Adaptar o anúncio por fidelidade ao Evangelho

A fidelidade no anúncio joga-se na tensão entre conservação e mudança. Por isso, a transmissão da fé é necessariamente ato de tradução, mesmo que no risco de traição.

Conversão do olhar: ver mais para ver melhor

A mudança de olhar assinalou o Concílio Vaticano II (1962-1965). Por aqui se começou. Por um lado, pela forma da Igreja olhar para o que estava fora de si, o “mundo” moderno que, particularmente desde a revolução francesa e com as revoluções liberais, passara a ser-lhe estranho e hostil. Por outro, pela disposição a deixar-se olhar por esse “outro” diferente de si e pela disponibilidade para aprender com ele. Foi a esta mudança radical que João XXIII iniciou a Igreja quando convocou o último concílio.

Por esta fidelidade à conversão do olhar – cremos – deverá continuar a passar, também hoje, o anúncio do Evangelho. Não é pouco. Não é imediato. Pensemos, por exemplo, no modo de olhar e, sobretudo, de nos deixarmos olhar pela realidade da mulher, da sexualidade, das múltiplas periferias, da vida urbana ou das alterações climáticas. Como se compreendem e se exprimem, hoje, na nossa cultura? O que contestam e em que feridas põem o dedo? O que reivindicam e a que bens anseiam? No modo como a Igreja tem lidado com estes dados, em palavras, atos e, eventualmente, omissões, o que nasce do coração do Evangelho e o que é fruto de processos históricos em contextos culturais particulares? Haverá, certamente, muito a dizer, de modo crítico, sobre cada um deles, a partir do Evangelho. Mas haverá, também, muito a aprender – de forma discernida – sobre o Evangelho a partir deles, quais caminhos indiretos, mas incontornáveis, para que o mesmo Evangelho se alargue, se aprofunde, respire mais amplamente.

Trata-se de uma mudança de olhar pela ativa. Olhar o mundo com outros olhos – as vidas reais, o contexto, a cultura, a história –, de modo a deixar de o ver imediatamente como erro a corrigir, degradação a emendar, culpa a condenar, inimigo a combater.

Trata-se de uma mudança de olhar pela ativa. Olhar o mundo com outros olhos – as vidas reais, o contexto, a cultura, a história –, de modo a deixar de o ver imediatamente como erro a corrigir, degradação a emendar, culpa a condenar, inimigo a combater. O olhar dos «profetas de desgraças», vigilantes anunciadores de «acontecimentos sempre infaustos», como João XXIII se lhe referiu no discurso de abertura do Vat. II, a 11 de outubro de 1962, poderia parecer devoto e zeloso, mas não seria ajustado nem fecundo. Esse olhar sobranceiro e míope, que vê mal porque vê pouco, não servia de todo a vida e a missão da Igreja. Demasiadas energias, durante demasiado tempo, tinham sido gastas a condenar o mundo moderno e a proteger-se dele. Em cada linha escrita ou ação feita, se suspeitava, se denunciava e se condenava um alegado “modernista”. Mas o mundo moderno, quer a Igreja quisesse, quer não quisesse, iria por si. Dependeria da Igreja não ir sem ele. O Vat. II elegeu ir com ele.

Paralelamente, trata-se de uma mudança de olhar pela passiva, operação mais exigente que a primeira, particularmente difícil de incorporar, quer ao nível da “ideia”, quer ao nível das “práticas”. Deixar-se olhar pelo mundo, tal como atua, se compreende ou se exprime, para aprender por meio dele quem se é. É disto que verdadeiramente se trata. Deixar-se interpelar pela realidade para escutar melhor o Evangelho. Manter uma relação significativa de crédito e de débito entre fé, Igreja, teologia e cultura. Por vezes, caberá contribuir profeticamente para purificar o tempo em que se vive, contestando-o, pondo-o em causa. Outras vezes, será este que ajudará a purificar a fé que a Igreja professa e as práticas que realiza. Porque a Igreja não ensina apenas. Também aprende. Pensemos no que aprendeu com a cultura moderna, apesar do intenso conflito, por exemplo, com a afirmação das democracias, das liberdades de consciência, de expressão e de religião ou da abordagem histórico-crítica e hermenêutica dos textos bíblicos. Se começou por contestar asperamente estes movimentos culturais, hoje, a Igreja defende convictamente valores daí decorrentes como sendo estruturais do seu ensinamento. A Igreja é, pois, contemporaneamente, docente e discente, mestra e aprendiz. Mais, à plenitude da verdade que recebeu do Senhor, que lhe cabe celebrar, compreender e testemunhar, em cada tempo e em cada lugar, só chegará por esse caminho mais longo que passa pelos tempos e lugares em que vive e pelas vidas e comunidades reais com quem vive e a quem se dirige. Não por condescendência ao ar do tempo ou com medo de corromper a própria identidade, mas, convictamente, por fidelidade à própria identidade. Importa ter presente que é neste modo de ser em relação vital e discernida com o Evangelho, as vidas reais e a realidade cultural, tal como são, que se é cristão. De facto, a tradição será viva e o anúncio fecundo na medida em que a Igreja cuidar do Evangelho que salva, enquanto o receber e o passar vivo a pessoas reais, em contextos determinados. Para isso, deverá cuidar, tanto da receção, como da tradução. A fidelidade que se lhe pede será, pois, fidelidade ao Evangelho da vida, que “não muda”; fidelidade aos seus destinatários que “sempre mudam”, enquanto sujeitos reais que vivem histórica e culturalmente situados; fidelidade aos múltiplos lugares, expressões e práticas da mediação eclesial que, precisamente para continuarem a ser fiéis ao Evangelho que não muda e aos destinatários que sempre mudam – para que aquele continue a ser vida para estes –, por vezes, “precisam de mudar”.

A Igreja é, pois, contemporaneamente, docente e discente, mestra e aprendiz.

Atender aos destinatários por fidelidade ao Evangelho

Adaptar o anúncio da palavra revelada constitui-se como “lei de toda a evangelização”. Afirma-o a Constituição pastoral Gaudium et spes (GS), no n.44. Pelo seu alcance, convém revisitá-lo. Faz parte do capítulo central sobre a missão da Igreja no mundo atual e tem como título “Ajuda que a Igreja recebe do mundo”. Começa por afirmar, que, «assim como é do interesse do mundo que ele reconheça a Igreja como realidade social da história e seu fermento, assim também a Igreja não ignora quanto recebeu da história e evolução do género humano». E continua, no segundo parágrafo: «a experiência dos séculos passados, os progressos científicos, os tesoiros encerrados nas várias formas de cultura humana, os quais manifestam mais plenamente a natureza do homem e abrem novos caminhos para a verdade, aproveitam igualmente à Igreja». Com efeito, «ela aprendeu, desde os começos da sua história, a formular a mensagem de Cristo por meio dos conceitos e línguas dos diversos povos, e procurou ilustrá-la com o saber filosófico». Com que fim? O «de adaptar o Evangelho à capacidade de compreensão de todos e às exigências dos sábios». Como consequência, «esta maneira adaptada de pregar a palavra revelada deve permanecer a lei de toda a evangelização» [sublinhado nosso].

Querendo compreender-se «neste mundo», no qual «vive e atua» (GS 40), não de forma sobranceira e belicosa, nem com traços de autossuficiência e de autorreferencialidade, a Igreja reconhece-se devedora, curiosamente, da história e da evolução. Comentando o texto, os teólogos S. Morra e M. Ronconi (Incantare le sirene. Chiesa, teologia e cultura in scena) sublinham como a diversidade e a pluralidade são acolhidas, não apenas como constatações a descrever, mas valoradas enquanto «processo (a história)» e enquanto «processo positivo (a evolução)». A operação é radical, se tivermos em conta como «na época das controvérsias com o iluminismo e com o modernismo (séculos XVIII-IX), o eixo dominante da cultura eclesiástica tinha sido a conservação, traduzida operativamente na defesa extenuante do “sempre se fez assim”», e como «era clara e declarada a contraposição com a cultura “mundana”, a qual se concentrava no que muda, na história, no progresso». Assim, «quanto mais a controvérsia se extremava, mais os dois eixos – progresso e conservação – se tornavam indicadores das duas partes em oposição». Com efeito, quer «o privilégio atribuído pelo magistério à imutabilidade, como valor», de um lado, quer «a suspeita permanente da mudança», do outro, tornaram-se elementos marcantes da cultura católica, ainda hoje difíceis de superar.

GS 44 assume, pois, uma mudança radical na forma de olhar a história, o progresso, a cultura, o que é “outro”. Reconhece que a Igreja está em relação com o mundo, que vê, não apenas como destinatário exterior e passivo do anúncio evangélico, mas como caminho através do qual se compreende e compreende mais plenamente o Evangelho. Move-a a convicção de que Deus já está presente e atuante nos destinatários a quem se dirige e que aí já precede os mensageiros do Evangelho. É a Galileia dos gentios, “lugar” onde o Ressuscitado precede os seus discípulos, segundo o Evangelho de Marcos 16, 7. Os destinatários não receberão, por isso, o Evangelho como algo externo e estranho que lhes chega de fora ou que se lhes impõe de cima, à revelia do que são, de como se compreendem e se exprimem, mas como boa notícia reconhecida dentro, à qual poderão aderir em liberdade. Cada homem, cada mulher, cada povo, na sua alteridade e na sua particularidade, no seu contexto e com a sua cultura própria, são reconhecidos como sujeitos legítimos da mensagem de Cristo, de tal modo que a podem e devem exprimir ao seu modo, na sua língua, segundo a sua cultura.

Os destinatários não receberão, por isso, o Evangelho como algo externo e estranho que lhes chega de fora ou que se lhes impõe de cima, à revelia do que são, de como se compreendem e se exprimem, mas como boa notícia reconhecida dentro, à qual poderão aderir em liberdade.

Fica claro como a lei de toda a evangelização, identificada na maneira adaptada de pregar a palavra revelada, não se poderá entender nem atuar como simples operação unidirecional de comunicação e, ainda menos, de marketing. Tal modo reduziria línguas e culturas a mero instrumento funcional para se fazer compreender e levar outros a aderir a uma verdade que, de si, seria a-histórica, estática e fechada, vinda simplesmente do alto ou de fora, à revelia das biografias concretas e dos processos históricos, das particularidades dos tempos e dos lugares. Fiel à encarnação e à sacramentalidade da realidade que daí resulta – a encarnação orienta o olhar para a realidade habitada por Deus, sendo essa o meio indireto através do qual Deus fala e no qual há que discernir a Sua voz – esta lei introduz uma compreensão estruturalmente hermenêutica e processual, isto é, pastoral, quer da fé, quer da sua transmissão. Não haverá, pois, anúncio do Evangelho sem atender e cuidar dos destinatários do Evangelho (o quê e o como, o conteúdo e a forma, implicam-se mutua e inseparavelmente, sem que se confundam) na convicção de fé de que aquilo que se trata no anúncio, de algum modo, por graça de Deus, já está em ação neles.

 

Do cómodo “fez-se sempre assim” ao ofício da tradução

Quase sessenta anos volvidos do Vat. II, no contexto que é o nosso, bem diferente dos anos sessenta do século passado, o ministério do Papa Francisco coloca-se – pensa e age – em plena sintonia com esta mesma mudança de olhar, acrescentando, com renovado impulso e corajoso empenho, um novo elo ao processo de receção do concílio. A compreensão da natureza da doutrina, a relevância atribuída à cultura ou a relação estrutural entre autoridade e liberdade confirmam-no. O desmascaramento de múltiplas tentações de autorreferencialidade eclesial, a disposição a deixar-se interpelar pelas vidas reais e pelas situações existenciais concretas e, de modo muito especial, pelas múltiplas periferias, ou o impulso a processos eclesiais de saída, são disso tradução. A missão evangelizadora da Igreja é confirmada na contínua atenção e discernimento dos “sinais dos tempos”, esses traços marcantes do tempo em que a Igreja se encontra e que é chamada a reconhecer e a discernir, na convicção de que Deus fala por eles, com os quais tem algo a aprender, quer para se compreender mais profundamente a si mesma, quer para compreender mais plenamente o Evangelho que anuncia.

Em A alegria do Evangelho (EG), texto de 2013, programático do pontificado de Francisco, afirma o Papa, no n.41: «[…] As enormes e rápidas mudanças culturais exigem que prestemos constante atenção ao tentar exprimir as verdades de sempre numa linguagem que permita a sua permanente novidade; é que, no depósito da doutrina cristã, “uma coisa é a substância (…) e outra é a formulação que a reveste” [citação de João XXIII, do discurso de abertura do Vat. II]. Por vezes, mesmo ouvindo uma linguagem totalmente ortodoxa, aquilo que os fiéis recebem […] é algo que não corresponde ao verdadeiro Evangelho de Jesus Cristo. Com a santa intenção de lhes comunicar a verdade sobre Deus e o ser humano, em algumas ocasiões, damos-lhes um falso deus ou um ideal humano que não é verdadeiramente cristão. Deste modo, somos fiéis à formulação, mas não transmitimos a substância. Este é o risco mais grave. Lembremo-nos de que “a expressão da verdade pode ser multiforme. [A quantos sonham com uma doutrina monolítica defendida sem matizes por todos, isto poderá parecer dispersão imperfeita; mas a realidade é que tal variedade ajuda a manifestar e desenvolver melhor os diversos aspetos da riqueza inesgotável do Evangelho]. E a renovação das formas de expressão torna-se necessária para transmitir ao homem de hoje a mensagem evangélica no seu significado imutável” [citação de João Paulo II, que intercalámos com o final do n.40 da EG]».

O desmascaramento de múltiplas tentações de autorreferencialidade eclesial, a disposição a deixar-se interpelar pelas vidas reais e pelas situações existenciais concretas e, de modo muito especial, pelas múltiplas periferias, ou o impulso a processos eclesiais de saída, são disso tradução.

A fidelidade no anúncio do Evangelho joga-se, pois, na tensão entre conservação e mudança. Por isso, a transmissão da fé é necessariamente ato de tradução, mesmo sabendo que esta está sempre exposta ao risco da traição – o bom tradutor precisará de conhecer bem a língua da qual traduz e a língua para a qual traduz. A fidelidade não se atua no decalque perfeito, na mera recapitulação do que, supostamente, “sempre foi assim” ou do que “teria sido assim desde sempre”. Também por este ofício de tradução passará esse movimento de Igreja em saída (EG 20), como contínuo exercício pastoral de atenção-anúncio-interpretação-tradução da verdade evangélica, movimento vivo de vai-e-vem que vai desta aos seus destinatários e destes à verdade evangélica. Implicará, para isso, como sintetiza D. Albarello, «sair dos esquemas habituais que, em grande parte, já não funcionam»; «sair para a realidade de hoje, com os seus muitos limites, mas também com as suas muitas potencialidades»; «sair em direção a uma forma de realizar a fé cristã que seja reconhecível como prometedora e praticável para atuar uma vida à altura do desejo humano» (A misura d’uomo. La salvezza per la città).

Sair, portanto, para evangelizar e para ser evangelizados. Sair para ensinar, mas também para aprender. Assim se será fiel, porque a fidelidade à lei da encarnação do Verbo e da sacramentalidade da realidade – «o critério da realidade, de uma Palavra já encarnada e sempre procurando encarnar-se, é essencial à evangelização» (EG 233) – será sempre mediada pelo movimento de saída de si e de encontro com outros na história: movimento que se traduzirá no contacto vivo, tanto com a Palavra feita carne, como com a carne, ferida e vibrante, da humanidade assumida pelo Verbo. Não um sem o outro. Como dois livros que se expõem mutuamente. Um abre o outro. Um lê-se no outro. Um ilumina mais plenamente o outro. A Igreja, da sua parte, que não brilha de luz própria, mas reflete a luz do seu Senhor, far-se-á motivo e ambiente, dedo que aponta e mediação, casa e sacramento, para que os dois livros se encontrem e se abram mutuamente, progressivamente, no lugar comum da carne da nossa humanidade feita sua pelo Verbo e soprada pelo Espírito, num exercício vivo e, por isso, sempre particular, parcial, inacabado de leitura.

* Este texto reelabora de forma sintética o artigo A índole pastoral da doutrina cristã: conservação e mudança, publicado na Revista Brotéria de abril de 2021.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.