Amai os vossos inimigos

Vianney, Amos Oz, Hannah Arendt e Fra Angelico questionam-nos sobre a maior exigência nos tempos que correm.

Vianney, Amos Oz, Hannah Arendt e Fra Angelico questionam-nos sobre a maior exigência nos tempos que correm.

1. Como mel para a boca

No último vídeo de Maître Gimms, La mêmeVianney diz uma frase evangélica «Podemos amar até os nossos inimigos». Partimos à descoberta da origem da letra desta música no Evangelho segundo S. Mateus.


2. Um texto bíblico

Este texto situa-se na continuação do Sermão da Montanha (onde se encontra, entre outros, o texto das Bem-Aventuranças).

«Ouvistes o que foi dito:

– Olho por olho e dente por dente.

Eu, porém, digo-vos: Não oponhais resistência ao mau. Mas, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. Se alguém quiser litigar contigo para te tirar a túnica, dá-lhe também a capa. E se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, caminha com ele duas. Dá a quem te pede e não voltes as costas a quem te pedir emprestado.»

«Ouvistes o que foi dito:

– Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo.

Eu, porém, digo-vos:

Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está no Céu, pois Ele faz com que o Sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores. Porque, se amais os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não fazem já isso os cobradores de impostos? E, se saudais somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos? Portanto, sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste.»

Mateus 5, 38-48


3. O esclarecimento

| Confronto de titãs entre Amos Oz e Hilário de Poitiers |

Uma das personagens de Uma pantera na Cave, um romance de Amos Oz (1939-2018, escritor israelita), oferece-nos um ponto de vista cáustico sobre o amor aos inimigos:

«Amar o inimigo é pior do que passar informações.
É pior do que trair os seus irmãos.
É pior do que denunciar.
É pior do que lhe vender armas.
É ainda pior do que tornar-se desertor.
Amar o inimigo é a pior das traições.»

Amos Oz, Uma pantera na Cave, trad. de Sylvie Cohen, Gallimard : Paris, 2004.

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Fra Angelico (1387-1455), O Sermão da Montanha, (1436, fresco), Convento Dominicano de São Marco, Florença.

Hilário de Poitiers, Padre da Igreja do século IV, prefere ver no amor aos inimigos uma solução para a violência. Eis o que escreve no seu comentário ao Evangelho de Mateus:

«A fé quebra os movimentos de violência no espírito do Homem, não apenas impedindo-o de se vingar furiosamente, como também apaziguando-o até conseguir amar aquele que não tem razão».

O amor pelos inimigos pedido por Jesus é uma das maiores exigências do Evangelho.  É uma exigência de tal forma elevada que é sinal de filiação divina. Aquele que alcançar este amor é filho de Deus. E Aquele que profere este discurso é:

  • Aquele que se deixará cruxificar pelos seus inimigos em silêncio, sem oferecer resistência;
  • Aquele que manifestará em simultâneo o amor pelos inimigos e a Sua filiação divina, aceitando a cruz.

4. E ainda uma palavra final…

A grande Hannah Arendt fala-nos sobre a essência da ação humana e do caráter inesperado do perdão:

«Ao contrário da vingança, que é a reação natural e automática à transgressão e que, dada a irreversibilidade do processo da ação, pode ser esperada e até calculada, o ato de perdoar nunca pode ser previsto; é a única reação que atua de modo inesperado e, por isso, sem deixar de ser uma reação, conserva algo do caráter original da ação. Por outras palavras, o perdão é a única reação pela qual não se re-age apenas, mas se age de maneira nova e inesperada, sem ser condicionada pelo ato que a provocou e que consequentemente liberta tanto o que perdoa como o que é perdoado».

Hannah Arendt (1906-1975, filósofa alemã de origem judaica), 

A Condição Humana, trad. de Condition de l’homme moderne,
Calmann-Lévy Agora : Paris ,1988

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.


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