dispersamos em grupos de 2 a 2 para perguntar uns aos outros informações sobre os eventuais nomes que tínhamos em mente (fase da “murmuratio” que antecedeu a eleição), foi o Espírito o protagonista e a parte mais ativa do processo. Não só pela consolação que imperava nos delegados, mas pela sintonia de perfis e nomes que iam surgindo no nosso discernimento. Para quem é eleito, é particularmente libertador passar por este processo autenticamente espiritual, para superar eventuais resistências internas.
Em suma, o EJIF foi um tempo favorável para fazer a experiência de que é oferecendo a nossa afetividade a Deus que crescemos em liberdade interior e capacidade de discernimento para acompanhar outros, nomeadamente os jovens, a encontrarem o seu lugar na Igreja e no mundo.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.