Novo

Neste arranque de 2020, Isabel Figueiredo fala-nos da inquietação, não do desconhecido, mas do que seremos capazes de fazer com a nossa vida e com a vida dos outros. Somos chamados a mais do que a viver de gostos e de inquietações.

Neste arranque de 2020, Isabel Figueiredo fala-nos da inquietação, não do desconhecido, mas do que seremos capazes de fazer com a nossa vida e com a vida dos outros. Somos chamados a mais do que a viver de gostos e de inquietações.

Novo, como prata que brilha. Novo, como pele que se toca macia. Novo, como fruta que cresce e as flores que rebentam em manhãs de sol. Novo, como o amor que se descobre, puro, inocente. Novo, como os dias de Primavera, ou a imensidão do mar que surpreende. Novo, como as gargalhadas felizes de presentes inesperados.

Falar de novo é pressentir a surpresa, a possibilidade do recomeço, a esperança do perdão. É mais do que as banalidades dos fogos que iluminam a noite, das festas que atordoam a monotonia da vida ou dos abraços, até sentidos, trocados em mesas fartas.

Falar de novo é pressentir possibilidades desconhecidos de um tempo que há-de vir, um tempo marcado pelas horas de cada dia, que se abrem, a tudo o que lhes quisermos dar. É mais do que fazer projetos, retomar decisões, falar do que está certo no tempo que vivemos.

Falar de novo é abrir a possibilidade de uma determinação diferente, que vai para lá das decisões práticas, uma determinação que nos implica na intimidade do que somos, sentimos e rezamos.

Falar de novo é abrir as portas à presença de Deus, que tudo pode, que tudo transforma, que nos oferece cada dia que passa, numa renovada possibilidade de encontro.

Neste dia, penso sempre na vida nova de tantos, que um dia se cruzaram com Jesus. E de todos, o que mais me enche o coração é Zaqueu, o homem de pequena estatura que subiu a uma árvore para ver Jesus passar. Como terá sido a sua surpresa, ao perceber que Jesus queria estar com ele, comer em sua casa. E a vida nova que começou nesse dia, o perdão que permitiu um recomeço, a esperança que lhe encheu o coração.

Somos chamados à confiança e ao perdão. Somos chamados a correr para o abraço do Pai, desejosos de Lhe contar como fomos capazes de transformar o mundo, mesmo que seja o pequeno mundo da nossa casa, da nossa rua, das nossas rotinas e das nossas fragilidades.

Ao ler e reler as passagens das leituras que marcam a sacralidade deste dia, percebo como continua a ser anunciada a vida nova de Zaqueu. Palavras que afirmam a contínua bênção de Deus, que nos falam de paz, de uma luz que resplandece, da nossa condição de filhos de Deus, de gente capaz de chamar pelo Pai. E que nos lembram o mistério do Natal, quando os pastores de Belém encontraram Maria, José e o Menino deitado na manjedoura… novo, como prata que brilha, como pele que se toca macia, como fruta que cresce e flores que rebentam em manhãs de sol. Novo, como o amor que se descobre puro, inocente…

Iniciar um ano novo, é um gosto e uma inquietação. O gosto de saber que a vida é algo de contínuo, que começa e recomeça, que os dias se sucedem às noites e as noites aos dias. A inquietação, não do desconhecido, mas sim do que serei capaz de fazer, com a minha vida e a vida dos outros. Mas somos chamados a mais do que a viver de gostos e de inquietações. Somos chamados à confiança e ao perdão. Somos chamados a correr para o abraço do Pai, desejosos de Lhe contar como fomos capazes de transformar o mundo, mesmo que seja o pequeno mundo da nossa casa, da nossa rua, das nossas rotinas e das nossas fragilidades. Somos chamados à alegria e à paz. Novo, como os dias de Primavera, ou a imensidão do mar que surpreende. Novo, como as gargalhadas felizes de presentes inesperados.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.