Mysterium paschale: o amor que entra no silêncio da morte - Ponto SJ

Mysterium paschale: o amor que entra no silêncio da morte

«Mysterium Paschale» são catequeses de Tríduo Pascal que pretendem promover o crescimento na profundidade do mistério celebrado na Semana Maior da nossa fé. Preparadas pelo P. Nelson Faria que hoje nos fala do silêncio da morte

«Mysterium Paschale» são catequeses de Tríduo Pascal que pretendem promover o crescimento na profundidade do mistério celebrado na Semana Maior da nossa fé. Preparadas pelo P. Nelson Faria que hoje nos fala do silêncio da morte

 

Que a alegria e a paz de Cristo estejam consigo.

Hoje reina sobre toda a terra um grande silêncio. Um grande silêncio e uma grande solidão. É assim que começa um dos mais belos textos da nossa tradição católica. Hoje é Sábado Santo, o dia em que habitamos o amor que entra no silêncio da morte. Este é um dia frequentemente pouco compreendido. Mas é teologicamente decisivo. Não há qualquer celebração sacramental.

Antigamente, observava-se um jejum rigoroso e silêncio total. Lembro-me bem da minha infância: este era o dia em que estávamos absolutamente proibidos de ouvir música. Desde a hora de Noa de Sexta-feira Santa, e durante todo o Sábado Santo, não havia música em minha casa. É o dia em que a Igreja permanece em vigília junto do sepulcro. Não há música, não há comédia, não há riso. E porquê? Porquê tantos sinais exteriores de pesar? Porque Cristo, o nosso Deus, o amor que é digno de fé, está verdadeiramente morto.

Ele desce à realidade da morte humana. Daí a ênfase do símbolo dos apóstolos na formulação «Ele desceu à mansão dos mortos». É um dia de alta carga simbólica. A Igreja, toda ela, está vestida de silêncio. Os altares estão despidos e o tempo é o tempo da espera. É a revelação de algo profundo, de que Cristo entra na solidão absoluta da morte, de que Deus experimenta o silêncio de Deus.

A redenção atinge o ponto mais cru da existência humana. Este é o dia da esperança no escuro. E qualquer pessoa que tenha passado pelo Vale de Sombras pode imaginar a importância que isto tem. O dia da esperança no escuro.

O Sábado Santo tem uma potente chave teológica frequentemente negligenciada. Este momento de Cristo envolto em morte, em que é depositado no silêncio do túmulo, sem qualquer ação visível, revela a solidariedade total de Deus com a condição humana até ao ponto da morte e da ausência. No Sábado Santo, Deus assume aquilo que o ser humano mais teme: a solidão absoluta da morte.

A redenção não termina na cruz, como muitas teologias que não sabem mais do que a cruz, tentam dizer. A redenção vai bem além da cruz, porque Cristo não padece somente a morte. Ele entra na própria experiência da morte humana. E como Ele entra na própria experiência da morte humana, não existe lugar humano onde Cristo não tenha entrado.

Deus não redime o mundo de fora, como se tivesse uma varinha na mão e com o seu toque tudo se vai e tudo é glória. Deus redime o mundo descendo até ao lugar mais extremo da condição humana, uma kénosis radical que é hoje a do Sábado Santo. Nós estamos habituados a falar da kénosis, deste abaixamento, deste autoesvaziamento de Deus na encarnação. Deus que se faz homem e encarna e desce. E depois há quem fale de uma kénosis maior, que é o do esvaziamento na cruz. Deus que vai até à morte de cruz, da qual o hino cristológico de Filipenses é eco (Fl 2, 5-11): Ele, que era de condição divina, fez-se homem, fez-se escravo até à morte e morte de cruz. Mas há aqui um lugar ainda mais extremo, que é até onde o nosso Deus vai, a da kénosis mais radical: descer à mansão dos mortos. Isto é de uma grande importância, porque mostra que a vitória de Deus não é uma vitória triunfal, imediata, mas uma solidariedade extrema com os mortos.

Cristo desce ao lugar da morte universal e é assim que a Redenção alcança todos os tempos e todos os seres humanos. Porque Cristo assume toda a sombra. Cristo assume toda a escuridão. Cristo assume todo o pecado e toda a consequência do pecado. Não existe abismo humano onde Cristo não tenha descido antes de nós. Nem o pecado, nem a morte, nem o abandono estão fora do alcance da redenção.

Portanto, não sejamos precipitados no julgar. Não nos precipitemos, porque em cada um dos nossos irmãos, independentemente do que vivem, brilha a centelha divina do nosso Deus. Pois esta chega ao fundo mais profundo de qualquer abismo humano.

No imaginário cristão, o Sábado Santo, este dia em que o amor entra no silêncio da morte, é o dia em que nada parece acontecer. Mas, teologicamente, no mistério da salvação, é um momento decisivo, porque tudo parece terminado. Deus parece ausente. A promessa parece falhada. E, no entanto, é precisamente aí que a vitória de Deus está a amadurecer. A vitória de Deus amadurece no escondimento. No silêncio. O sábado Santo é o dia do silêncio de Deus dentro de Deus. E esta é uma das intuições mais impressionantes. No Sábado Santo o Filho experimenta o silêncio absoluto do Pai. Mas tal – este silêncio absoluto do Pai no abismo da morte – não é uma rutura da Trindade, não é uma ferida no nosso Deus, mas expressão do amor filial. Confiado no amor do Pai, Ele vai até ao lugar onde o amor supostamente não o poderia alcançar. Mas porque vai obedecendo, porque vai amorosamente, porque vai confiado, tudo isto torna a experiência da salvação.

Cristo atravessa a noite da ausência de Deus que tantos seres humanos conhecem. Vai até à experiência mais radical da solidão humana. Habita-a e resgata. Este eco de Santo Ireneu «o que não foi assumido não é redimido» brilha na na descida à mansão dos mortos, neste habitar da morte. Cristo assume tudo.

O silêncio de Deus dentro de Deus. Daqui nasce uma consequência espiritual da mais alta importância. A esperança cristã não nasce quando tudo corre bem, mas pela presença contínua de Deus, mesmo no silêncio, mesmo na escuridão.

Assim, o Sábado Santo é a chave para que possamos compreender as nossas crises de fé, os nossos momentos de ausência de Deus e a experiência do sofrimento humano. A Páscoa não é apenas a vitória de Deus sobre a morte. É a revelação de que Deus mergulhou até à profundidade última do abismo da morte humana para ir ao nosso encontro. E talvez haja aqui uma figura escondida que nós temos de encontrar: Maria.

Enquanto os discípulos fogem diante do aparente fracasso da vida e obra de Jesus, no momento em que toda a esperança se esvai, Maria permanece. Ontem, hoje e amanhã, Maria permanece aos pés do anjo, aos pés de Isabel, aos pés da manjedoura, aos pés da cruz, aos pés da Ressurreição. Maria permanece assente na confiança, tão frágil quanto pura, da promessa de Deus.

A fé da Igreja no Sábado Santo é uma fé sem sinais, sustentada apenas pela fidelidade de Deus, por uma confiança amorosa. Por isso é que este Sábado Santo, o amor que entra no silêncio da morte, é o dia certo para nós meditarmos um poema de Daniel Faria que reza:

Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões.
Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo
Se se recorda dos movimentos migratórios
E das estações.
Mas não me importo de adoecer no teu colo
De dormir ao relento entre as tuas mãos.

Amar o caminho que o amor estende, abre dentro das minhas divisões, das minhas mortes e no lugar da morte que a esperança cristã nasce. Não é só na glória da ressurreição. Porque todos os meus abismos, todos os meus buracos, todas as minhas mortes, todos os meus vazios são habitados pela luz de Cristo.

Que assim seja!


«Mysterium Paschale» são catequeses de Tríduo Pascal, que pretendem promover o crescimento na inteligência da fé e na profundidade do mistério celebrado na Semana Maior da nossa fé. Preparadas pelo P. Nelson Faria, sj, pode ler ou escutar quando e onde lhe for mais conveniente, estando disponíveis no portal Ponto SJ e no canal whatsapp do Ponto SJ. Uma primeira catequese será publicada no domingo de ramos, sendo as outras oportunamente publicadas nos dias em que se assinalam os respectivos mistérios da paixão, morte e ressurreição do Senhor.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.