A Paixão segundo São João

Este artigo quer ser, simplesmente, um convite.

Hoje, Sexta-feira Santa, os cristãos reúnem-se à volta da cruz para celebrar a Paixão e Morte de Jesus. Nas igrejas cristãs, a liturgia convida-nos a escutar, na íntegra, os capítulos 18-19 do evangelho segundo São João, onde se relatam as últimas horas do Senhor Jesus, a sua prisão, crucifixão, morte e deposição no sepulcro.

Este texto denso de significado, uma verdadeira obra-prima, inspirou artistas, crentes e não-crentes, ao longo de quase vinte séculos. Entre eles, Johann Sebastian Bach, possivelmente o mais conhecido compositor alemão. A sua Paixão segundo São João (BWV 245), cuja primeira versão data de 1724, é presença frequente nas salas de concerto e nas igrejas de todo o mundo, sobretudo por altura da Páscoa. Composta inicialmente para a celebração das vésperas (oração da tarde) de Sexta-feira Santa, a peça oferece, pela sua beleza estética (e não apesar dela!), um profundíssimo comentário ao texto do evangelho.

Presta-se, por isso, a ser escutada hoje, não apenas porque é feriado e não é má ideia um pouco de cultura, mas porque constitui uma ótima forma de penetrar no mistério da Paixão. O convite é, por isso, a escutar a música como quem faz um exercício espiritual.

O que apresento em seguida são apenas subsídios para ajudar nessa audição. Porque, por falta de sensibilidade, poderíamos perder o essencial deste verdadeiro “sermão musical”.

 

1. A paixão gloriosa do Cristo (1. Chorus: Herr, unser Herrscher)

Talvez o aspeto mais saliente do texto da Paixão segundo São João seja a forma como tudo, da prisão à morte, é apresentado como uma manifestação da glória de Deus que se revela em Jesus. No mais tardio dos evangelhos, o escondimento da divindade, nas palavras de Inácio de Loiola, é menos acentuado e Jesus aparece como o Senhor da História, como o Filho a quem o Pai vai glorificar sem demora (Jo 17, 5); e não apesar da cruz, mas na cruz mesmo, que, no evangelho é o trono sobre o qual Jesus, uma vez levantado do chão, reina em Deus e Senhor sobre todos os homens e mulheres (Jo 8, 28; 12, 32-33).

Bach captou isto de uma forma sublime e programática na peça que abre a sua Paixão. O texto cantado pelo coro, inspirado no Salmo 8, mas de origem desconhecida, é um hino à glória de Deus Pai e do Filho. Uma glória que não existe só apenas a seguir à Paixão, como se esta fosse uma espécie de interregno, na qual Deus tivesse abandonado Jesus à sua sorte. Não, uma glória que se manifesta precisamente ali onde reina a treva e a solidão, onde a violência parece estar a ter a última e decisiva palavra.

Ora, a música deste magnífico coral exprime este paradoxo com mestria. As cordas (violinos, etc.) tocam um motivo musical circular e harmónico que é retomado pelo coro quando aclama “Soberano” (“Herrscher”), depois de exclamar, por três vezes, “Senhor” (“Herr”). Este motivo vibrante, “glorioso”, contrasta com as suspensões dissonantes dos instrumentos de sopro, oboés e flautas, que pintam um quadro mais carregado. Glória e sofrimento, luz e trevas, harmonia e caos são aqui entrelaçados, naquilo que é simultaneamente uma luta e um mistério, um hino e uma pergunta.

 

2. Não há ressurreição sem morte, nem morte sem ressurreição (30. Arie: Es ist vollbracht)

Uma das maiores tentações da vivência cristã do Mistério Pascal é o de separar Quinta e Sexta-feira Santas do Domingo da Ressurreição. Na liturgia, são uma única celebração que começa na Missa da Ceia do Senhor e só termina no Domingo de Páscoa. As “cores” destas celebrações são, contudo, tão distintas, que é perfeitamente humano querer sair deste “carrossel emocional” ou escolher apenas uma parte: ou a tristeza de morte de Sexta-feira Santa ou a alegria sem igual da manhã da Ressurreição. No plano de Deus, tal como ele se encontra plasmado no relato do evangelho de São João, contudo, a “hora” do Filho incluiu a totalidade deste mistério de morte e de vida: a vitória divina emerge do interior da violência humana. Nunca foi apenas um cenário possível entre muitos.

A obra de Bach exprime isto, novamente, de maneira majestosa. Na ária para contralto e viola de gamba, mesmo antes do recitativo que descreve a morte de Jesus na cruz, o motivo musical descendente, o ritmo molto adagio, e a letra dão origem a um dos momentos (senão o momento) mais tristes da obra. Tudo se prepara para o que parece ser o triunfo final da morte. De repente, porém, numa espécie de last minute spoiler, este pungente movimento musical é interrompido por uma exclamação de vitória (“O herói de Judá vence com poder, e termina a batalha!”) pela voz do contralto, acompanhado pelos violinos, que tocam uma “ressuscitada” melodia em Dó maior, abafando o som da viola de gamba. Ali, no coração da Paixão, emerge o motivo da Vida com uma força inesperada, recordando que, no plano de Deus, a morte e o desespero nunca são finais, absolutos.

 

3. Por mim, sim, por mim!  

Nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio, o convite a contemplar na oração a Paixão de Jesus é acompanhado do insistente pedido da graça de crescer na identificação com Cristo, “que por meus pecados vai à Paixão” (EE 193). Não somos chamados a ser, simplesmente, espectadores atentos dos acontecimentos da vida, da Paixão e da morte de Jesus. É “por mim”, por cada um de nós que o Senhor entrega a vida. Graças a Ele, tudo aquilo que em nós é violência, treva, morte recebe cura, perdão, vida. O Mistério Pascal diz respeito a cada um de nós aqui e agora. Não é uma memória piedosa do que outros fizeram, uns tais de “judeus”.

Esta noção de que a memória da Paixão é uma “revisitação” do seu valor de salvação para cada homem e mulher, em cada época da História, não escapou a Bach. No primeiro recitativo logo após o coral inicial, Jesus responde àqueles que o vieram procurar no Jardim das Oliveiras que é Ele Jesus de Nazaré. A sua resposta, de acordo com o evangelho de João, é “Eu sou”, um eco ao texto de Êxodo 3, quando Deus revelou a sua verdadeira identidade a Moisés. O “Ich bin’s” (“Eu sou”) de Jesus, cantado pelo baixo, reflete confiança e assertividade. Ele sabe quem é e a que vem. Passado alguns minutos, quando a ação já se deslocou para a casa do sumo-sacerdote, é a vez de Pedro responder à questão. Interrogado sobre se é discípulo de Jesus, responde “Não sou” (“Ich bin’s nicht”). E a melodia corresponde à mentira: sibilina, “saltitante”, acompanhada de um acorde dissonante da orquestra. Pedro, por medo, prefere não ser, não estar, permanecer espectador. No belíssimo coral que se segue, que funciona como uma espécie de glosa à cena em que Jesus é esbofeteado pelo guarda do sumo-sacerdote, o coro, que na Paixão representa a comunidade dos crentes, não hesita em reconhecer que é ele, que é cada um de nós que é, ali, pelos seus pecados, o braço da violência. O coro repete “Eu, eu, e os meus pecados” (“Ich, ich und meine Sünde”) em resposta à pergunta “Quem te feriu assim?”. A melodia que acompanha as palavras sublinha, ao mesmo tempo, a coragem e a humildade da resposta. Somos nós, cada um, aqueles por quem Jesus foi à Paixão, presentes ali e aqui, necessitados da Sua misericórdia, criaturas sedentas dum Amor que tudo cura, tudo perdoa, tudo restitui.

Boa audição! E, já agora, uma Santa Páscoa!

2a. Recitativo: Jesus ging mit seinen Jüngern

10. Recitativo: Derselbige Junger war dem Hohenpriester bekannt

11. Coral: Wer hat dich so geschlagen

Foto de capa: João Ferrand/Companhia de Jesus

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.