A Ascensão

Rousseau, Biber (não o Justin!), Il Garofalo, Pietro Perugino, Salvador Dalí e 5 questões muito importantes…

Rousseau, Biber (não o Justin!), Il Garofalo, Pietro Perugino, Salvador Dalí e 5 questões muito importantes…

1. Como mel para a boca

Esta semana, não conseguimos escolher. Propomos-lhe então escolher entre as duas músicas seguintes:

1. Deixe-se conquistar pelo Gospel ouvindo a emocionante interpretação de Mahalia Jackson de In the Upper Room [«Na sala de cima», em alusão ao lugar de oração dos primeiros discípulos depois da Ascensão].

 

2. Ou disfrute da mais clássica Sonata do Rosário XII, sonata para a Ascensão, composta por Heinrich Ignaz Franz von Biber (1644-1704) e interpretada aqui pelo ensemble La Tempesta.


2. Um texto bíblico

Em Portugal, celebramos hoje a solenidade da Ascensão do Senhor. Debruçamo-nos então sobre este episódio, que conclui o ciclo de aparições do Cristo ressuscitado.  

No meu primeiro livro, ó Teófilo, narrei as obras e os ensinamentos de Jesus, desde o princípio até ao dia em que, depois de ter dado, pelo Espírito Santo, as suas instruções aos Apóstolos que escolhera, foi arrebatado ao Céu. A eles também apareceu vivo depois da sua Paixão e deu-lhes disso numerosas provas com as suas aparições, durante quarenta dias, e falando-lhes também a respeito do Reino de Deus. No decurso de uma refeição que partilhava com eles, ordenou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem lá o Prometido do Pai, “do qual – disse Ele – me ouvistes falar. João baptizava em água, mas, dentro de pouco tempo, vós sereis baptizados no Espírito Santo.” Estavam todos reunidos, quando lhe perguntaram:

– Senhor, é agora que vais restaurar o Reino de Israel?

Respondeu-lhes:

– Não vos compete saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou com a sua autoridade. Mas ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo.

Dito isto, elevou-se à vista deles e uma nuvem subtraiu-o a seus olhos. E como estavam com os olhos fixos no céu, para onde Jesus se afastava, surgiram de repente dois homens vestidos de branco, que lhes disseram:

– Homens da Galileia, porque estais assim a olhar para o céu? Esse Jesus que vos foi arrebatado para o Céu virá da mesma maneira, como agora o vistes partir para o Céu.

Desceram, então, do monte chamado das Oliveiras, situado perto de Jerusalém, à distância de uma caminhada de sábado, e foram para Jerusalém. Quando chegaram à cidade, subiram para a sala de cima, no lugar onde se encontravam habitualmente. Estavam lá: Pedro, João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelota, e Judas, filho de Tiago. E todos unidos pelo mesmo sentimento, entregavam-se assiduamente à oração, com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos de Jesus.

Atos dos Apóstolos 1,1-14


3. O esclarecimento

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Il Garofalo, A Ascensão de Cristo (1510-1520), Galeria Nacional de Arte Antiga – Palazzo Barberini, Roma, Itália

O Novo Testamento é às vezes criticado por ter todas as características de uma história lendária: cegos que recuperam a vista, mortos que ressuscitam, coxos que andam. E por que não um homem elevado ao céu? Interroguemo-nos, então, sobre este texto aparentemente lendário…

Primeira pergunta: o tema da ascensão era frequente na Antiguidade?

  • A nossa passagem distingue-se claramente das chamadas “viagens da alma” ou de “visões celestes”, temas frequentes em numerosos textos antigos, inclusive na Bíblia. Em nenhum desses casos se trata de ascensão corporal, como no caso de Cristo.
  • Claro que a tradição clássica grega evoca heróis míticos levados para o céu: por exemplo, Hércules, a quem Zeus, seu pai, retirou da pira para levá-lo para o Olimpo. Mas estes personagens não têm caráter histórico como Jesus.

O tema da «ascensão» não está, portanto, ausente do imaginário antigo, mas a ascensão corporal de uma personagem histórica parece ser um fenómeno mais raro.

 

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A Ascensão, Os Evangelhos de Rabula (iluminura, 586), Biblioteca Laurenziana, Florença, Itália

Segunda pergunta: o episódio da Ascensão tem antecedentes na Bíblia?

  • A ascensão de Jesus lembra o fim da vida do profeta Elias no segundo livro dos Reis, no Antigo Testamento (falar-lhe-emos sobre isso da próxima vez, prometido). Como Elias, Jesus é levado para o céu e os seus discípulos “veem” esse arrebatamento. Isto marca o começo de um novo período: Jesus não está mais na terra e são agora os apóstolos que são responsáveis pela comunidade. A Ascensão garante, portanto, que nenhum homem pode fazer-se passar por Jesus!
  • O texto também usa uma imagem bíblica nada trivial: a NUVEM. Na Bíblia, esse «nevoeiro» é, muitas vezes, o sinal da presença de Deus, assim como da impossibilidade de o conhecer. Por exemplo, a nuvem desempenha um papel fundamental no momento da passagem do Mar Vermelho (Êxodo 13-14). Se o leitor moderno não entende como é que a Ascensão foi possível, a Bíblia tranquiliza-o: a nuvem é o sinal da impossibilidade de conhecer Deus. Por outras palavras não devemos tentar entender tudo.

Enquanto o leitor contemporâneo procura avaliar o realismo histórico de tal evento (“como é que isto foi possível?”), o autor do texto concentra-se na descrição da realidade divina, procura traçar essa união, em Cristo, entre este mundo, o nosso, e esse outro, o de Deus, que está para além de tudo o que é sensato ou imaginável. E fá-lo usando expressões simbólicas.

 

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Pietro Perugino, A Ascensão de Cristo em presença da Virgem e dos Apóstolos (1496-1500), Museu das Belas Artes, Lyon, França

Pergunta n. 3: então, o texto foi escrito apenas para convencer os ignorantes ou as mentes fracas?

Como o estilo e a qualidade da linguagem usada no nosso texto mostram, os Atos dos Apóstolos são destinados aos espíritos críticos, capazes de verificar. O autor, Lucas, escreve para um público culto, que ele convida à reflexão, a «julgar a informação recebida». Ao contar a Ascensão de Jesus, não tenta de todo impressionar algumas mentes mais fracas!

Pergunta 4: qual o peso histórico que devemos dar a este texto?

Falando com aqueles que estão presentes imediatamente antes da sua Ascensão, Jesus qualifica-os de testemunhas. Há dois termos gregos que habitualmente são traduzidos em português com a palavra  “testemunha”: ou autoptês, ou martus.

  • autoptês designa a testemunha ocular;
  • martus designa aquele que dá um testemunho, por exemplo, diante de um tribunal, possivelmente através do dom da vida, daí o termo “mártir”.

A Ascensão tornou-se um dos momentos fundadores do testemunho que os apóstolos darão e que os conduzirá ao martírio. Muitos darão as suas vidas, em nome da fé, nos anos a seguir à Ascensão. Isso não assevera totalmente a realidade da Ascensão, mas dá-lhe seguramente muito peso…

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Salvador Dalí, A Ascensão de Cristo, Piétà (1958), Coleção Pérez Simon, México, México

E última pergunta: então, podemos acreditar?

Ninguém será capaz de provar que a história da Ascensão é uma lenda ou, pelo contrário, um relato histórico meticuloso. Seria necessário ter-se filmado a cena, mas o vídeo não existia na época e, novamente, poderíamos sempre suspeitar de uma montagem.

O que nos leva a duas reflexões:

  • Como todos os milagres nas Escrituras, a Ascensão perturba a nossa razão. Talvez a Ascensão ainda mais do que os outros.
  • Mas, se acreditamos que Deus se tornou homem e ressuscitou, por que não teria ele «subido ao céu»?

4. E ainda uma palavra final…

Jean-Jacques Rousseau no seu Émile aborda exatamente este tema:

“Devemos dizer que a história do Evangelho é inventada? Meu amigo, não é assim que se inventa; e os factos de Sócrates, dos quais ninguém duvida, são menos atestados que os de Jesus Cristo. No fundo, é afastar a dificuldade sem a resolver; é mais inconcebível que vários homens se tenham posto de acordo para fabricar este livro, que supor que apenas um deles decidiu abordou o assunto. […] o Evangelho tem verdades tão grandes, tão impressionantes, tão perfeitamente inimitáveis, que o inventor seria mais surpreendente que o herói.”

Jean-Jacques Rousseau, Émile ou De l’éducation (1762)


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