«“Fratelli tutti”: escrevia São Francisco de Assis, dirigindo-se a seus irmãos e irmãs para lhes propor uma forma de vida com sabor a Evangelho». Com estas palavras, inicia o Papa Francisco a sua carta encíclica sobre a fraternidade e a amizade social, inspirando-se no Santo de Assis. Cita a Exortação 6; e na frase seguinte a Exortação 25.
Tal como na encíclica Laudato si΄ sobre o cuidado da casa comum, Francisco de Roma inspira-se em Francisco de Assis. Nestas duas encíclicas encontramos os dois elementos principais do pensamento, da vida e da ação do Santo de Assis: o louvor a Deus e a exortação aos irmãos, o género literário laudativo e o exortativo, as formas próprias de quem mantém uma especial relação com Deus e de quem partilha a sua intensa vivência do Evangelho.
«O mundo é algo mais do que um problema a resolver; é um mistério gozoso que contemplamos na alegria e no louvor». Estas palavras da encíclica Laudato si΄ (n. 12) sintetizam a visão que São Francisco tem do mundo e da vida. É com o mundo, com todas as criaturas, que ele louva o Criador. Súmula desta visão é o seu Cântico das Criaturas, que inspira a Laudato si΄.
Folheando os seus escritos, encontramos muitas outras orações de louvor que são também poemas, o que nos leva facilmente a concluir que a oração do Santo de Assis é essencialmente de louvor. Estes são os textos principais: Louvores ao Deus Altíssimo; Exortação ao Louvor de Deus; Louvores a dizer antes de todas as Horas; Ofício da Paixão do Senhor (composto por 15 salmos).
É no contexto da vida de oração marcada pelo louvor que São Francisco exorta os irmãos e as irmãs à radicalidade evangélica. Ainda muito recentemente, o Papa Leão XIV pedia aos jovens em Assis: «Com São Francisco, aprendei a radicalidade evangélica, que é o oposto do fundamentalismo: não torna cegos nem violentos, mas sensíveis, atentos, sempre no seguimento de Jesus e, por isso, humildes e acolhedores para com todos. Não é fácil, mas dá muita alegria.» (Diálogo com os jovens, 6 de agosto de 2026).
A exortação aos irmãos e às irmãs está também muito presente nos escritos do Santo de Assis: nas Cartas e, sobretudo, num conjunto de 28 pequenos textos com o título Exortações, mas até nos Textos Legislativos, lidos à luz do Testamento Espiritual e dos textos evangélicos que inspiram a Regra.
Um bom exemplo, a Última vontade a Santa Clara (e às clarissas) palavras ditas pouco tempo antes de morrer: «Eu, o pequeno irmão Francisco, quero seguir a vida e a pobreza do nosso altíssimo Senhor Jesus Cristo e de sua santíssima Mãe e perseverar nela até ao fim; e rogo-vos, senhoras minhas, e vos aconselho que vivais sempre nesta santíssima vida e pobreza.»
A Exortação 6, citada no início da encíclica Fratelli tutti, é sobre o seguimento do Bom Pastor: «Irmãos todos, ponhamos diante dos olhos o Bom Pastor que, para salvar as suas ovelhas, sofreu a paixão da cruz. As ovelhas do Senhor seguiram atrás dele, na tribulação e na perseguição e no opróbrio, na fome e na sede, na enfermidade e na tentação, e nas demais provações e, como recompensa, receberam do Senhor a vida eterna. […]»
A Exortação 7, sobre “o espírito da divina letra”, é muito significativa para a compreensão do pensamento de São Francisco. Começa por citar São Paulo, 2 Cor 3, 6: «a letra mata, enquanto o Espírito dá a vida». O predomínio do Espírito em relação à letra permite que entendamos o distanciamento de Francisco em relação ao literalismo evangélico, ao radicalismo fundamentalista, muito diferente da radicalidade evangélica.
Entre a diversidade temática das 28 Exortações, de sublinhar o conteúdo das Exortações 12 (“Como conhecer o espírito do Senhor”) e 13 (“Como conhecer se alguém tem paciência e humildade): estamos perante um pequeno tratado sobre o discernimento. E também o conteúdo da Exortação 16: um breve tratado sobre as três vias da vida espiritual (purgativa, iluminativa e unitiva).
Francisco exortava os irmãos com grande fervor e doçura (ferventer et dulciter), depois de consultar o Senhor, como diz um dos seus primeiros biógrafos (Anónimo Perusino, cap. VIII). O que dizia aos irmãos experimentava-o primeiro na sua vida, refere o mesmo biógrafo. O Santo de Assis propunha a seus irmãos e irmãs uma forma de vida com sabor a Evangelho. Fazia-o com palavras, mas sobretudo com a sua forma de ser, o seu testemunho, sendo ele, Francisco com sabor a Evangelho.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.