Recensão: Sophia e a Antiguidade Clássica

No mês em que se assinala o centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen, João Sarmento leu a obra "O nu na Antiguidade Clássica". Apresentamos aqui a sua recensão à obra de Sophia.

No mês em que se assinala o centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen, João Sarmento leu a obra "O nu na Antiguidade Clássica". Apresentamos aqui a sua recensão à obra de Sophia.

No centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen é certamente oportuno voltar aos mergulhos profundos nesse mar de luz antiquíssima, regressar a Ítaca pelo caminho marítimo mais longo, navegar nas ondulações modeladas de palavras brônzeas.

O livro organiza-se em duas grandes partes. A primeira é a reedição de «O nu na Antiguidade Clássica», com prefácio de José Pedro Serra, que são vinte ‘lições’ de Sophia, tateando detalhada e calmamente a arte da antiguidade grega. Nesta obra, repassam-se autores, recordam-se os mesmos vasos gregos, o nu feminino, obras ou momentos de viragem significativa na esfera estilística, como foi o fim da frontalidade. O ensaio termina com um apontamento sobre os “Dois bronzes de Riace” encontrados no mar calabrês em 1972. A segunda parte deste livro é uma antologia de poemas sobre a Grécia e Roma. A edição, introdução e notas são da própria filha da poetisa, Maria Andresen de Sousa Tavares.

Ter Sophia por guia de uma Grécia herdada, na ‘primeira parte’ do livro, é ler poeticamente não só a arte dos museus e o rasto que cada um destes elementos sulcou na sua passagem, mas, principalmente, é desvelar uma cosmogonia. Em poucas palavras Sophia faz-nos “descobrir a ordem da natureza, descobrir a felicidade e a harmonia múltipla e radiosa da natureza”, originando o desocultar de uma arte “naturalista” (p.29), onde só no corpo se “descobre o divino.”

Na esteira da tradição clássica, Sophia considera que aos poetas é reclamada a revelação do divino, nunca como “parecença”, mas como presença, aparição, como quem ensina a ver o ‘aí’ dos deuses.

Na esteira da tradição clássica, Sophia considera que aos poetas é reclamada a revelação do divino, nunca como “parecença”, mas como presença, aparição, como quem ensina a ver o ‘aí’ dos deuses. Porém, esta perfeição representada é aquela perfeição do mesmo Homem, como fruto desavisado da antropomorfização das divindades, ou a divinização dos homens. O pensamento grego “crê na alêtheia, crê no não-coberto, no não-oculto, procura o homem não-coberto, nu.” (p.25). Daí que a invenção do nu, neste contexto, é coincidente com a ontologia. O escultor “crê que o ser está na physis, o Grego crê que o ser está no mundo em que estamos.” (p.25) O corpo nu é, portanto, um microcosmo, um espelhamento de toda a ordem criada. Assim, vemos emergir da matéria a ordem divina estrutural. O nu esculpido não é efetivamente um “modelo, mas um módulo”, fenómeno de “manifestação”, de “brilho” do ser. O corpo do humano “É ser, estar, aparecer.” (p.26)

Maria Andresen de Sousa Tavares, referindo-se aos poemas posteriores dos livros “Geografia” e “Dual”, afirma que a “Grécia é interiorizada como lugar poético que oferece um modo de articular a obstinação de claridade com que afronta as forças de destruição.” (p.128). Contudo, não parece desajustado estender esta afirmação a uma leitura mais transversal da obra poética de Sophia. A luz clássica no trabalho da poetisa não resplandece etéreo no Olimpo, mas antes informa o drama estrutural do existir humano que é encenado, ontem como hoje, também sob a “veemência vital de monstro insaciado”. (p. 186).  Em Sophia o universo clássico não é álibi de fundamentação autorizativa. Não mostra ser um subterfúgio neoclássico ou um trabalho para leitores versados na mitologia e nos seus personagens. Funciona antes como uma inevitabilidade de quem reconhece pertencer à “raça daqueles que mergulham de olhos abertos/ e reconhecem o abismo pedra a pedra anémona a anémona flor a flor”. (p.173-174) De alguém que é descendente da “raça daqueles que percorrem o labirinto/ Sem jamais perderem o fio de linho da palavra”. (p.175). Avaliando o lugar da antiguidade na obra da escritora, José Pedro Serra chama-o «ontologia da inspiração» (p.12), dado que possibilita o encetar leituras desta Sophia como de todas as ‘outras’.

Nesta obra, a nudez e a luz proporcionadas são pedagogos da ordem e da sombra. E como ninguém que busca ver o interior da verdade “escapa a esses gregos” (Cf. p. 23) Sophia oferece ensaios e poemas fundindo em bronze palavras aladas.

 

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner

O nu na antiguidade Clássica. Antologia de poemas sobre a Grécia e Roma

224 págs, Assírio & Alvim, 2019

(16,60 €)

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.


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