Se me perguntassem de que é que me apaixonei em Tete, acho que teria alguma dificuldade em responder. Não é uma coisa, muito menos algo em concreto, acredito que foi tudo o que tenho vivido e vivo aqui.
Foi pela forma como as pessoas te recebem, pela maneira como têm sempre espaço para mais um. Mesmo quando não têm muito, têm sempre alguma coisa para dar/ ajudar. E é através desses gestos que eu sinto o carinho.
Foi por haver sempre tempo para conversar, por poder parar. Por não sentir tanta indiferença pelo outro, aqui parece que há uma atenção constante por quem está à nossa volta. Não se anda sempre a correr e ao mesmo tempo, o tempo passa tão depressa.
Valorizei as pequenas coisas que já fazem parte do meu dia a dia, sem eu lhes dar importância. O cumprimentar todas as pessoas por quem passas, a pequena e subtil vénia o bater das mãos quando se agradece ou se está a despedir. O entrar em casa de alguém e se ser recebido com se fosse da família. O som da música alta pelas ruas, o cheiro a bolinhos, o cheiro a comida feita com leite de coco. Até a forma como uma capulana pode servir para tanta coisa. São coisas simples, mas acho que é precisamente isso que me encanta.
Foi pelas pessoas em si, nunca pensei que fosse criar relações assim, e é engraçado quando me apercebi que aquelas pessoas que inicialmente eram apenas pessoas que conhecia na missão, no bairro, na paróquia, ou nos projetos, já eram pessoas de quem eu gostava, por quem me preocupava e cuja a sua presença já fazia parte dos meus dias. E há qualquer coisa extraordinária, que sem nos darmos conta foram se tornando casa, apoio, colo e companhia.
Foi pelo modo como se vive a fé, a alegria e a intensidade com que as pessoas o vivem. É algo difícil de explicar, há momentos em que basta começar uma musica religiosa e sente-se algo diferente, como se toda a gente se unisse e estivesse lá para o mesmo.
Talvez seja por isso que o que mais me cativa não é uma coisa especifica e concreta. É sim, a forma como todas as coisas se juntam. As pessoas, o acolhimento, a cultura, a fé, os costumes, as conversas, as músicas, os cheiros, a comida, e as pequenas coisas do dia a dia.. Claro nem todos são dias incríveis, há dias cansativos, dias difíceis, dias em que sentimos mais os nossos limites. Mas mesmo assim, quando penso em tudo isto, continuo muito feliz e grata por tudo. Pois realmente é muito bom estar aqui.
Ainda não sei exatamente o que a missão vai deixar em mim, é que ainda aqui estou, ainda tenho muito para viver, aprender, conhecer, … e ainda há muito para acontecer, só sei que algures pelo caminho me “apaixonei” por isto.
E talvez seja isso mesmo que quero guardar da missão, a capacidade de olhar para uma realidade diferente e, em vez de passar por ela, deixar-me tocar por ela, gostar dela e , pouco a pouco, sentir que também é um bocadinho minha.
Leonor Lopes
Tete (Moçambique), 2025-2026
