“Aquele homem era um louco por nosso Senhor Jesus Cristo.” Assim recordava um monge a passagem de Inácio, peregrino pela montanha de Montserrat, em Espanha.
Até aos seus 15 anos, Santo Inácio não saiu de Azpeitia, a sua terra natal. Entre os 15 e os 26 anos esteve ao serviço do “Contador-Mor” (cargo equivalente ao ministro das Finanças de hoje) Juan Velázques de Cuéllar, que vivia em Arévalo, onde Inácio aprendeu os costumes da Corte e os ideais cavaleirescos. Seguramente terá ouvido falar de Montserrat, um santuário muito conhecido na região, gozando da maior simpatia dos Reis Católicos. Mais tarde, passando Inácio para o serviço da casa do Duque de Nájera, vice-rei de Navarra, viverá na casa da Duquesa de Cardona, grande devota de Montserrat.
Quando Inácio é ferido na batalha de Pamplona (20 de maio de 1526) e é levado para Loiola onde começa o seu processo de conversão, apercebe-se de três sentimentos no seu coração: a consolação quando pensa nas coisas que poderá fazer por Deus; a repugnância pela vida que levara até aquele momento; e a repulsa contra si mesmo, que expressará com as penitências que pretende fazer. Na verdade, Inácio chega a dizer que sente “asco” pela vida que antes levara.
Por tudo isto, quando em fevereiro de 1522 Inácio deixa a sua Azpeitia e parte com destino à Terra Santa, pretende passar por Montserrat para, à semelhança do ideal cavaleiresco, fazer uma “velada de armas” a Nossa Senhora. Ele quer depor a sua espada e as suas roupas aos pés de Maria. Assim, quando se aproxima deste mosteiro, Inácio compra um tecido de saco, um bordão e umas alpargatas e assume a sua nova identidade – a de um peregrino.
Quando se aproxima deste mosteiro (Montserrat), Inácio compra um tecido de saco, um bordão e umas alpargatas e assume a sua nova identidade – a de um peregrino
O episódio do encontro com o muçulmano [Au 15-16] acontece na proximidade de Montserrat e é bastante indicativo de quem é o Iñigo que saiu de Loiola: um louco por Cristo, sim, mas ainda apoiado nos ideais representados pelo famoso livro de Amadis de Gaula. Assim nos diz Inácio: «E continuou o seu caminho para Monserrate, pensando, como sempre costumava fazer, nas façanhas que iria fazer por amor de Deus. E como tinha todo o entendimento repleto daquelas coisas, Amadis de Gaula e outros semelhantes livros, vinham-lhe ao pensamento coisas semelhantes àquelas. E assim resolveu velar armas toda a noite (…) diante do altar de Nossa Senhora de Monserrate, onde determinara deixar as suas vestes e vestir as armas de Cristo» [Au, 17].
No dia 21 de março de 1522, dia da festa de São Bento, chega Inácio a Montserrat. Durante os dias 22, 23 e 24 fará a sua confissão geral guiado por um dos padres do mosteiro e na «véspera de Nossa Senhora de Março [era assim chamada a festa da Anunciação que já então se celebrava a 25 de março], de noite, no ano de 22, foi ter com um pobre, o mais secretamente que pôde, e despojando-se de todos os seus vestidos, deu-os ao pobre, e vestiu-se do seu desejado vestido e foi prostrar-se de joelhos diante do altar de Nossa Senhora e, umas vezes de joelhos, outras de pé, com o seu bordão na mão, passou [ali] toda a noite» [Au 18].
O grande sonho de Inácio era o de “conquistar uma grande dama” e o de viver os ideais cavaleirescos. Aqui acaba por fazer uma consagração e uma despedida muito semelhante ao que faziam os cavaleiros antes de partir para a guerra diante de Nossa Senhora e quando se iam despedir das suas “damas”. Acabando a sua vigília, pôs-se, então, a caminho e encontrou Inês Pasqual.
Em Montserrat, Inácio teve contacto com a tradição espiritual beneditina. Conheceu o “Ejercitatorio de vida espiritual” e o “Directorio de las Horas Canónicas” do abade Cisneros. Nos três dias que passou neste mosteiro, Inácio foi introduzido a um novo modo de orar. O método apresentado no “Ejercitatorio” convida o exercitante a começar por crescer no temor de Deus e ao arrependimento dos seus pecados. Por isto, terá Santo Inácio feito aqui a sua confissão geral. Para quem conheça a linguagem dos Exercícios Espirituais, poderá reconhecer imediatamente o que virá a ser a Primeira Semana. Em seguida, este método propõe meditações da vida de Jesus, o que virá a ser a Segunda Semana dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio.
É muito interessante ver como estes três dias de Montserrat tiveram uma importância capital na vida de Inácio: passará, por exemplo, da expressão “fazer oração” a “pôr-se em oração”. Mais tarde, ao propor os Exercícios Espirituais, Inácio insistirá na importância da oração mental, da proposta de oração seguindo um itinerário e com uma sequência de pontos; a composição do lugar, que consiste, simplificando, em que o orante se imagine dentro da cena do Evangelho para que este entre e transforme o exercitante a partir de dentro. Para além destas características, é particularmente interessante notar que a proposta de Inácio para a oração do exame de consciência, em cinco pontos, – central para Inácio – tem no “Ejercitatorio” uma inspiração muito clara. Terá sido esta oração que conduziu Inácio ao longo dos três dias passados em Montserrat preparando a sua confissão geral. Tudo inspirações vindas da experiência de Montserrat.
Pelos caminhos de Santo Inácio
Ao raiar do dia, a 25 de março de 1522, Iñigo Lopez de Oñaz y Loiola parte de Montserrat sem certezas para onde o levariam os seus passos. A sua meta era a Terra Santa, e Barcelona um lugar de passagem obrigatória para o embarque em Roma. A estrada real que o conduziria à cidade maior catalã estava repleta de pessoas que o reconheceriam e o encheriam de honras. Por isso optou por uma via secundária e, junto à capela dos Apóstolos, encontrou uma mulher que, tal como ele, era peregrina em Montserrat e iniciava o seu regresso a casa. Perguntou-lhe, então, se havia algum hospital perto que o pudesse hospedar. Respondeu-lhe ela, o mais perto ficava em Manresa, uma terra ali perto. Chamava-se esta mulher Inés Pascoal e viria a tornar-se o anjo da guarda de Iñigo nesses tempos seguintes de Manresa e Barcelona. Assim nessa data – 25 de março de 1522 – Iñigo chega à indicada cidade de Manresa com, apenas, o propósito de permanecer alguns dias e escrever a sua experiência de Montserrat. Mas Deus tinha outros planos – Iñigo mostrava-se aberto para os escutar e só onze meses depois retomará o rumo da Terra Santa.
A 25 de março de 1522 Iñigo chega à indicada cidade de Manresa com, apenas, o propósito de permanecer alguns dias e escrever a sua experiência de Montserrat. Mas Deus tinha outros planos – Iñigo mostrava-se aberto para os escutar e só onze meses depois retomará o rumo da Terra Santa.
Certo é, Iñigo saiu de Loiola com a vontade de viver a sua vida dedicando-a a Deus. Nada mais senão cumprir a vontade de Deus. Essa vontade divina que quer conquistar! É um neoconvertido e, como todos os que se apaixonam, nada pretende senão agradar ao Amado. Tem um novo Senhor. Tem também uma Senhora a quem, nessa manhã de 25 de março, acabou rendendo as armas, passando a noite em vigília entregando-lhe toda a sua própria vida.
O seu referencial continua a ser o de um cavaleiro. Se antes da convalescença em Loiola, queria conquistar uma grande dama, e tinha por ideal a honra cavaleiresca, agora, com o novo Senhor da sua vida, já não deseja regressar à vida de antes, mas continua sendo a mesma pessoa: quer conquistar um grande Senhor com as suas determinadas vontade e valentia.
Inácio em Manresa | As voltas que a vida dá
Inácio precisava de ir a Roma, onde obteria permissão para viajar à Terra Santa. Lá lhe dariam um documento sem o qual não poderia embarcar para Jerusalém. Sendo essa autorização prestada apenas na Páscoa, que esse ano calhava a 20 de abril, não dispunha de muito tempo se realmente quisesse rumar para o Oriente. Não poderia, pois, demorar-se em Manresa.
Todavia, o que lhe aconteceu em Montserrat tinha sido demasiadamente importante, e era necessário registá-lo e digeri-lo. Há acontecimentos e experiências espirituais na nossa vida que impõem tempo para serem devidamente integradas. Inácio já tinha estado na hospedaria do Mosteiro de Montserrat os três dias a que os peregrinos tinham direito: viu-se, por isso, obrigado a abandoná-lo e a procurar outro local para parar e ter tempo de pensar, rezar, interiorizar e guardar para si o que lhe estava sucedendo. Acabará por decidir adiar um ano a sua peregrinação à Terra Santa.
Assim, quando deixou Montserrat, Santo Inácio já decidiu não ir diretamente para Barcelona. Precisa de algum tempo de recolhimento, longe dos olhares que o pudessem reconhecer.
No nº 18 da autobiografia [Au], Inácio refere, quase de passagem, não querer usar a estrada real para não ser reconhecido porque teme que lhe deem honras e louvores. Este será um receio que o acompanhará sempre: não quer voltar à sua vida anterior de honrarias mundanas, antes quer mergulhar profundamente na vida nova que Deus lhe está a oferecer. Deseja afastar-se dos conhecidos, não para se esconder ou porque rejeita a sociedade: na verdade, em Manresa, Inácio estará como os pobres do hospital, com a comunidade dos dominicanos, com as pessoas frequentava a “Seo” e conversava com todos os que o procuravam para tal. Quer afastar-se do seu velho mundo para se poder centrar e para amadurecer o seu louco enamoramento.
Em Manresa, onde a sua conversão se torna efetiva na adesão a Cristo, Inácio atravessa um processo de três momentos: afasta-se, descentra-se e recentra-se. Estes três movimentos permitem que o seu coração se desloque da busca da honra do mundo para a busca incessante da maior glória de Deus.
Em Manresa, onde a sua conversão se torna efetiva na adesão a Cristo, Inácio atravessa um processo de três momentos: afasta-se, descentra-se e recentra-se. Estes três movimentos permitem que o seu coração se desloque da busca da honra do mundo para a busca incessante da maior glória de Deus.
Este momento de “afastamento” é o que Inácio proporá mais tarde aos que se aventuram nos Exercícios espirituais (EE). Aconselhará, então, aos seus companheiros, um tempo de afastamento de “amigos e conhecidos e da casa onde mora e de negócios” para o seu encontro com Deus [cfr. EE20]. Será este mesmo afastamento do mundo habitual que também pedirá a todos os que se queiram membros da Companhia de Jesus durante o noviciado. No fundo, o que fez Inácio em Manresa foi o seu próprio noviciado particular onde conseguiu escutar o seu mundo interior.
O Inácio que chega a Manresa está a começar a dar os primeiros passos na sua vida espiritual. Em Montserrat entregara as suas armas externas, – em Manresa será convidado a entregar as internas e a reorientar toda a sua vida e os seus valores.
Um exemplo clássico disto é o episódio com o “Mouro” que nos é relatado na sua autobiografia [Au 15-16]. Inácio vinha de Loiola querendo fazer grandes coisas por Deus. E se santos houve que penitenciaram, ele penitenciaria o dobro. Se houve santos que jejuaram uma semana, ele jejuaria duas. Estas “loucuras” são o sinal de um coração apaixonado, mas ainda pouco discernido. Inácio ainda não sabe escutar o seu interior. Aquele “Mouro” pôs em questão a virgindade de Nossa Senhora e Inácio fica furioso e quer matar o homem – o herege – como um honrado cavaleiro faria para proteger o bom nome da sua dama. De facto, Inácio diz que se sente obrigado “por honra” a defender Nossa Senhora. A questão será: mas qual honra? Honra de quem? Precisa Nossa Senhora de ser defendida? Não serão antes a honra e a glória do próprio Inácio postas em causa?
É interessante perceber que Inácio quer afastar-se de conhecidos para deles não receber honrarias. Mas, ao mesmo tempo, continua ligado ao ideal da “honra”. As penitências, disfarçadas em serviços, são, em verdade, expressão deste valor fundamental para Inácio: o que o leva a agir, de forma mais ou menos camuflada, o ideal da “honra”. Inácio mudou o modo, mudou o senhor a quem serve, mas continua a ser o Iñigo ao jeito de Amadis de Gaula. Generoso e apaixonado, sem dúvida, mas ainda de pouco discernimento, ainda demasiadamente autorreferencial, centrado em si mesmo. Ainda demasiado à procura de “fazer coisas” por Deus, ainda buscando a visibilidade das suas ações, mais do que a luminosidade que revela o amor divino. Ainda se vê muito Inácio e pouco Deus nas suas ações.
Esta passagem da “visibilidade” à “luminosidade” será o afazer de onze meses em Manresa. Assim, se num primeiro momento Inácio se afasta de conhecidos e amigos, num segundo momento precisa de aprender a descentrar-se e reconhecer o que significa e que consequências tem para si ter o amor de Deus como o seu centro. Esta mudança é assaz delicada. Inácio fazia coisas “religiosas”, longas orações e penitências, mas ainda estava demasiado preocupado com a sua honra e com feitos grandiosos e impressionantes de ascetismo exagerado. O critério ainda não é a vontade de Deus, propriamente, mas é o de fazer coisas grandes para Deus. Afastou-se da honra exterior, mas não abandonou a honra interior. Inácio precisa de crescer na consciência dos seus próprios limites e fragilidades. Tem de perceber que a sua força não está na conquista de coisa imensas, mas no acolher incondicional do amor de Deus que o chama.
Inácio fazia coisas “religiosas”, longas orações e penitências, mas ainda estava demasiado preocupado com a sua honra e com feitos grandiosos e impressionantes de ascetismo exagerado. O critério ainda não é a vontade de Deus, propriamente, mas é o de fazer coisas grandes para Deus.
Por isso, necessitou passar por todos os exageros de não se lavar, não cortar o cabelo nem as unhas, fazer longos jejuns para depois perceber que não podia conquistar Deus; que o amor de Deus não se conquista, mas acolhe-se, que Ele o ama incondicionalmente e o chama. O caminho espiritual é o caminho de uma longa relação entre Deus e cada um de nós. Inácio precisou de tais loucuras para se descentrar do próprio amor, querer e interesse.
Em Manresa Inácio lutou com meio mundo e, sobretudo, consigo mesmo e com Deus. Aqui se dá conta que a vida espiritual, mais do que feita de conquistas espectaculares e quase impossíveis, é uma crescente relação amorosa. Assim lhe sai o grito orante: – «Socorre-me, Senhor, porque não encontro nenhum remédio nos homens, nem em nenhuma criatura; porque se eu pensasse poder encontrá-lo, nenhum trabalho me pareceria pesado. Mostra-me Tu, Senhor, onde o posso encontrar, porque mesmo que seja necessário ir atrás de um cachorrinho para que me dê o remédio, eu o farei » – [Au 23]. A sua vaidade de cavaleiro cai assim por terra.
Au 29 – «(…) depois que começou a ser consolado por Deus, e viu o fruto que fazia o trato com as almas, deixou aqueles excessos que antes praticava e já cortava as unhas e o cabelo». Nesta fase, Inácio começa a entender que a vida espiritual é um caminho de relação de amor com o Senhor. Depois de uma primeira e necessária fase de uma paixão louca e pouco discernida, habitada por atos extremos que deixaram marcas para toda a vida, Inácio pode agora viver a importância de estar descentrado de si mesmo e assim perceber que a vida espiritual é sempre uma relação a dois e não mera introspecção. O esvaziamento de si leva a um recentramento do “eu”. É crucial, portanto, que as consolações espirituais só cheguem a Inácio depois de se ter rendido e abandonado nas mãos de Deus. Só depois da definitiva velada de armas de onze meses vivendo em Manresa. As armas exteriores não foram mais do que um necessário e importante prelúdio da entrega das armas interiores. O culminar de tudo isto acontecerá na “iluminação do Cardoner”, em que verá como novas todas as coisas em Cristo. Até ao final da vida, diz ele, nada se pode comparar ao conhecimento das coisas espirituais que atingiu naquele momento.
J. Rambla, um especialista na autobiografia de Inácio, afirma que Deus retirou Inácio do mundo para o devolver ao mundo com a missão de o transformar. Inácio pode, então, regressar agora ao mundo, já não para buscar honra e glória ou para se destacar ou ser melhor do que os outros. Em Manresa intui que, recentrando-se no seu Senhor, poderá escutar o seu interior e reconhecer a voz de Deus. E então sim, Inácio ancora a sua vida no verdadeiro Deus e percebe que não basta viver por Deus Nosso Senhor, nem sequer basta viver com Ele, afigurando-se-lhe que, como diz S. Paulo, é chamado a viver em Cristo, que habita todas as coisas. Inácio pode agora perceber que Deus é misericórdia, e que a sua misericórdia está sempre e em tudo o que habita o “Meio Divino” (cfr. Act 17,28).
Inácio chega a Manresa com o desejo de se afastar do mundo, longe dos homens e das vaidades; vivendo uma vida pobre num pequeno hospital de um parco povoado, com longas horas de solidão e penitência numa “cova”. Entretanto, depois de concluir que não é a sua valentia que o salva e de experimentar o limite de viver confiado em si só, depois de chegar ao extremo de querer acabar com a sua própria vida e de se ter, finalmente, entregue ao Deus Amor, Inácio deixa-se habitar por um novo desejo: “viver todas as coisas em Deus Nosso Senhor” e “ajudar as almas”. Quando Inácio fala de “ajudar as almas” está a partilhar a sua experiência, a partilhar aquilo que Deus lhe proporcionou viver.
Depois de concluir que não é a sua valentia que o salva e de experimentar o limite de viver confiado em si só, depois de chegar ao extremo de querer acabar com a sua própria vida e de se ter, finalmente, entregue ao Deus Amor, Inácio deixa-se habitar por um novo desejo: “viver todas as coisas em Deus Nosso Senhor” e “ajudar as almas.
O grande tesouro da Companhia de Jesus são os Exercícios Espirituais (EE), um destilado da experiência de Inácio em Manresa (e Montserrat) materializado num pequenino livro, minúsculo na sua dimensão material, mas que encerra toda a experiência que Inácio atravessou. Depois de Manresa, fará ligeiras alterações ao texto até à versão definitiva, e é então que os EE são oferecidos por Deus à Humanidade.
Tipicamente distinguem-se três etapas na estadia de Inácio em Manresa. A primeira durou aproximadamente quatro meses e foi o tempo da paz e alegria interiores, o contentamento consigo mesmo pela sua nova vida. Recebia esmolas para si e para os pobres que ajudava, dedicava muito tempo à oração. Surge depois uma fase de forte crise existencial e religiosa, com momentos de grande desolação. Sofre grandes tentações [Au 19-20 – «E como poderás tu suportar esta vida nos setenta anos que hás de viver?»] que o querem afastar do caminho iniciado. Passa por tempos de tristeza e desolação em que não encontra gosto na oração nem na eucaristia. Amarguram-no os escrúpulos e quer confessar várias vezes os mesmos pecados da vida passada, achando sempre que se esqueceu de algum detalhe importante. Há o momento icónico, o mais baixo, quando Inácio acha que não vale a pena prosseguir: «Estando nestes pensamentos, vinham-lhe muitas vezes tentações, com grande ímpeto, para deitar-se de um buraco grande que havia junto do lugar onde fazia oração». Inácio quer pôr fim à própria vida, mas ainda mais importante do que terminar o seu sofrimento é o seu amor pelo Senhor. Então Inácio grita – «Senhor, não farei nada que Te ofenda – repetindo estas palavras, assim como as primeiras, muitas vezes» [Au 24].
A desolação foi para Inácio crucial para destruir a imagem de Deus e de si mesmo que trazia consigo. Quando, nos EE, Inácio vier a falar nas causas desse desalento, a primeira é a nossa preguiça na vida espiritual, mas a segunda e a terceira razões, que é claramente onde se encontra Inácio, são o caminho de purificação das falsas construções religiosas.
Na própria Autobiografia, vemos como é pela misericórdia do Amor de Deus que Inácio se liberta dos seus escrúpulos e do desejo de conquistar Deus. Não é pela sua penitência, pela sua heroica ascese, mas é pela misericórdia de Deus que Inácio encontra a paz. «(…) E como já tinha alguma experiência da diversidade de espíritos, com as lições que Deus lhe dera, começou a reparar nos meios pelos quais aquele espírito tinha vindo, e assim resolveu, com grande clareza, não confessar mais nenhuma das coisas passadas. E assim daquele dia em diante ficou livre daqueles escrúpulos, tendo por certo que Deus nosso Senhor o tinha querido libertar, por sua misericórdia» [Au 25].
«Nesse tempo, Deus tratava-o como um mestre-escola trata uma criança, ensinando-o. E quer isto fosse pela sua rudeza e fraca inteligência, ou porque não tinha quem lhe ensinasse, ou pela firme vontade que Deus lhe tinha dado de O servir, via claramente e sempre pensou que Deus o tratava desta maneira (…)» [Au 27]. Nasce agora a terceira fase, a da abertura ao mistério e a verdadeira estruturação do novo Inácio. Já não estamos na presença de Iñigo Lopez de Oñaz y Loyola, mas de Inácio, o Peregrino: desapareceu a prepotência e a soberba das penitências e a heroicidade ascética, e aparece a pequenez de um menino que é ensinado (Mc 10, 13-16). O que se passou com Inácio não é reservado a uns quantos só, antes é o caminho a que Jesus nos convida a todos, todos, todos. Inácio aprendeu a escutar o “mestre interior”.
Em Manresa, Inácio liberta-se de si mesmo, do seu desejo de honras e glória, de ser mais santo do que os outros. O que possibilitou esta sua libertação foi o encontro com a misericórdia de Deus. Talvez o que Inácio tenha realmente experimentado nestes onze meses de Manresa fosse aquilo a que a primeira semana dos EE pretende conduzir o exercitante: à graça da consciência de que somos pecadores, mas muito amados e enviados pelo Pai que nos ama, para lá de qualquer mérito ou lógica que não seja o amor. É a partir desta visão mais lúcida de si mesmo que Inácio (e o exercitante) podem partir para a contemplação da vida de Cristo. Com o capital da sua própria vida nas mãos, a vida real, não a idealizada, pode agora centrar-se realmente no Cristo Verdadeiro, e não numa projeção dos próprios medos e feridas, desejos e delírios de santidade ou grandeza.
Com o capital da sua própria vida nas mãos, a vida real, não a idealizada, pode agora centrar-se realmente no Cristo Verdadeiro, e não numa projeção dos próprios medos e feridas, desejos e delírios de santidade ou grandeza.
Descer à própria miséria, ao próprio pecado, às próprias feridas, é o lugar de encontro com Aquele que aí desceu antes de mim. É o em que podemos tocar com a certeza de não estarmos sozinhos porque a misericórdia está connosco e assim havemos de expor as nossas feridas na confiança de que Ele as cura.
Agora livre de si mesmo, livre do próprio amor, querer e interesse, com o coração livre como uma criança, Inácio estava livre para partir. Se, em Loiola, Santo Inácio começa o seu processo de transformação interior, convertendo-se ao “mundo de Deus”, no tempo de Manresa ele “converte-se de Deus ao mundo”. Agora Inácio quer “ajudar almas” e “encontrar Deus em todas as almas”.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.