Papa Francisco debaixo de fogo

Uma leitura fluida contrapõe-se à dificuldade afetiva intrínseca a um tema que toca feridas internas da Igreja, ainda que nos dê o gosto de as ver tratadas com rigor. O livro de Andrea Tornielli e Gianni Valente é uma sugestão Brotéria.

Uma leitura fluida contrapõe-se à dificuldade afetiva intrínseca a um tema que toca feridas internas da Igreja, ainda que nos dê o gosto de as ver tratadas com rigor. O livro de Andrea Tornielli e Gianni Valente é uma sugestão Brotéria.

Papa Francisco debaixo de fogo. O título é dramático e a realidade a que se refere também. Os autores são dois jornalistas italianos, Andrea Tornielli vaticanista do jornal La Stampa, e Gianni Valente, colaborador da revista de geopolítica Limes, respetivamente responsável e redator do site Vatican Insider, autores também, em separado, de ensaios e livros sobre os papas Bento XVI e Francisco. Tornielli chegou a assinar o livro “O nome de Deus é misericórdia” em conjunto com o Papa Francisco.

O livro trata da «tentativa de golpe contra o papa» que, tal como uma bomba mediática, explode durante a sua viagem à Irlanda, em Agosto de 2018. Num trabalho de jornalismo de investigação os autores trazem à luz, através de uma análise rigorosa de factos e documentos, a manipulação de meias verdades e a desinformação interessada sobre a qual é construída essa « tentativa de golpe ».

Os termos utilizados de “golpe”, “bomba mediática” ou “ataque contra o Papa”, referem-se primeiramente à publicação do documento Testimonianza, assinado pelo ex-núncio do Vaticano nos Estados Unidos, já reformado, Carlo Maria Viganò que acusa o Papa Francisco de encobrimento do cardeal arcebispo de Washington, Theodore McCarrick, em casos de abusos sexuais de seminaristas maiores de idade, durante o pontificado de Bento XVI.

O « golpe » acontece no verão de 2018, precisamente quando o Papa se desloca a Dublin, numa viagem marcada pelo escândalo de abusos sexuais que feriram a Igreja deste país. A visita é grave e intensa, o Papa representa uma igreja fragilizada, participa numa vigília com as famílias, encontra-se com vítimas dos abusos, responde a perguntas para além do protocolo. Eis que na manhã de Domingo, pelas quatro da manhã, os jornalistas recebem nos seus smartphones o dito documento de Viganò, de 11 páginas, acessível em italiano, inglês e espanhol, divulgado simultaneamente em jornais on-line, páginas e blogues da rede mediática ligada à esfera neoconservadora dos opositores do Papa, rede italo-americana de que os autores disponibilizam nomes e endereços eletrónicos.

Mais precisamente, Viganò acusa o Papa Francisco de levantar o castigo imposto ao cardeal por Bento XVI, e pedindo em consequência a demissão do Sumo Pontífice, pretensão gravíssima sem precedentes históricos recentes.

Os autores argumentam assim em favor de um Papa que agiu com vigor mas não quis defender-se a si próprio nem fazer depender de si a dignidade paradoxal de uma Igreja santa e pecadora.

No entanto, a desmontagem do documento mostra que, contrariamente ao insinuado, desde que Francisco toma conhecimento do caso, reitera e fortifica as sanções do seu antecessor. Mas se Bento XVI tinha castigado o cardeal, em privado, a uma vida de recolhimento, penitência e oração, a que McCarrick desobedece ostensivamente, Francisco fá-lo publicamente, impedindo-o assim de desobedecer. Na sequência, aceita a sua renúncia ao cardinalato e toma ainda a medida extrema de reduzir o arcebispo de Washington ao estado laical. Quanto ao documento Testimonianza de Viganò, o Papa não entrou em polémica nem se defendeu publicamente, é o Cardeal canadiano Marc Ouellet, conhecedor da situação que, numa “Carta Aberta” ao ex-núncio Viganò, simultaneamente fraterna e dura, repõe publicamente a verdade dos factos.

Dado o conteúdo e a circunstância, o documento de Viganò foi, de facto, uma “bomba”, o livro mostra-a o seu contexto mais alargado de ataque concertado, isto é, de um cerco meditado e crescente de cheque-mate a um Papa considerado inimigo por parte de grupos neoclericais, ultra-conservadores, do qual a Testimonianza constitui apenas o climax. Diversos argumentos demagógicos, desmontados pelos autores, convergem para esta finalidade. Assim, a série de documentos de intensidade crescente, dúbia, Correctio, Professio, que culminam na Declaratio ou tentativa de impeachment doutrinal do Papa, documento assinado, ao fim de contas, por teólogos irrelevantes em desacordo com a exortação apostólica Amoris laetitia ; mas também o aproveitamento do fetiche ideológico do antagonismo entre os Papas Francisco e Bento XVI, apagando uma afinidade substancial entre eles em favor dos diferentes estilos de ser e de estar, insinuando ultimamente a fidelidade ao “Papa emérito”, contra o direito e a vontade daquele que já não é Papa mas ex-Sumo Pontífice.

Mais inquietante é o capítulo sobre o aproveitamento do dossier Viganò pelo lobby neoconservador americano. O seu poder financeiro e ideologia “cristianista” – neologismo criado pelo filósofo Remy Brague para distinguir da fé cristã um pensamento religioso binário segundo as categorias “progressita / tradicionalista” ou “conservador/ liberal” – cruza-se com a utilização de novos procedimentos de marketing informático, recolha de informações confidenciais, caracter assassination, regime change e political impeachment. Aplicado à Igreja, um projeto designado Red Hat Report, (Relatório Barrete Vermelho) faz a monitorização de cada cardeal eleitor no conclave papal, tão convicto do seu poder de influência os seus responsáveis lamentaram durante a sua apresentação que “se já o possuíssemos, talvez não tivéssemos o Papa Francisco”. Mas aqui, torna-se tão difícil separar a ficção da realidade quanto é fácil perceber o secularismo extremo do lobby religioso na sua incompreensão radical do lugar por excelência do acolhimento da providência de Deus e da confiança no Espírito Santo que guia a Igreja.

Identificam a gravidade da situação da Igreja ferida de clericalismo e de abusos de poder, de consciência e sexuais, perante a qual Francisco convida os fiéis à oração, pois a eficiência humana não basta no que respeita ao mistério da Igreja. Os autores identificam esta atitude fulcral de Francisco citando outro Papa reformador, Paulo VI: « o Papa considera que não deve seguir outra linha a não ser a confiança em Jesus Cristo, ao qual interessa a sua Igreja mais que a qualquer outro. »

Uma leitura fluida contrapõe-se à dificuldade afetiva intrínseca a um tema que toca feridas internas da Igreja, ainda que nos dê o gosto de as ver tratadas com rigor. Finalmente, parece-nos sensato que o livro seja dedicado a todos os padres que no seu quotidiano anunciam o Evangelho sem ambições pessoais e àqueles que na Cúria Romana desempenham cargos com humildade e sem protagonismo.

 

Papa Francisco debaixo de fogo
Autores: Andrea Tornielli, Gianni Valente,
Lisboa, Editorial Planeta, 2019 I 259 páginas
Custo: 16 euros – Comprar

 

 

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.


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Esta seção é da responsabilidade da revista Brotéria – Cristianismo e Cultura, publicada pelos jesuítas portugueses desde 1902.

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