Contra a distração má, uma distração boa

Seria engraçado se não fosse trágico: na era da distração, já não nos sabemos distrair!

Quando me lembro da exposição Todos os livros, de Lourdes Castro, que vi na Gulbenkian há uns anos, o que no meu espírito se acende é: cinema. O que haverá nestes livros, e nesta arte, que me atira para aí? Os livros “todos” a que o título da exposição se refere são muitos e bem diferentes. Há um calendário, álbuns, livros de poesia (Rilke, Rimbaud, Herberto, mais), um livro de números, um livro de cozinha, etc. Aqui estão eles:

Livros que são muitos livros, livros que são só uma dobra; livros que se desdobram, demoram, livros livres. Mas o cinema que descubro em Lourdes Castro virá de onde exatamente?

Da ideia de movimento: um sentido que só nasce em sequência, no passar de uma página para outra, que é como quem diz, de um plano para outro? Ou da ideia de corte e efeito, de planos que se justapõem e sobrepõem? Ou será que o cinema entra nesta arte pela maneira como tudo se cola, isto é, pela montagem?

E não, isto não é nenhum delírio de escritor. Ao falar de cinema na obra de Lourdes Castro, não estou a inventar nada. Noutro livro da artista, Sombras À Volta de Um Centro, João Fernandes escreve: “Acontece com a sombra o mesmo que acontece com o cinema. É sempre de uma projeção que se trata.” E, em Dos Signos e do Resto, Paulo Pires do Vale (curador dessa exposição na Gulbenkian que tanto me tocou) fala também de montagem e lembra que “no Livro de Cozinha, de 1961, há quatro páginas em que Lourdes altera e adapta uma referência ao filme de Godard, A bout de souffle, de 1960”. As palavras do livro falando diretamente com o leitor como Belmondo, no filme, falava diretamente com o espetador.

Têm a mesma idade, a sombra e a luz. Lourdes Castro e Jean-Luc Godard nasceram no mesmo ano.

Sim, diz-se das sombras, como das imagens de um filme, que são “projetadas”. Além disso, uma sombra exige sempre de nós um “movimento” (automático, quase inconsciente) em direção à sua referência, ao que lhe dá origem. Uma sombra é sempre, digamos, um “segundo sentido”.

Também pode ser visto como uma espécie de cinema em tempo real, o teatro de sombras de Lourdes Castro. Um cinema pobre, sem câmara, um cinema da presença e da vida.

Se calhar, é isso. Se calhar, quando, perante o universo particular de Lourdes Castro, penso “cinema”, estou é a dar um nome a esse mistério: a confusão entre arte e vida que esta obra consegue — sem esforço visível, de um modo espantosamente “próprio” e “natural”, como se viver fosse de facto a nossa arte de cada dia.

Atentemos, por exemplo, no Grande Herbário de Sombras (um livro de Lourdes Castro que podemos ter em casa, graças à edição da Assírio & Alvim em 2002). São cerca de cem sombras de plantas, fixadas em papel pela artista portuguesa na “Ilha da Madeira, durante o verão de 1972” (cito da página de entrada). Folhear este Grande Herbário de Sombras é ler a mais delicada das histórias. Só o título já é um poema. Uma história feita quase só de tempo, como um sopro que, nas nossas mãos, se vai tornando espírito.

Sombras roxas, morenas, gris; de boas-noites, pimpinelas, chagas. E, sob tão incontestáveis imagens, parece que se ouve uma voz a segredar: se te distraíres, aí a beleza. Diz Giacometti, em O Estúdio de Alberto Giacometti, de Jean Genet: “Um dia, no quarto, ao olhar uma toalha em cima da cadeira tive vivamente a impressão de que, além de estarem sós, os objetos tinham um peso — melhor, uma ausência de peso — que os impedia de assentar sobre os outros. A toalha estava só, de tal modo só que eu tive a sensação de poder pegar na cadeira sem a toalha se mexer do sítio. Tinha o seu lugar próprio, o seu peso, e até um silêncio próprio. O mundo era leve, leve…” Palavras tão certas. Também Lourdes Castro trabalha a partir da solidão e da leveza dos objetos. É isso, mais o movimento de folhear — que, de certa forma, evoca o misto de cuidado e desprendimento da jardinagem, como se entre as folhas das plantas e as folhas dos livros não houvesse afinal grande diferença — que me leva à ideia de distração. Distração, pois, que felicidade. Andarmos distraídos como em miúdos, a passear sem objetivo e sem fim.

E agora, caro leitor, permita-me fazer um corte brusco para colar aqui o excerto de um artigo de Madeleine Bunting na New York Review Books, “Desarmar as armas de distração massiva”, que liga os crescentes défices de atenção à utilização das novas tecnologias e nota que, com os telemóveis (leia-se: redes sociais, mensagens, email, mil e uma aplicações), já não há experiências ininterrompíveis: “Há quem defenda que a perda da capacidade de atenção séria é um presságio de catástrofe. A atenção é o elemento-base ‘da intimidade, da sabedoria e do desenvolvimento cultural’, defende Maggie Jackson no seu livro Distracted, onde avisa que ‘à medida que as nossas competências de atenção vão sendo delapidadas, nós vamos caindo numa cultura de desconfiança, superficialismo e convergência desumana entre o homem e a máquina.’ ”

Seria engraçado se não fosse trágico: na era da distração, já não nos sabemos distrair!

A arte não tem de ensinar nada, claro. Não é para isso que existe — até porque não existe “para” coisa nenhuma. (Será a arte, afinal, o tal passeio sem objetivo e sem fim?) Mas também não vem nenhum mal ao mundo se aprendermos com ela, não é verdade?

Talvez o antídoto para esta distração que nos interrompe o essencial da vida não seja mais trabalho ou exercícios de concentração. Talvez seja antes a distração de quem está no mundo como que folheando um Grande Herbário de Sombras. Contra a distração má, uma distração boa. Sim: contra o excesso de telemóveis e tal, proponho a lição da arte de Lourdes Castro. Uma forma de real atenção. Redescobrir o presente, o aqui-e-agora que é estar vivo. Reaprendermos a olhar e a ver. Regressarmos a nós próprios como quem passeia por um jardim numa bela segunda-feira de sol.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.