A principal do Reino do Algarve – Tavira nos séculos XV e XVI

A Brotéria sugere hoje uma exposição em que se procura explicitar as razões políticas, sociais, económicas e culturais que levaram D. Manuel I a elevar Tavira a cidade em março de 1520.

A Brotéria sugere hoje uma exposição em que se procura explicitar as razões políticas, sociais, económicas e culturais que levaram D. Manuel I a elevar Tavira a cidade em março de 1520.

Se há cidades em Portugal cuja importância histórica não é equivalente à importância que hoje possuem, uma dessas cidades será certamente Tavira. Tomada aos mouros na primeira metade do século XIII, assumirá até ao fim da Idade Média um papel notável no Reino dos Algarves, evidenciando um crescimento económico e populacional paulatino e constante. Com os novos desafios que a dinastia de Avis assinala ao reino, tornar-se-á valiosa como mediadora do projeto expansionista da Coroa no norte de África, e superará demograficamente a velha Silves, onde o significado espiritual da sua Sé não segurava a iminente desertificação da urbe rural, em virtude do novo e atrativo horizonte que do litoral emanava. É nestas condições que D. Manuel I, em 1520, abrindo uma exceção sem precedentes em Portugal, decidiu elevar a então vila de Tavira a cidade, estatuto este que por ora era apenas reservado a sedes de bispado. É esta elevação e suas circunstâncias que o Município comemora neste corrente ano, abrindo as portas do Museu, lançando um livro que reúne diversos trabalhos de investigação e promovendo uma interessante agenda cultural.

A exploração simultânea dos recursos do mar e da terra, pela proximidade das encostas do barrocal e das colinas da serra à frescura da maresia, asseguraram o crescimento da vila medieval. O cais de Tavira conjugava as facetas de porto de abrigo e de passo do rio, pela boa navegabilidade do mesmo, e pela excelente barra natural que dava a entrada ao mar na ria formosa. As embarcações podiam repousar o tempo necessário na calma da ribeira, diante da ponte, protegidos da bravura do mar, sem riscos de que esta cometesse alguma destrutiva investida. Em época em que o fluxo marítimo se intensifica, começando a deslocar-se do Mediterrâneo para o Atlântico, Tavira será charneira.

A vida dos tavirenses cruza-se por isso, nestes anos, com os itinerários da história pátria. Tavira não era jamais uma vila, e por isso a elevação a cidade foi justiça ao tempo e à dedicação dos homens.

A população aumenta, e de 1527, no reinado de D. João III, quando se procedeu ao primeiro numeramento da população portuguesa, Tavira excedia as 7000 almas, o que fazia dela a quinta cidade mais populosa do Reino, logo a seguir a Elvas, Santarém, Porto e Lisboa; e as suas amarras foram consideradas o terceiro ou quarto porto mais dinâmico do país. Assumindo funções diferentes da comprovinciana Lagos, que será a sentinela vigilante da novíssima luz do Atlântico e que pela ação do Infante foi estaleiro e pilar de consideráveis transações, a Tavira caberá, como lembrou Joaquim Veríssimo Serrão, “o papel de cunha algarvia no Magrebe” (Câmara Municipal de Tavira, 2001, p.40). Se de Lagos partiam e chegavam caravelas que exploravam novas paragens e que regressavam com tecidos, escravos, ouro e exóticas matérias, Tavira foi reunião de homens para guerra, para essa guerra que travada como justa e santa, onde se empregaram fortunas, não com esperança de retorno, mas apenas para o protagonismo de Portugal e prestígio ante o Papa e a Cristandade. Foi na manutenção das praças portuguesas no Norte de África – para onde a toda a hora era necessário enviar homens, armas, cavalos, biscoito, vinho, trigo e outros víveres –, que Tavira se mostrou mais leal. A vida dos tavirenses cruza-se por isso, nestes anos, com os itinerários da história pátria. Tavira não era jamais uma vila, e por isso a elevação a cidade foi justiça ao tempo e à dedicação dos homens.

A derradeira sala é dedicada às crianças, que podendo sentar-se num trono real, podem assinar uma réplica da carta de elevação, e assim experimentar o entusiasmo e a alegria de uma pueril viagem no tempo.

No setecentista palácio dos Gama e Ataíde, atualmente conhecido como Palácio da Galeria, onde tem sede o Museu Municipal de Tavira, apresenta-se um percurso de sete salas, onde é possível deambular pela história da cidade. Na primeira sala, uma enorme reprodução da carta de elevação, com acesso à respetiva transcrição; uma cronologia apresenta-nos ainda os principais marcos da história de Tavira, bem como as visitas régias que nela tiveram lugar. A segunda sala é dedicada à participação de Tavira na gesta da Expansão. Para quem entra, a ala direita é dedicada à exploração marítima, e a esquerda, dedicada à conquista do norte de Marrocos. Na primeira: cartografia da época, réplicas de embarcações que foram cedidas pelo Museu de Marinha, e uma homenagem aos Côrte-Real, família de homens ilustres e navegadores originária de Tavira; na segunda: uma representação de uma das tapeçarias de pastrana, um mapa das praças portuguesas em Marrocos, e algumas peças de armamento do século XVI generosamente emprestadas pelo Museu Militar. O terceiro módulo é dedicado aos temas da economia e sociedade: trajes, documentos originais de confirmação de privilégios, uma caixa de pesos manuelina e alguns fragmentos de cerâmica desenterrados em campanhas arqueológicas. Em seguida, em espaço dedicado à arquitetura e ao urbanismo, resquícios da arte manuelina em Tavira – nomeadamente uma esfera armilar, proveniente da antiga Câmara Municipal e algumas cantarias, colunas e capitéis – permitindo ao visitante imaginar como seria a cidade através da mais antiga planta conhecida. Seguindo em frente, dar-nos-emos com mais duas câmaras, dedicadas à parte religiosa. A primeira ilustra o ex-líbris da arte sacra da Tavira quinhentista: quatro painéis que representam São Vicente, São João, São Pedro e São Brás, entre outras peças cedidas pelo Museu Frei Manuel do Cenáculo de Évora; e a penúltima, em memória das vítimas da Inquisição em Tavira, evoca dos mais de 100 processos, os únicos cinco condenados, em especial o célebre Frei Valetim da Luz. A derradeira sala é dedicada às crianças, que podendo sentar-se num trono real, podem assinar uma réplica da carta de elevação, e assim experimentar o entusiasmo e a alegria de uma pueril viagem no tempo.

O Museu Municipal de Tavira conseguiu concretizar com sucesso uma galeria informativa, envolvida em cenários de grande qualidade gráfica e concebidos com muito bom gosto, oferecendo assim uma apresentação bonita, clara e carismática, de acordo com a dignidade da cidade e da ocasião.

Possivelmente a exposição teria ficado mais completa se se criasse uma maquete ilustrativa da orgânica da cidade antiga. Cremos, também, que a exposição teria ganho se fossem expostas outras peças de arte-sacra existentes em Tavira que não foram integradas – como as quatro Tábuas representativas da Visitação, Natividade, Apresentação, e Adoração que integram o acervo do Museu paroquial, ou ainda a imagem de Nossa Senhora do Loreto, diante da qual El-Rei D. Sebastião ouviu Missa e rezou, e que hoje se exibe na igreja de S. Francisco. Não obstante estes reparos menores, o balanço é extremamente positivo. O Museu Municipal de Tavira conseguiu concretizar com sucesso uma galeria informativa, envolvida em cenários de grande qualidade gráfica e concebidos com muito bom gosto, oferecendo assim uma apresentação bonita, clara e carismática, de acordo com a dignidade da cidade e da ocasião.

Seja a celebração desta efeméride um adicional atrativo para o Algarve, que por ter muito mais a oferecer que sol e praia, continua detentor de tantas jóias do nosso património.

 


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© Página web oficial da exposição - http://museumunicipaldetavira.cm-tavira.pt

Exposição
A Principal do Reino do Algarve – Tavira nos seculos XV e XVI
18 de Maio – 31 de Dezembro 2020 I terça-feira a sábado, 9h30 –14h30
Museu Municipal de Tavira – Palácio da Galeria – Calçada da Galeria, 8800-306 Tavira
Contactos: 281 320 540 I Geral: museu@cm-tavira.pt I Serviço Educativo: edu.museus@cm-tavira.pt
Bilhetes: aqui

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.


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Esta secção é da responsabilidade da revista Brotéria – Cristianismo e Cultura, publicada pelos jesuítas portugueses desde 1902.

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