Presépio de Belém: modelo de multiculturalidade fraterna

Se não formos capazes de olhar para estes irmãos com olhar fraterno e capacidade de compreender que ter Fé em Cristo é aceitar a Sua humanidade, de que modo teremos capacidade de O envolver em panos, de Lhe oferecer o nosso olhar amoroso?

«Chegou o tempo de nascer o bebé, e ela deu à luz o seu primogénito. Envolveu-o em panos e colocou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria». Assim narra Lucas (Lucas 2, 1-20) o nascimento de Jesus. Este Menino, que temos como Rei dos Judeus, Sumo Sacerdote, Salvador, Redentor, Príncipe da Paz, Rei dos reis, Deus Forte e Todo-Poderoso, nasceu num lugar humilde, um lugar onde, por certo, nenhuma mulher das mais importantes famílias judaicas daria à luz. José deverá ter procurado, insistido junto das caravançarai, as estalagens onde os viajantes se abrigavam, ao longo da sua jornada, mas nenhuma os recebeu, por estarem cheias, ou por, se calhar, olharem com desconfiança para aquele casal humilde, estrangeiro, para a mulher que sofria já das dores do parto. Que confusão seria organizar tal momento! Rejeitado ainda antes de nascer, por outros iguais à sua família.

No campo, numa gruta, onde podiam abrigar-se do frio da noite, nasce Joshua ben Josef. Nasce sem nada, mas é envolto em panos e no amor dos seus pais, que o aquecem e lhe asseguram que será assim toda a vida. Não sabe, mas tal nascimento será já prenúncio da morte, na qual estará novamente envolto em panos, sob o olhar amoroso da mãe, que nunca o abandonará…

Joshua ben Josef não era ninguém. Os seus pais eram gente trabalhadora que se esforçava para assegurar o pão de cada dia. E, de repente, vêem-se rodeados de uma multidão de pastores, que avisados por anjos, quiseram contemplar aquela criança que trazia uma promessa de vida nova. Os pastores, os mais humildes dos humildes, não faltaram à chamada e o pouco que tinham partilharam com aquela família, atravessando a noite, junto ao calor da fogueira e comendo, por certo, em conjunto, o que traziam para si mesmos. Novamente vemos Jesus na cruz, rodeado de ladrões, recebendo palavras de conforto de um deles…

No campo, numa gruta, onde podiam abrigar-se do frio da noite, nasce Joshua ben Josef. Nasce sem nada, mas é envolto em panos e no amor dos seus pais, que o aquecem e lhe asseguram que será assim toda a vida.

Joshua ben Josef era somente um bebé, sem nada que o distinguisse dos demais, mas uns Magos, vindos do oriente, seguindo uma misteriosa estrela, buscam o significado daquele sinal. Perguntam aos importantes, a Herodes: «Onde está aquele que é nascido rei dos judeus?» (Mateus 2, 9-11). «- Rei? Não sou eu o Rei?» -, pensou Herodes desconfiado. Põe os seus espiões em serviço, seguindo estes homens importantes, que continuam a seguir a estrela, até que ela «se deteve sobre o lugar onde estava o menino». Adoraram-no, presentearam-no com ouro, incenso e mirra e partiram, prevendo a desgraça que se seguiria. De novo, avançando no tempo, vemos Jesus, morto por vontade expressa da elite judaica e envolto em panos perfumados, que suavizam o odor da morte…

Joshua ben Josef foi, pouco depois, imigrante e viveu entre estranhos, tentando, com a família, integrar-se na comunidade onde esteve. Deve ter passado pelas dificuldades próprias de quem tem uma religião, uma cultura, uma maneira de vestir, gestos e língua diferentes.

Vejamos bem: rejeitado pelos comuns cidadãos, pobre, humilde, imigrante, perseguido pelos poderosos. E, todavia, juntou, no momento do seu nascimento, um conjunto de comuns cidadãos, pobres, humildes, sábios, perseguidos pelos poderosos, que o reconheceram como Messias.

Neste espaço, que hoje chamamos presépio, encontramos um modelo de sociedade baseado na multiculturalidade fraterna. Aquela que busca integrar, que reconhece em cada homem ou mulher um ser criado à semelhança e imagem de Deus. Vemos, se o nosso olhar for limpo de preconceitos políticos, raciais/xenófobos, sexuais, religiosos, culturais, como é possível sermos verdadeiramente irmãos, irmãos em Cristo e na Fé que nos leva a crer que Ele é, para além de tudo o que mencionei anteriormente, Caminho, Verdade e Vida. Porque aquele Menino, Joshua ben Josef, poderia ser qualquer um de nós. Poderia ser Alan Kurdi, que aos dois anos, perdeu a vida (2015), ao atravessar o mar Egeu, da Turquia para a Grécia, num barco carregado de refugiados. Poderia ser um dos que morreu na queda de uma estrutura em Melilla (enclave espanhol no norte da África). Poderia ser um dos que comem, todos os dias, pela mão de organizações como a “Comunidade Vida e Paz”. Poderia ser um daqueles trabalhadores que são explorados no Alentejo. Poderia ser um fugitivo de uma qualquer guerra, sempre injusta e dramática e triste…. Poderia ser eu, tu, nós.

E, sabem, se não formos capazes de olhar para estes irmãos com esse olhar fraterno e essa capacidade de compreender que ter Fé em Cristo é aceitar a Sua humanidade, vê-Lo como Joshua ben Josef, de que modo teremos capacidade de O envolver em panos, de Lhe oferecer o nosso olhar amoroso, que nunca O abandonará? De que forma, sendo nós seres imperfeitos, Lhe ofereceremos palavras de conforto? De que maneira O perfumaremos, quando Ele precisar que a morte não seja o odor do quotidiano?… Porque se não fizermos aos mais pequenos de entre nós, não o fazemos a Ele (Mateus 25, 35-45).

A todos, Santas Festas!

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.