A Cruz de D. Sancho I – Entre a religião, a política e a arte

Desta vez a Brotéria sugere-nos olhar uma única peça: a cruz de D. Sancho I, exibida no Museu Nacional de Arte Antiga. Esta peça une diferentes dimensões: históricas, simbólicas, políticas, religiosas, identitárias, materiais e artísticas.

Desta vez a Brotéria sugere-nos olhar uma única peça: a cruz de D. Sancho I, exibida no Museu Nacional de Arte Antiga. Esta peça une diferentes dimensões: históricas, simbólicas, políticas, religiosas, identitárias, materiais e artísticas.

A comummente designada cruz de D. Sancho I, atualmente conservada na coleção de ourivesaria do Museu Nacional de Arte Antiga, configura-se como um caso paradigmático onde se unem, num mesmo e único objeto, todo um complexo conjunto de dimensões históricas, simbólicas, políticas, religiosas, identitárias, materiais e artísticas às quais se associa, também, um relativamente bem documentado e, por vezes, caricato percurso desde a sua conceção até aos dias de hoje.

Recuando à sua origem histórica e ao local onde desempenhou a sua original função cultual e devocional, esta cruz simultaneamente processional e relicário é proveniente do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, um dos mais importantes complexos monásticos – se não o mais – durante os reinados dos primeiros monarcas portugueses. De facto, a sua fundação remonta a 1131 e a ela se encontra umbilicalmente ligada a figura de D. Afonso Henriques e, posteriormente, também do seu filho, D. Sancho I, que cumularam este cenóbio com importantes doações e privilégios e nele fizeram inclusivamente sepultar os seus corpos. Para além de panteão régio, Santa Cruz de Coimbra foi igualmente um importantíssimo tesouro de relíquias sacras – na lógica do thesaurus medieval –, nele se conservando, por exemplo, uma relíquia da vera cruz que neste espaço foi depositada pelo primeiro rei de Portugal. A invocação deste mosteiro – Santa Cruz – careceria, seguramente, de uma relíquia desta natureza e relevância. Associando-se à oferta votiva do pai, D. Sancho I legaria a esta casa monástica, no seu testamento datado de 1210, e para além de outros bens, a sua “copa de ouro, peraque fação della hua cruz”. Morto o rei em 1211, em 1214 encontrava-se já realizada uma cruz em ouro concebida a partir do metal da copa ou cálice pessoal do monarca e que, para além das funções litúrgicas associadas a uma cruz processional, serviria igualmente para custodiar uma outra relíquia do Santo Lenho que D. Sancho herdara do seu pai. Considerando tratar-se de um legado de significativa importância, não é de estranhar que, no reverso da cruz, uma inscrição mencione o nome do régio doador e a data de execução da alfaia.

Esta cruz, de importância simultaneamente sacra e política (porque naturalmente ligada a um processo de afirmação política e identitária do próprio reino nascente), será seguramente um dos tesouros mais importantes guardados pelos crúzios de Coimbra, tendo-a conservado na cripta da capela-mor da igreja monástica juntamente com outras relíquias associadas ao Calvário – pedras do Santo Sepulcro e relíquias da Virgem Maria e de São João Evangelista –, formando um “verdadeiro programa reconstitutivo do Calvário” (Franco, 1995).

Esta cruz, de importância simultaneamente sacra e política (porque naturalmente ligada a um processo de afirmação política e identitária do próprio reino nascente), será seguramente um dos tesouros mais importantes guardados pelos crúzios de Coimbra,

Associado a este historial e ao enquadramento simbólico e político, as componentes técnicas, materiais e artísticas igualmente contribuem para tornar esta cruz verdadeiramente impar. Por um lado, o facto de ter sido concebida em ouro singulariza-a no contexto da produção artística coeva e posterior – e nomeadamente dos espécimes que chegaram aos nossos dias –, onde então se utilizava maioritariamente a prata dourada ou, na tradição do centro produtivo francês de Limoges e da sua influência nas oficinas peninsulares, o cobre dourado. Naturalmente que o material utilizado se associa à oferta testamentária do monarca mas, ainda assim, é um aspeto a ter em consideração. Por outro, a sua morfologia em cruz latina, bastante alteada e com as quatro terminações dos braços e haste da cruz desenhando flores-de-lis antecipam uma tendência estilística que apenas se tornará frequente a partir do final do século XIII e que perdurará durante todo o século seguinte, algo certamente possível apenas no contexto de uma oficina de ourives de referência. De facto, nesta época, as situações mais comuns na produção desta tipologia de alfaia era a execução de extremidades patadas, muitas vezes rematadas com pequenas esferas, e um comprimento mais ou menos similar da haste e dos braços da cruz (formando, aproximadamente, uma cruz grega) (Franco, 1995). A qualidade de execução dos elementos ornamentais e decorativos corrobora igualmente a ideia do objeto ter sido produzido numa oficina bastante qualificada, como demonstram as elegantes faixas com decoração vegetalista que se desenvolvem centralmente ao longo dos braços e haste da cruz (mais complexas no anverso que no reverso); ou os delicados elementos em filigrana que adornam as terminações do anverso da cruz, que enquadram, num esquema cruciforme, o local central onde estaria incorporada a relíquia ou que circunscrevem e emolduram algumas das gemas coloridas que pontuam pela alfaia. Estas gemas coloridas – as granadas vermelho-escuro e as safiras azuis –, sabiamente distribuídas pela cruz em articulação com pequenas pérolas (ou aljôfares), num esquema mais ou menos definido de formas e cores, complementam esta ideia de singularidade. Estes materiais gemológicos constituíam-se, à época, como elementos raros e preciosos e cuja possibilidade de acesso era significativamente difícil e dispendiosa. A análise das gemas demonstra que foram, pelo menos em parte, reaproveitadas doutros contextos e objetos, como era prática habitual, sendo curioso notar que algumas delas – que têm sido associadas a aproveitamentos a partir de objetos dos períodos romano ou islâmico – apresentam inscritos símbolos ou carateres de difícil interpretação ou, inclusive, a figuração estilizada de animais.

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Cruz processional (dita Cruz de D. Sancho I) Século XIII (datada de 1214) Ouro, safiras, granadas, pérolas A 65 x L 34,5 cm MNAA, inv. 540 Our Fotografia © DGPC/ADF, José Pessoa

No que concerne ao programa iconográfico, este é, diríamos, relativamente simplificado. Para além da centralidade conferida ao local onde se integraria a relíquia (na parte frontal da cruz, precisamente na interceção dos seus braços com a haste), o reverso apresenta, também na secção central, a figuração gravada do Agnus Dei e, em seu redor, inscritos nas quatro terminações flordelizadas da cruz, os quatro seres viventes apocalípticos que configuram o designado tetramorfo – águia, leão, touro e anjo –, símbolos dos Evangelistas. O Livro do Apocalipse foi uma das grandes fontes originadoras da iconografia das cruzes processionais desta época – na associação frequente do Cordeiro Místico e do tetramorfo –, acrescentando-se, em épocas posteriores, outras fontes bíblicas e outros personagens, nomeadamente as figuras de Adão e Eva, da Virgem Maria e São João Evangelista e, por vezes, do Bom e do Mau Ladrão (Caetano, 2003).

Em última instância, podemos concluir que a importância material, técnica e estílica desta cruz processional e relicário – que a tornam numa obra-prima da ourivesaria europeia da transição do românico para o gótico – resultam seguramente do régio legado que lhe deu origem e, também, da importante função que lhe foi atribuída de custodiar uma venerada relíquia que se associava aos dois primeiros monarcas portugueses – acrescentando-lhe redobrado valor e significado. Considerando esta múltipla carga valorativa associada a este objeto, será de estranhar o decréscimo de importância que em determinados momentos históricos se verificará em relação a esta alfaia. Um dos cumes desta situação observar-se-á durante o século XV quando um prior do mosteiro de Santa Cruz, de nome D. Afonso Martins, irá empenhar do tesouro monástico algumas alfaias e imagens executadas em metais preciosos – incluindo a cruz de D. Sancho I – com o objetivo de financiar os estudos de doutoramento do seu filho, Fernando Afonso, em Bolonha. Posteriormente os objetos empenhados acabariam por ser recuperados e devolvidos ao tesouro do cenóbio. Não obstante, a régia cruz, célebre em tempos passados pelo seu caráter taumatúrgico na regeneração dos ares pestilentos da urbe conimbricense – como nos relata, em 1668, o cronista da ordem Frei Nicolau de Santa Maria –, retornaria ao cenóbio profanada e desfalcada da preciosa relíquia que, em certa medida, esteve ligada à origem da conceção da própria alfaia e sobre a qual residia a essência da sua dimensão religiosa, devocional e transcendente.

A régia cruz, célebre em tempos passados pelo seu caráter taumatúrgico na regeneração dos ares pestilentos da urbe conimbricense retornaria ao cenóbio profanada e desfalcada da preciosa relíquia que, em certa medida, esteve ligada à origem da conceção da própria alfaia e sobre a qual residia a essência da sua dimensão religiosa, devocional e transcendente.

Uma nova dimensão e uso atribuídos a esta cruz decorrerão da extinção das ordens religiosas, decretada em 1834, do consequente encerramento do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra (e demais cenóbios masculinos) e da transferência desta e de outras alfaias e objetos executados em metais preciosos para a Casa da Moeda. A cruz de D. Sancho I e outras emblemáticas peças que então se conservavam na Casa da Moeda (incluindo, por exemplo, a Custódia de Belém) acabariam por dar entradas nas coleções reais portuguesas em 1845, por intervenção de D. Fernando II e no contexto de uma “indemnização” devida à Casa Real considerando as pratas da Coroa fundidas no contexto da guerra civil, culminada com a vitória liberal de 1834 (Xavier, 2011). A condição museológica e expositiva deste objeto – agora já distante da sua primeira condição sacra – será fortemente promovida nas décadas que seguirão, tendo integrado, a título de exemplo, o Museu de Antiguidades ou Gabinete Numismático que o rei D. Luís I fez organizar, na década de 1860, no Palácio da Ajuda; tendo figurado na Exposição Universal de Paris de 1867; ou na Exposição Retrospetiva de Arte Ornamental Portuguesa e Espanhola, realizada em 1882 no Palácio Alvor-Pombal, às Janelas Verdes. E foi precisamente para este Palácio lisboeta, sede fundacional do Museu Nacional de Belas-Artes e Arqueologia (oficialmente aberto em 1884) e do seu herdeiro Museu Nacional de Arte Antiga (assim redefinido e redesignado em 1911), que a cruz de D. Sancho I fora definitivamente transferida em 1916, proveniente da Casa Forte do Palácio das Necessidades. Classificada como tesouro nacional, é, seguramente, um dos objetos mais relevantes de toda a coleção do Museu Nacional de Arte Antiga, considerando a multitude de valores que lhe estão subjacentes.

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Reverso da cruz processional (dita Cruz de D. Sancho I) Século XIII (datada de 1214) Ouro, safiras, granadas, pérolas A 65 x L 34,5 cm MNAA, inv. 540 Our Fotografia © DGPC/ADF, José Pessoa

Será ainda curioso notar num circunstancial episódio vivido por este objeto, então já musealizado. No contexto da abertura do ciclo das Comemorações dos Centenários da Fundação e da Restauração da Independência, em 1940, a cruz de D. Sancho I (a par da designada espada de D. Afonso Henriques e da bandeira da Fundação) seria cedida para este ato inaugural e tomaria particular destaque ao ladear o cardeal-patriarca D. Manuel Gonçalves Cerejeira no terraço da galilé da Catedral de Lisboa. Terá sido a última ocasião em que a histórica dimensão simultaneamente pátria e religiosa desta antiga alfaia litúrgica foi simbolicamente retomada, ainda que naturalmente inscrita num contexto ideológico e propagandístico muito concreto e bem demarcado.


MUSEU NACIONAL DE ARTE ANTIGA

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Normal: Exposição: € 6,00 | Exposição + Museu: € 10,00
Criança (até aos 12 anos inclusive): Exposição: Gratuito | Exposição + Museu: Gratuito
Jovem (13 a 18 anos): Exposição: € 3,00 | Exposição + Museu: € 9,00
Sénior (+ de 65 anos): Exposição: € 3,00 | Exposição + Museu: € 6,00

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