António Vaz Pinto - um jesuíta pós conciliar - Ponto SJ

António Vaz Pinto – um jesuíta pós conciliar

António Vaz Pinto resumiu, na sua personalidade e na sua vida, em síntese rara, o equilíbrio entre o passado e o presente da Companhia de Jesus, entre a tradição e a modernidade pós-conciliar.

António Vaz Pinto resumiu, na sua personalidade e na sua vida, em síntese rara, o equilíbrio entre o passado e o presente da Companhia de Jesus, entre a tradição e a modernidade pós-conciliar.

Agradeço o amável convite para usar da palavra nesta homenagem ao meu querido amigo P. António Vaz Pinto, que muito estimei e admirei.

O P. António Vaz Pinto resumiu, na sua personalidade e na sua vida, em síntese rara, o equilíbrio entre o passado e o presente da Companhia de Jesus, entre a tradição e a modernidade pós-conciliar. António Vaz Pinto foi um jesuíta pós-conciliar, que soube transportar consigo, e traduzir na sua vida, o melhor da tradição histórica da Companhia de Jesus.

A Companhia de Jesus nascera em tempos da Reforma, quando o papado era ameaçado pelo direito divino dos reis do absolutismo régio, que surgia um pouco por toda a Europa, e pelo desejo dos emergentes estados-nações de nacionalizarem as suas religiões, sob a divisa: “a cada reino a sua religião”. Os jesuítas constituíram-se como milícia avançada do Papa, defensores da unidade e da universalidade da Igreja.

Nasceram, também, em tempos de expansão marítima da Europa, tornando-se missionários, levando o nome de Jesus às quatro partes do mundo, deixando na história gestas gloriosas e heróicas, com particular destaque para a Índia, Japão e China (no Oriente), para as Reduções dos Guaranis (na América Latina) e para a África.

Os jesuítas constituíram-se como milícia avançada do Papa, defensores da unidade e da universalidade da Igreja.

Foram teólogos em Trento, e defensores do Papa em países da Reforma, desde a Europa central à Inglaterra, evangelizadores de povos europeus e extra-europeus, educadores de gerações e gerações que marcariam a vida de muitos países, confessores de reis e de nobrezas.  Foram, por isso, odiados pelo despotismo esclarecido, que conseguiu suprimi-los no século XVIII, só regressando no século XIX, numa refundação, muito apoiados pelo legitimismo e temidos pelo liberalismo.

António Vaz Pinto nasceu em 1942, em plena guerra mundial, no seio de uma família antiga e tradicional, quando era Papa Pio XII, considerado um papa conservador, antigo aluno e amigo dos jesuítas. Foi educado pelos jesuítas no Colégio de S. João de Brito. Os seus professores, que terão estimulado a sua vocação, eram jesuítas tradicionais, conservadores. O Colégio em que andou era um colégio de elite, frequentado por alunos provenientes “de famílias tradicionais, com valores e costumes cristãos”, como ele próprio disse mais tarde, isto é, frequentado por alunos oriundos dos meios económicos mais favorecidos. A imagem que deve ter colhido dos jesuítas seus educadores, seria por certo a de educadores das elites, como sempre haviam sido ao longo dos séculos da sua existência. Não podendo educar a todos, os jesuítas focavam-se não só nos que pertenciam às elites católicas, que podiam pagar a sua educação, mas também naqueles, que por destino provável, mais importantes seriam na sociedade, podendo por isso moldar comportamentos e valores sociais.

António Vaz Pinto entrou na Companhia de Jesus em 1965, no mesmo ano em que se registou uma profundo mudança na Igreja, com o encerramento do Concílio Vaticano II, em Dezembro desse ano, e no mesmo ano em que se iniciou uma transformação da Companhia de Jesus, com a eleição do P. Pedro Arrupe, como Geral dos jesuítas, e com as novas orientações emanadas pela famosa 31.ª Congregação Geral que o escolheu. O ano de 1965 assinalará, de facto, uma viragem histórica da Igreja e dos jesuítas. O aggiornamento conciliar abriu a Igreja ao mundo contemporâneo. E os jesuítas, de conservadores, de ordem de reacção contra a Reforma, de missionários da expansão marítima ocidental, de opositores do laicismo liberal, passaram a ser os que mais defendiam a necessidade de responder às exigências do mundo em mudança, e aos desafios da modernidade.

No dizer do historiador Gianni La Bella, que analisou Os Jesuítas, desde o Vaticano II até ao Papa Francisco, “nenhuma família religiosa viveu, em tempo tão curto, nos anos depois do Concílio, uma tão significativa metamorfose”. E John W. O’Malley, um dos maiores historiadores da Companhia de Jesus, considerou igualmente a grande metamorfose que a ordem atravessou nesses anos, com a Congregação Geral que elegeu o P. Pedro Arrupe, como superior, como uma refundação dos Jesuítas: um novo início e uma nova era na história da Ordem.

O aggiornamento conciliar abriu a Igreja ao mundo contemporâneo. E os jesuítas, de conservadores, de ordem de reacção contra a Reforma, de missionários da expansão marítima ocidental, de opositores do laicismo liberal, passaram a ser os que mais defendiam a necessidade de responder às exigências do mundo em mudança, e aos desafios da modernidade.

O Noviciado, em que António Vaz Pinto entrou em 1965, interrompendo o seu curso de Direito, era uma instituição tradicional, onde nada mudara desde tempos imemoriais. Só em Braga, quando começou a sua formação filosófica, teve oportunidade de conhecer os textos do Concílio, publicados pela primeira vez em português, em 1966.

O Concílio reabilitou alguns dos jesuítas antes marginalizados pelas suas posições avançadas, nomeadamente o teólogo Henri de Lubac, proibido de ensinar anteriormente, e feito perito no Concílio e, sobretudo, o famoso paleontólogo Teilhard de Chardin, que se tornou num dos grandes pontos de referência do pensamento católico nos tempos pós-conciliares, cuja obra e pensamento começaram a circular com grande aceitação e admiração. E entre outros grandes teólogos do Concílio, estavam outros jesuítas, em especial o grande professor alemão Karl Rahner (autor de uma importante biografia de S. Inácio de Loyola, publicada em 1958) teólogo esse que António Vaz Pinto virá a conhecer na Alemanha, e que lhe falou dos Conimbricenses.

Eram tempos de mudança aqueles, quando frequentou a Faculdade de Filosofia de Braga, na qual assistiu ao aparecimento da Universidade Católica Portuguesa, com a integração daquela faculdade jesuítica na nova universidade. A abertura ao exterior, da Igreja e da Companhia, colocou desafios novos, formulou exigências até aí desconhecidas.

O Concílio Vaticano II veio dar resposta a esses desafios. Ao definir a Igreja como “povo de Deus”, ao defender a participação dos leigos a todos os níveis na vida da Igreja e na sociedade, desde o litúrgico ao social e político, o Concílio convidava os católicos a novos compromissos com a realidade para transformar o mundo para melhor: na paz, no desenvolvimento, na fraternidade, partilhando as alegrias e as tristezas dos homens.

O Concílio – disse-o o Papa Bento XVI, “conferiu novamente ao cristianismo força para fazer história”. Uma das suas consequências foi precisamente “realçar de novo o facto de que a fé do cristão abrange a vida inteira, de que o seu lugar é no meio da história e do tempo, ultrapassando a sua importância o âmbito meramente subjectivo”. Com o Concílio, – continua o Papa Ratzinger – “o cristianismo tentou sair do gueto para que tinha sido relegado durante o século XIX, para se envolver novamente com o mundo na sua totalidade”. Preconizava-se, na sequência dele, “uma nova fusão entre a Igreja e o mundo sob o signo da revolução que pretendia ser, finalmente, o ponto de partida para um tempo melhor. A participação decisiva de comunidades estudantis católicas e protestantes nas transformações revolucionárias operadas em universidades dentro e fora da Europa acabou por indicar na mesma direcção”, explica Bento XVI.

O Concílio fomentou, também, a liturgia comunitária e a participação de todos os católicos na vida da Igreja, com a possibilidade do uso das línguas vernáculas na liturgia, e adoptando a celebração da missa com o sacerdote e o altar virados para o povo, recuperou e valorizou o interesse pela Bíblia, fomentou o diálogo com as outras Igrejas, com as outras religiões, com os não crentes. Reconciliou a Igreja com a liberdade religiosa, e redefiniu a liberdade de educação.

O diálogo com o mundo, com o ateísmo, com a ciência e com a cultura, iniciado antes por alguns jesuítas, encontraram agora consagração no Concílio.

O diálogo com o mundo, com o ateísmo, com a ciência e com a cultura, iniciado antes por alguns jesuítas, encontraram agora consagração no Concílio.

Os Jesuítas conheciam também nesse tempo uma abertura ao aggiornamento, conduzido pela eleição do novo Geral Pedro Arrupe, e orientado pelos documentos da Congregação Geral que o elegeu. O P. Pedro Arrupe estabeleceu como prioridade o apostolado social na Companhia de Jesus, sublinhou a importância do diálogo com o ateísmo contemporâneo e, ainda, a importância da comunicação social e dos leigos na Igreja, e da sua formação. A inculturação deveria retomar o centro da atenção e da missão dos jesuítas de todo o mundo.

Nada explica melhor essa mudança dos jesuítas do que a Carta que, a 12 de Dezembro de 1966,  Pedro Arrupe dirigiu aos superiores maiores da América Latina, reunidos em Lima, no Perú, no Congresso Latino-Americano dos Centros de Investigação e Acção Social, conhecida como a encíclica do Papa negro.

Nessa carta, que foi considerada a “Encíclica Social do Geral dos Jesuítas”, Pedro Arrupe preconizava uma autêntica viragem: os jesuítas deveriam preferir, à tradicional formação das elites sociais, o serviço dos mais pobres e marginalizados das sociedades. Preconizava uma “reforma das mentalidades e das estruturas, orientada para a correcção do escândalo das excessivas desigualdades económicas e sociais, desigualdades que, como não se reduzem à mera retribuição monetária do trabalho, não podem desaparecer com o mero aumento monetário dessa retribuição, por exemplo com uma melhoria dos salários”. Tratava-se de dar ao “social o lugar que lhe corresponde na escala de valores da Companhia”, dizia o P. Arrupe. Os jesuítas não estavam, segundo ele, eficazmente orientados para o apostolado da justiça social, por adoptarem uma estratégia de “impacto sobre as classes sociais dirigentes e na formação dos seus líderes”. Era preciso reparar o que os jesuítas tinham deixado de fazer pela justiça social e pela equidade social, essa “omissão …contra os pobres”. A ordem social vigente estava em desacordo com o evangelho. O primado devia passar a ser o problema da justiça social, pondo em causa e em reflexão o tradicional apostolado pela educação, com “dúvidas acerca da sua razão de ser ou da conveniência da sua radical transformação”. A “preferência pelos pobres”, continuava Pedro Arrupe, “terá repercussões nas nossas actuais relações com os mais poderosos”. A educação dos jesuítas confirmava os alunos nos seus preconceitos de classe, sem “abrir brecha nos ricos”, argumentava o Padre Geral. Ora os principais agentes da transformação social não seriam as “classes mais poderosas”, mas “os pobres, os operários e os camponeses, o conjunto das classes sociais que se encontram forçadamente relegadas à margem da sociedade”. A “sociedade por que aspiramos, – dizia o novo Geral dos Jesuítas – não é meramente uma sociedade em que cada indivíduo possua simplesmente mais bens e mais serviços, mas uma sociedade em que cada indivíduo consiga realizar-se cada vez mais como pessoa humana e, nesse sentido, não só tenha mais mas seja mais”.

Embora escrita para a América Latina, esta carta era todo um programa para toda a Companhia de jesus, constituindo uma profunda revolução estratégica.

A “sociedade por que aspiramos, – dizia o novo Geral dos Jesuítas – não é meramente uma sociedade em que cada indivíduo possua simplesmente mais bens e mais serviços, mas uma sociedade em que cada indivíduo consiga realizar-se cada vez mais como pessoa humana e, nesse sentido, não só tenha mais mas seja mais”.

Voltou o P. Arrupe a escrever, em 1967, uma carta aos jesuítas norte-americanos sobre o problema racial e a pobreza, e sobre os direitos dos negros, dos mexicanos, dos porto-riquenhos e dos índios, e dos trabalhadores agrícolas transitórios. Perante o racismo, contra o qual se insurgia o movimento pelos direitos cívicos de Martin Luther King, os jesuítas não poderiam permanecer neutrais. Os jesuítas, acusava Pedro Arrupe, manifestaram uma certa apatia perante a segregação racial. Haviam trabalhado pouco pelos negros e com os negros. Era preciso identificar-se com os pobres de Cristo, experimentar os problemas dos bairros pobres e da discriminação racial, abrir os colégios aos negros, empenhar-se no apostolado inter-racial. Era um apelo a um exame de consciência e a uma conversão radical.

Estes textos provocaram no mundo uma enorme surpresa, algum escândalo até, com reacções internas e externas, e iriam abrir caminho a processos de intervenção de muitos jesuítas, em todo o mundo.

Também a Carta do Rio dos Provinciais da América Latina, que nessa cidade se reuniram com o Padre Arrupe, em Maio de 1968, reforçará essa nova orientação. Partindo da constatação da situação de injustiça social que vivem os países da América Latina, os provinciais jesuítas dizem que “querem dar a este problema [social]  uma prioridade absoluta da nossa estratégia”, orientando “o conjunto do nosso apostolado… em função deste problema”, para conseguir “uma sociedade mais justa, mais livre, mais pacífica”. Para isso, “é necessário romper com certas atitudes do nosso passado, a fim de voltarmos a estabelecer contacto com a nossa tradição humanista”, rejeitando a “vontade de poder que frequentemente nos é atribuída”. O objectivo da acção dos jesuítas “deve ser a libertação do homem em relação à servidão de toda a ordem que o oprime”, sendo por isso preciso o “despojamento de qualquer atitude aristocrática ou burguesa que tivéssemos podido adoptar na nossa maneira de viver, na selecção do nossso público, nas nossas relações com os nossos colaboradores leigos, nas nossas relações com as classes privilegiadas”. Recusam as atitudes violentas e as atitudes passivas. Propõem-se “em primeiro lugar deslocar uma parte das nossas forças apostólicas para consagrá-las à massa incontável e cada vez maior dos postos à margem“, trabalhando para lhes oferecer “possibilidades de educação e a igualdade de acesso à cultura”, “partilhando na humildade a pobreza de vida do povo”. Porém isso não basta: “Queremos que todas as formas de apostolado da Companhia, sem renunciar ao seu fim específico, estejam integradas no apostolado social”. Os colégios e universidades da Companhia devem assumir-se como “agentes activos da integração e da justiça social na América Latina”. É necessária uma mudança radical, ensinando os alunos dos jesuítas a preocuparem-se com os que “vivem à margem da sociedade”. Para além disso, os jesuítas devem trabalhar não apenas para os leigos, mas com eles. E devem reconhecer a importância dos meios de comunicação social para o apostolado dos jesuítas.

Estas orientações da Carta do Rio, citada por Paulo VI no discurso inaugural da Conferência dos Episcopados da América Latina em Medellin, na Colômbia, embora traçadas para o continente americano, rapidamente se entenderam como gerais, e tornaram globais, para toda a Companhia, quando, em 1974, a Congregação Geral XXXII, a par da missão e do serviço da fé, acrescentou, como missão dos jesuítas, a Promoção da Justiça, como tarefa fundamental.

A nova Igreja saída do Concílio devia ser não uma Igreja de poder, mas uma Igreja de serviço. E os Jesuítas, de ordem formadora das elites católicas mundiais, passavam a dar prioridade ao apostolado social, junto dos pobres e deserdados do mundo. Era uma viragem histórica dos jesuítas na Igreja e no mundo.

A nova Igreja saída do Concílio devia ser não uma Igreja de poder, mas uma Igreja de serviço. E os Jesuítas, de ordem formadora das elites católicas mundiais, passavam a dar prioridade ao apostolado social, junto dos pobres e deserdados do mundo. Era uma viragem histórica dos jesuítas na Igreja e no mundo.

Esta nova orientação dos jesuítas dividiu profundamente a Companhia de Jesus, chegando mesmo a provocar dissidências fortes entre os jesuítas tradicionais e os novos jesuítas, designadamente em Espanha.

António Vaz Pinto foi, pois, encontrar a Companhia de Jesus num profundo processo de mudança. Os novos jesuítas eram agora portadores de uma nova consciência social, e de uma clara preferência pelo apostolado entre os pobres, de acordo com a orientação do Concílio e das últimas congregações Gerais.

De igual modo, os novos jesuítas deveriam enfrentar o problema do ateísmo de massas contemporâneo. Foi sobre o ateísmo que o P. Arrupe falou aos Padres Conciliares, pela primeira vez, com decisivo impacto, e foi esse o encargo que Paulo VI entregou aos jesuítas, quando recebeu os participantes na Congregação Geral XXXI. O Papa pretendia que os jesuítas mantivessem, por um lado, essa aposta na pastoral da cultura, e por outro lado, se envolvessem nos combates pela fé, em todo o mundo.

Os jesuítas tornaram-se também, nesses anos, portadores de uma nova concepção de Igreja, definida pelo Concílio Vaticano II como “povo de Deus”, fazendo emergir, não apenas a colegialidade (que o Concílio Vaticano I não tivera tempo de tratar, porque interrompido pela unificação italiana), de que era expressão a formação das Conferências Episcopais, mas também o papel do laicado católico.

António Vaz Pinto foi um exemplo dessa nova consciência social, do diálogo com o ateísmo e da importância dos leigos na Igreja.

António Vaz Pinto foi um exemplo dessa nova consciência social, do diálogo com o ateísmo e da importância dos leigos na Igreja.

Começou, desde cedo, a manifestar preocupações sociais, e a interessar-se pelos mais desfavorecidos, o que o levou não só a dirigir o Centro Social da Musgueira, que os jesuítas haviam fundado em meados da década de 60, quando ali foram instalados os deslocados das imediações dos acessos à ponte sobre o Tejo, e em que sua mãe colaborou, mas também a colaborar na criação do Banco Alimentar contra a Fome. Simultaneamente, começou a mobilizar os leigos para a evangelização, sobretudo junto de povos mais subdesenvolvidos, criando os Leigos para o Desenvolvimento, mas também na recolha e distribuição de alimentos pelas instituições católicas de solidariedade social. Mais tarde, haveria de dedicar uma atenção especial aos refugiados e aos imigrantes, não hesitando mesmo em aceitar assumir funções na administração central do Estado como Alto Comissário para as Migrações, e criando, mais tarde, no Porto, o Centro São Cirilo. Seguia, desse modo, a orientação do P. Pedro Arrupe, quando criou em 1979 o Jesuit Refugee Service (JRS) para ajudar os boat people dos mares da China.

A par disso, António Vaz Pinto preocupava-se com o diálogo com o ateísmo e com as novas formas de apostolado, mormente da pastoral da cultura e da inteligência, em que assumia importância nova a comunicação social. Sintoma dessa atenção é o facto de ter escolhido, como tema da sua licenciatura em filosofia, o neo-positivismo de Wittgenstein. Viria a publicar, em 1982, anos depois de ter frequentado a Faculdade de Filosofia, a sua Introdução ao Tratctatus Logico-Philosophicus de Ludwig Wittgenstein.

Na opinião de um douto historiador da filosofia – Herbert Schnadelbach – Wittgenstein influenciou toda a filosofia alemã da época, juntamente com Heidegger e Lukács. Jurgen Habermas dirá mesmo que, desde o fim da guerra até aos primeiros anos 60, a filosofia analítica da linguagem de Wittgenstein dominou as Universidades, juntamente com a escola de Heidegger e o marxismo ocidental. O seu livro Investigações Filosóficas foi considerado como o mais importante livro de filosofia do século XX, por atravessar diversas especializações e orientações filosóficas.

A escolha de Wittgenstein para sua tese de licenciatura em filosofia significava a preocupação de António Vaz Pinto pela descristianização do pensamento ocidental, que o levaria mais tarde à publicação dos seus livros sobre Revelação e Fé – fundamento e conteúdo da fé cristã para o homem de hoje (2vols., 1989) o Ateísmo e Fé (AO, 1996), em que pretende demonstrar que o ateísmo é contraditório em face da razão, concluindo, por isso, que a fé é racionalmente possível.

O seu livro Investigações Filosóficas foi considerado como o mais importante livro de filosofia do século XX, por atravessar diversas especializações e orientações filosóficas.

Local privilegiado dessa pastoral da cultura eram, por certo, as Universidades. Daí que António Vaz Pinto se tenha envolvido na criação de Centros de Pastoral Universitária, o primeiro dos quais em Coimbra – o CUMN (Centro Universitário Manuel da Nóbrega) – e depois o de Lisboa – CUPAV(Centro Universitário Padre António Vieira). Aí mobilizou, de novo, os jovens leigos estudantes universitários, com os quais realizou inúmeras actividades, a mais destacada das quais terá sido, porventura, o Fórum Estudante, que seria posteriormente absorvido pelas Feiras de Acesso ao Ensino Superior, frequentada todos os anos por milhares de candidatos ao ensino superior. Entre essas múltiplas actividades estavam também as visitas de estudo, entre as quais a visita que promoveu às gravuras de Foz Côa, com dezenas de universitários do CUPAV, em que tive o privilégio de o acompanhar.

António Vaz Pinto percebeu a importância dos modernos meios de comunicação social, na transmissão da mensagem evangélica e, por isso, os soube utilizar com rara mestria. Quem não recorda alguns programas em que participou, entrevistas que deu, na televisão, ou as crónicas que fazia regularmente na Rádio Renascença, de que foi assistente eclesiástico. Era tido como “padre mediático”, pelas suas muitas aparições nos “media”, e pela forma como levava, aos écrans ou aos microfones, temáticas habitualmente distantes ou estranhas. Não hesitava em aceitar convites para grandes programas, de grande audiência e impacto, para falar de fé e de Jesus Cristo onde habitualmente não constavam. Ou até mesmo de si, da sua vocação, do seu percurso de homem de Deus.

Viria a assumir a direcção da revista Brotéria, função que desempenhou durante anos, reunindo à sua volta um vasto grupo de leigos, com várias especialidades culturais.

António Vaz Pinto foi, pois, um jesuíta alinhado com as novas orientações da Companhia de Jesus, não deixando, porém, de as conciliar com a tradição histórica dos Jesuítas.

No entanto, António Vaz Pinto nasceu numa família antiga, de tradições e pergaminhos históricos, de que se orgulhava, sem, porém, disso se vangloriar. Recebera uma educação tradicional, e fora moldado por valores antigos, quer espirituais quer sociais. Dedicou à genealogia da família e à história da Casa do Burgo a sua atenção. Votou a Arouca uma simpatia e uma preocupação especiais. Reconstruiu a capela, e deixou escrito um pequeno livro sobre a casa e a família. Sabia quem eram os seus antepassados. Referia-se, entre eles, com admiração, a seu tio, o grande Bispo-Conde de Coimbra D. Manuel Bastos Pina, confessor da rainha D. Amélia, que enfrentou destemidamente o poder republicano, sendo por isso exilado da sua diocese.

Por outro lado, António Vaz Pinto tinha orgulho de pertencer à Companhia de Jesus. Gostava de dar a conhecer a sua história, não apenas através de conferências e livros, mas também de visitas e de peregrinações aos locais icónicos, como por exemplo Loyola e Javier, ou as reduções do Paraguai, aos quais organizava deslocações.

Era sua preocupação ancorar o presente e o futuro na tradição histórica.

Sem nunca se ter dedicado ao ensino (apesar de ter recebido um convite nesse sentido), que fora uma das mais tradicionais actividades da Companhia através da história, António Vaz Pinto não descurou a pastoral das elites, na boa tradição jesuíta. Dedicou-se a catequisar as elites sociais de Lisboa, reunindo na Igreja de S. Roque, primeiro, e mais tarde na de S. Vicente de Paula, todos os domingos, um enorme número de pessoas, para quem sabia falar e atrair para a compreensão do evangelho.

António Vaz Pinto assumiu também na sua vida, como fundamental, o encargo inaciano da orientação espiritual, através dos Exercícios Espirituais, que dava intensamente todos os anos.

António Vaz Pinto assumiu também na sua vida, como fundamental, o encargo inaciano da orientação espiritual, através dos Exercícios Espirituais, que dava intensamente todos os anos. Deu conta dessa sua actividade, com a publicação do Manual do Peregrino. Caminhando com os Exercícios de Inácio de Loyola ((2003), e com a saída do Credo. Síntese da Fé Cristã (2012). Criou os famosos CIFs – Cursos de Iniciação à Fé – através dos quais aproximou de Deus um incontável número de pessoas, muitas das quais sem formação religiosa anterior, vindo a publicar Iniciação à Fé Cristã, para crentes, descrentes e duvidosos, (2018), que tive o prazer de prefaciar, a seu convite.

Era um jesuíta tradicional, por origens familiares e educativas, mas que soube traduzir a espiritualidade inaciana em linguagem moderna, teórica e prática, obedecendo às orientações traçadas pelos Superiores da Companhia. Foi um jesuíta do seu tempo, aberto aos desafios do futuro, tal como este se lhe apresentou, que soube sempre demonstrar uma enorme fidelidade às raízes, ao espírito fundador, e à história da Companhia, que corporizou nas várias iniciativas inovadoras que tomou.

O seu testemunho de articulação entre a tradição e o presente, de projectar o futuro tendo como pano de fundo o passado histórico e a herança de gerações, revela-nos, afinal, a modernidade da tradição e o rasto tradicional da modernidade.

Obrigado P. António, pelo seu exemplo, que recordaremos sempre com amizade e veneração.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.