“Tolkien”: Uma Viagem Incompleta

Tolkien teria muitas dificuldades em falar de "O Senhor dos Anéis" ou "O Hobbit" como uma alegoria cristã. Trata-se simplesmente de uma história, de uma boa história, que sabe a Casa.

Foi a 3 de Janeiro de 1892 que John Ronald Reuel Tolkien — “Tollers” para os amigos — viu o primeiro raiar do Sol, embora tenha sido apenas em 1937 que pudemos ver o nascer-do-Sol na Terra Média, com a publicação de O Hobbit. Com alguma pena da minha parte, porém, não é a literatura, mas o cinema, que aqui nos traz.

Tolkien é um filme de Dome Karukoski, estreado em Portugal em 2019. Com Nicholas Hoult (e Harry Gilby para os anos mais tenros) no papel principal, acompanhamos os primeiros anos da vida de John Ronald Reuel Tolkien, começando pela sua feliz infância em Bloemfontein, África do Sul, passando pela difícil ida para Birmingham e a morte de Mabel, sua mãe. O pai, Arthur Reuel Tolkien, já havia morrido, pelo que o pequeno Ronald e seu irmão Hilary acabaram órfãos. O enredo do filme (spoiler alert!), com mais ou menos rigor — é certo que se trata de um filme e não de um documentário —, foca-se sobretudo nos anos de universidade em Oxford do futuro Professor Tolkien, no seu grupo de amigos e primeiros parceiros intelectuais, na descoberta da paixão pela Filologia e no seu amor por Edith Bratt. Tudo isto nos é narrado a par com a participação do protagonista na Primeira Guerra Mundial, onde, por entre trincheiras e fogo cruzado, Ronald procura Geoffrey Bache, seu grande amigo e colega em Oxford. Este perdera a vida na Grande Guerra e Tolkien, atacado pela “febre das trincheiras”, regressou a Inglaterra e aos estudos, casou com Edith e iniciou a sua carreira académica.

O filme escrito por David Gleeson e Stephen Beresford é, creio, uma boa introdução aos primeiros anos do professor e escritor, embora, para desespero dos fãs de O Hobbit e O Senhor dos Anéis, não chegue aos anos mais maduros da sua vida, nem se ouça falar ou possa imaginar o que seriam os Inklings, ou a amizade entre Tolkien e C. S. Lewis. Também não é explorada, para tristeza dos adeptos de Literatura Fantástica, a visão de Tolkien quanto ao valor do mito; ainda assim, fica bem patente no filme a ligação, para ele inquebrável, entre a criação de uma Língua e a mitologia e história de um povo; o filme parece sugerir, aliás, que esse foi um dos grandes pretextos para a escrita da história de Arda.

Se tal é verdade, ainda assim o filme peca por parecer sugerir a Primeira Guerra Mundial como a maior influência nos escritos de Tolkien, algo que o próprio desmente veemente no Prefácio de O Senhor dos Anéis: A Irmandade do Anel. Não só aparece como uma falha esse pretensão de influência, como o filme de Karukoski explora tristemente o catolicismo de Tolkien, limitando-se a algumas conversas soltas com o Padre Francis, quando é bem-sabida a influência da fé católica na história do Anel. Uma influência relevante seria ainda a de G. K. Chesterton, cuja ausência se justifica pelo período da vida de Tolkien que o filme retrata.

Também não é explorada, para tristeza dos adeptos de Literatura Fantástica, a visão de Tolkien quanto ao valor do mito; ainda assim, fica bem patente no filme a ligação, para ele inquebrável, entre a criação de uma Língua e a mitologia e história de um povo.

Dito isto, é verdade que Tolkien, tal como o seu grande amigo C. S. Lewis a respeito de As Crónicas de Nárnia, teria muitas dificuldades em falar de O Senhor dos Anéis ou O Hobbit como uma alegoria cristã. Trata-se simplesmente de uma história, de uma boa história, que cheira e sabe a Casa. Essa essência captou o filme muito bem e soube-a transmitir deliciosamente no final: J. R. R. Tolkien, durante um belo passeio pelo bosque, convoca os seus filhos para lhes contar uma nova história.

«— Sobre o que é?

— É sobre viagens, aventuras… magia, claro. Tesouros.. e amor. É sobre todo o tipo de coisas, na verdade. É difícil dizer. Suponho… suponho que seja sobre demandas, até certo ponto, as viagens que fazemos para nos pormos à prova. Sobre coragem, camaradagem… É sobre camaradagem. Amizade. Pessoas pequenas como tu.

— Eu não sou pequeno!

— Não. “Pequeno” em estatura, não pequeno em espírito. É sobre feiticeiros, também.

— Feiticeiros?

— Feiticeiros, sim! E montanhas e dragões e viagens… “Num buraco na terra, vivia um Hobbit”».

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.