A Igreja e a ciência na Idade Média

Farei aqui uma brevíssima história do pensamento científico, centrada em três momentos: a Antiguidade, o período da Revolução Científica e um terceiro, surpreendente, que deixarei para o fim: a Idade Média.

O que é a ciência? A palavra vem do latim scientia, que originalmente significa qualquer conhecimento sistematizado, incluindo saberes práticos. Mas é útil distinguir entre a ciência moderna, que surgiu na Europa nos séculos XVI e XVII no quadro da chamada Revolução Científica, tendo como expoentes nomes como Copérnico, Galileu e Newton, e a ciência anterior a esta. Farei aqui uma brevíssima história do pensamento científico, centrada em três momentos: a Antiguidade, o período da Revolução Científica e um terceiro, surpreendente, que deixarei para o fim: a Idade Média.

A ciência moderna é caracterizada pela ideia de progressos constantes no conhecimento, que se obtêm pela recolha de factos, pela observação, pela experimentação, pelo uso de instrumentos como o telescópio e o microscópio (o Homem deixou de ser a medida de todas as coisas) e pela matematização (para Galileu o Universo, a que chamou «Livro da Natureza» estava escrito em linguagem matemática). A Revolução Científica é a descoberta da descoberta, nas palavras do historiador contemporâneo David Wootton no seu livro A Invenção da Ciência (Temas e Debates, 2017). A forma de pensar decorrente da ciência moderna – o pensamento moderno – está hoje bem patente na nossa sociedade. Em geral, aqueles que contestam o conhecimento científico estabelecido fazem-no supondo que existem factos e que é possível obter conhecimento novo com base neles. Isso é pensamento moderno.

Em geral, aqueles que contestam o conhecimento científico estabelecido fazem-no supondo que existem factos e que é possível obter conhecimento novo com base neles. Isso é pensamento moderno.

Mas a ciência moderna não surgiu no século XVI a partir do nada. As pré-condições proximais para a ocorrência da Revolução Científica, ainda de acordo com Wootton, foram três. A primeira, a descoberta da América em 1492, que impôs de modo generalizado a ideia da possibilidade de conhecimento novo: se havia terras que ninguém conhecia, também poderia haver muitas coisas que ninguém sabia. A segunda foi o desenho em perspectiva, vindo da pintura. Por um lado, porque inclui um ponto de fuga, para onde convergem as linhas paralelas, impondo a noção desconfortável de infinito e o pensamento abstracto; por outro, pela representação rigorosa de objectos tridimensionais, o que permitiu o desenvolvimento da anatomia e de outras áreas do saber. A terceira e muito importante pré-condição é a invenção da prensa tipográfica, com a impressão de milhões e milhões de livros, abrindo assim a possibilidade de uma «conversa» entre sábios afastados uns dos outros, um diálogo que, no mundo dos manuscritos, era muito mais restrito. A interacção, tanto cooperativa como competitiva, entre cientistas é intrínseca ao processo científico. A ciência é inextrincável da sua comunicação, que num primeiro momento é entre pares e que num segundo é com a sociedade.

Falámos da ciência moderna. Mas a ciência em si não surgiu com a descoberta da América, o desenho em perspectiva e a prensa tipográfica. Muitos autores colocam o surgimento da ciência na cidade grega de Mileto (hoje costa ocidental da Turquia) há 26 séculos, tendo como protagonistas Tales e o seu discípulo, Anaximandro. O físico contemporâneo Carlo Rovelli defende, no seu livro Anaximandro de Mileto ou o Nascimento do Pensamento Científico (Edições 70, 2020), que o crédito deve ser dado mais ao discípulo do que ao mestre. Mileto era, no século VI a.C, uma próspera cidade portuária, graças às amplas trocas comerciais e culturais com outros povos do Mediterrâneo. Gozava de um ambiente de paz e de uma razoável tolerância e abertura. O avanço do conhecimento ocorre sempre mais facilmente em sociedades abertas ao exterior, como Mileto era na altura, do que em sociedades fechadas sobre si próprias. Pode-se ilustrar essa vantagem com um exemplo ocorrido por volta de 750 a.C, muito antes de Anaximandro, quando os Gregos se apropriaram do alfabeto fenício, que é um alfabeto fonético consonante, ou seja, apenas as consoantes são representadas (veja como fica a afirmação anterior em modo consonante: pns s cnsnts s rprsntds). No entanto, como o grego tem menos consoantes do que o fenício e sobravam alguns símbolos, os gregos aproveitaram-nos para representar as vogais. Pode parecer insignificante, mas foi o primeiro alfabeto fonético completo da história da Humanidade. Isto significava que a leitura e a escrita deixaram de estar restritas a uma casta de escribas especializados, os únicos capazes de o fazer, passando o segredo de pais para filhos. Mais pessoas passaram a poder ler e escrever. Talvez se possa encontrar um paralelismo entre o alfabético fonético completo dos Gregos e a prensa tipográfica do Renascimento: ambos permitiram o alargamento da conversa entre pessoas. Isso, em conjunto com a prosperidade, a paz e abertura terão contribuído para o surgimento da ciência em Mileto.

A ciência é inextrincável da sua comunicação, que num primeiro momento é entre pares e que num segundo é com a sociedade.

Os contributos de Anaximandro são diversos. Um dos mais marcantes foi a ideia de encontrar causas naturais para fenómenos naturais, abdicando da intervenção dos deuses nas explicações (muito tempo depois este desígnio levaria à condenação de Sócrates). Isto não significa que Anaximandro se tenha tornado descrente.

Anaximandro também terá criado a ideia de lei natural, ou seja, um conjunto de regras que permitem descrever e prever fenómenos naturais. Do ponto de vista prático, com base em intuição e dedução, fez uma descrição bastante acertada do ciclo da água, propôs que a Terra flutuava no espaço (como o Sol se punha de um lado do horizonte e aparecia no dia seguinte do outro, supôs que debaixo da Terra deveria haver mais céu). Mas talvez o seu contributo mais importante seja este: nalguns aspectos Anaximandro contrariou o seu mestre Tales. Mostrou que é possível ao mesmo tempo respeitar e refutar as ideias dos mestres, avançando no conhecimento. Esta atitude é uma marca fundamental do pensamento científico, que a ciência moderna incorporou.

Quando habitualmente se faz um resumo da história da ciência, ele centra-se nestes dois momentos – a Revolução Científica e a Antiguidade Grega – , havendo um salto de dois milénios entre um e outro. Mas, cada vez mais se está a acrescentar um terceiro, particularmente interessante por anteceder de modo próximo a Revolução Científica: A Idade Média, muitas vezes indevidamente apelidada a «Idade das Trevas». Como conta o historiador Seb Falk, da Universidade de Cambridge, no seu livro A Idade Média – A verdadeira Idade das Luzes (Bertrand, 2021), houve ciência na Idade Média! Não era ciência como a entendemos hoje, claro, mas era ciência:

«As pessoas medievais procuravam obter conhecimento do porquê de as coisas na Natureza se comportarem como se comportam, e usavam este entendimento para fazerem previsões para o futuro. Mas não eram cientistas e a sua ciência incluía actividades que não seriam consideradas ciência hoje em dia. Se estudarmos ciência medieval apenas à procura de precursores e predecessores para a forma como fazemos as coisas agora, inevitavelmente chegamos à conclusão de que era muito diferente.»

Tales. Mostrou que é possível ao mesmo tempo respeitar e refutar as ideias dos mestres, avançando no conhecimento. Esta atitude é uma marca fundamental do pensamento científico, que a ciência moderna incorporou.

Falk ressalta o papel da Igreja e dos clérigos na procura de conhecimento científico. Serve-lhe de fio condutor a vida de um monge que viveu em Inglaterra no século XIV, John de Westwick, acerca do qual pouco se sabe (Falk considera isso apropriado, tendo em conta que a ciência na Idade Média foi essencialmente feita por anónimos). O que torna este desconhecido especial é o facto de ele ser o autor de um enfadonho manuscrito descoberto em 1951, com instruções para construir um misterioso instrumento astronómico: o Equatorie of the Planetis («computador dos Planetas»). A autoria do manuscrito foi inicial e erradamente atribuída ao poeta Geoffrey Chaucer, tendo mais tarde sido creditada a Westwick, por comparação caligráfica. Westwick sabia, essencialmente, a ciência central da Idade Média – a astronomia. Esta ciência era útil para a vida dos monges, regrada por deveres diários realizados a determinadas horas e pautada pelo calendário cristão. De modo simples, os monges precisavam de saber as horas e os dias festivos (em que dias se celebravam certos santos, por exemplo). E para isso viravam-se para o céu. Tanto para o Sol durante o dia como para as estrelas durante a noite. Na busca do aperfeiçoamento e da conveniência, liam obras da Antiguidade, mas também outras mais recentes, incluindo livros do mundo árabe, havendo uma intensa e polémica actividade de tradução (havia quem rejeitasse as traduções, por estas poderem corromper o sentido original; e quem apenas as aceitasse se estas fossem feitas palavra por palavra).

As crenças religiosas motivaram o estudo da astronomia, mas pessoas extremamente devotas não tinham qualquer problema em adaptar teorias de outras crenças, se estas tivessem utilidade prática. Por exemplo, apesar de usarem na sua educação base numerais romanos, os monges ingleses do século XIV reconheciam a utilidade dos numerais indo-árabes quando se dedicavam a problemas complexos de astronomia.

As crenças religiosas motivaram o estudo da astronomia, mas pessoas extremamente devotas não tinham qualquer problema em adaptar teorias de outras crenças, se estas tivessem utilidade prática

A matemática era um assunto sério. Os monges desenvolveram sofisticados métodos para contar e fazer cálculos com os dedos, úteis na gestão de propriedades e em transações. Também criaram mnemónicas de calendário usando as mãos, tal como alguns de nós ainda fazem hoje para saber se um determinado mês tem 31 dias.

Mas os relógios de sol e a observação de estrelas tinham limitações relevantes. As estrelas não eram sempre visíveis e o problema agravava-se quando os edifícios se foram tornando maiores e mais complexos, bloqueando a vista do firmamento. O relógio mecânico foi uma das invenções mais significativas da Idade Média. Este relógio tinha como força motriz um peso em queda, que era abrandado de forma regular pelo mecanismo. Surgiu como aperfeiçoamento de relógios anteriores, que se baseavam no esvaziamento de um tanque de água com um fluxo regular. Os relógios mecânicos remontam ao século XIII, tendo tido origem ao mesmo tempo em França, Espanha e Inglaterra, e tendo crescido progressivamente em complexidade.

As instituições religiosas tiveram um papel de vanguarda na medida do tempo. Um dos primeiros relógios mecânicos terá sido instalado no priorado da Catedral de Norwich, em Inglaterra, na década de 1270

As instituições religiosas tiveram um papel de vanguarda na medida do tempo. Um dos primeiros relógios mecânicos terá sido instalado no priorado da Catedral de Norwich, em Inglaterra, na década de 1270. Tendo custado mais do que 10% do rendimento anual da catedral e depois de muito percalços, foi concluído pelo abade relojoeiro Richard de Wallingford. O mesmo relojeiro foi posteriormente contratado para construir o muito mais complexo relógio mecânico da rica abadia de St. Albans, à qual haveria de pertencer, décadas mais tarde, John de Westwick. Os mostradores do relógio de Wallingford ainda apresentavam o tempo em horas desiguais (12 horas de dia e 12 horas de noite durante todo o ano), mas mostravam também a verdadeira hora solar (que muda todos os dias), as fases da Lua e a posição do Sol em relação a algumas constelações.

Um último exemplo: os eruditos da Idade Média também se dedicaram aos estudo da luz e da visão, sendo a óptica para eles um saber útil. No final do século XIII, no Norte de Itália, onde prosperava a indústria de vidro, alguns sábios usavam o poder de ampliação de lentes cuidadosamente moldadas e polidas na leitura e na escrita, permitindo-lhes continuar a trabalhar, bem avançados na velhice. Óculos e relógios são duas poderosas tecnologias que devemos à ciência da Idade Média, uma ciência fortemente marcada pelas motivações religiosas e na qual os membros do clero assumiram papéis de destaque. Ao contrário do que aconteceu noutros momentos históricos, na Idade Média a Igreja não só não esteve em oposição à ciência, como foi um dos seus principais motores. É ainda na Idade Média que surgiu a Universidade, sendo os seus primeiros alunos maioritariamente frades e monges, que aprendiam nos «Estudos Gerais» e depois regressavam com o seu saber às abadias e mosteiros. Nalguns casos pouca aplicação davam ao que tinham aprendido, mas noutros mantinham-se cientificamente activos e ensinavam outros.

Em conclusão: apesar de marcada pelo confronto nalguns momentos, a relação entre a Igreja e a ciência é mais rica do que muitos supõem. A Revolução Científica fez-se quando o saber estava institucionalizado nas universidades medievais, que eram escolas da Cristandade. Além dos momentos de choque, existiram outros em que os sábios religiosos tiveram papéis de destaque: por exemplo, no século XVII os Jesuítas fizeram chegar a Revolução Científica a Portugal e ao mundo, ao assumirem um papel relevante naquilo a que alguns chamam «primeira globalização».

Fotografia de Josep Renalias –  Wikicommons

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.