Visita guiada a um Sunday Service com Kanye West

Começam a dar que falar as celebrações dominicais evangélicas (Sunday Services) animados pelo rapper Kanye West. Fomos tentar perceber porquê.

Para alguém minimamente interessado nas aventuras e desventuras da cultura pop, o nome de Kanye West não será estranho. Rapper, produtor musical e estilista, Kanye conta já com um número considerável de prémios artísticos, ao qual se somam inúmeros ‘casos’ no palco mediático contínuo que é o mundo pop.

Nos finais de Outubro passado, West lançou um novo álbum cujo título denuncia uma nova etapa na sua vida pessoal e artística, depois da sua experiência de «novo nascimento», ou «nascimento no Espírito Santo» (expressão particularmente comum no cristianismo evangélico). Fundamentalmente, Jesus is King é um relato pessoal de conversão, desencadeada pela descoberta de um novo ‘absoluto existencial’ («On God»), e de como isso pode transformar hábitos («Everything We Need»), prioridades («Hands On») e agendas («Closed on Sunday», «Every Hour»). A boa aceitação do álbum tem suscitado um certo debate em torno de um possível contexto de ‘revivalismo evangélico’ nos EUA, ao mesmo tempo que se discute esta nova forma de apologética cristã, feita noutras ruas (digitais), com outra linguagem (musical) e por meio de outros protagonistas (artistas).

Enquanto álbum confessional, Jesus is King extravasa os circuitos meramente comerciais. Desde há vários meses que o material do disco vem sendo utilizado como repertório musical nas liturgias comunitárias de assembleias evangélicas. Reunindo um grupo de músicos excepcionais, Kanye West tem circulado pelo seu país para animar o culto de diferentes assembleias com este repertório, durante os Sunday Services (celebrações de domingo). O nosso texto debruça-se precisamente sobre uma dessas celebrações, ocorrida no The Forum, em Los Angeles (03.11..2019). Tendo apenas um vídeo como referência, o meu propósito não é descobrir as diferenças entre uma celebração evangélica e a liturgia católica, nem tão-pouco fazer considerações sobre uma certa religiosidade norte-americana, mas simplesmente sublinhar alguns aspectos que, como espectador, me parecem relevantes. Ou seja, vou tentar responder à pergunta: o que está a acontecer aqui? E o que tem isso de especial? No final, o leitor poderá clicar no vídeo e confirmar (ou criticar) por si próprio.

1. Cenografia: olhar para o espaço

Estamos num enorme pavilhão, com bancadas em torno de uma área central. No centro do pavilhão encontramos um palco-jardim, de formato circular, no interior do qual estão dispostos os músicos em vários círculos concêntricos, vestidos com umas quase-túnicas verde-claras. Por cima, outro círculo: uma clarabóia fictícia que vai transformando lentamente o espaço, pintando-o de luz(es). Aquele jardim floral, musical e luminoso vai-se espraiando do núcleo central para as bancadas. Portanto, a cenografia integra vários elementos, com grau crescente de importância: lugar (pavilhão), decoração (flores, palco central) e iluminação (clarabóia). O jardim central prende irresistivelmente o olhar, mas seria difícil contestar que a luz é que comanda o espaço/ tempo da celebração. Com efeito, da escuridão inicial passamos para uma luz uniforme, de um branco-clínico, e terminamos com uma luz nublada, celeste-aquática. Dir-se-ia que o jogo de luz estabelece um itinerário. Esta centralidade da luz também se depreende da insistência no eixo vertical da filmagem. Frequentemente, somos convidados a olhar o céu, de baixo para cima.

2. Enredo: olhar para a narrativa (sem entrar em questões bíblicas)

De algum modo, a intuição de que a luz está no centro desta celebração e de que é ela a marcar o seu ritmo é confirmada pelas palavras que circulam entre a recitação, a música e a pregação. A celebração começa com uma espécie de «acto penitencial», de reconhecimento de uma treva existencial (donde as luzes apagadas), de súplica a Deus e aos outros. «Hands On» é o nome de um movimento simultaneamente exterior (esticar as mãos para abençoar e rezar pelos outros, dentro do gestuário cristão) e interior (reconhecer a própria vulnerabilidade e dependência). Até à pregação (sensivelmente a meio da celebração), tudo gira em torno à necessidade de conversão e de adesão a Jesus. A narrativa alterna entre combate e deslumbre, entre ferida e cura: é um drama de salvação, de terapia, de libertação. Na clarabóia, a luz-clínica intensifica esta imagem com o seu branco uniforme e imenso a contrastar violentamente com a escuridão do resto da sala. A pregação resume a problemática: há que tomar decisões, e seguir Jesus é uma decisão vital. A partir de então, os céus fictícios abrem-se, e da clarabóia desce uma nova luz, celeste. Imediatamente, ouve-se «Ultralight Beam» e «Take Me to the Light», até que tudo culmina na etérea «Jesus is Lord», à medida que a assembleia se vai azulando, confundindo-se cada vez mais como a luz onde está mergulhada.

3. Personagens: olhar para os intervenientes

É flagrante o carácter comunitário desta celebração. Isto, por si só, bastaria para sugerir que estamos perante uma forma de protagonismo partilhado. Para além dos «actores cénicos» (digo ‘actores’ porque também actuam sobre nós, espectadores) temos uma multidão de actores de carne e osso: os músicos, os solistas, o maestro, o pregador (e alguns extras). Kanye West ocupa, evidentemente, um lugar particular, visto que muitas das músicas lhe pertencem (no duplo sentido de terem sido compostas por si, e de se referirem ao seu próprio percurso pessoal). Contudo, na lógica desta celebração, Kanye West aparece mais como um «sujeito colectivo»: a sua vida-música representa-nos; somos todos da mesma massa. Com ele, também o coro actua como porta-voz da humanidade. Kanye West fornece a narrativa, o coro contribui com a carne.

Se a gradação da luz contribui para a intensificação do drama narrativo (escuridão, desejo de luz, decisão, iluminação), é talvez na voz e nos instrumentos que esse processo se torna mais evidente. O som torna-se palco de uma transformação, onde o grito pode ser súplica e prece, júbilo e suspiro (oiça-se «Every Hour» para perceber até onde pode ir essa invasão sonora).

É também interessante notar esta dinâmica de liderança distribuída, onde o microfone passa de mão em mão para dar a palavra a diferentes pessoas. Nesse sentido, aqui os líderes são mais elementos de inspiração que de controlo. É difícil perceber onde termina o maestro e começa o «actor», assim como não é óbvia a distinção entre o pastor e o tio contador de histórias.

Finalmente, e apenas como alusão, a presença das filhas de Kanye West no centro daquele palco-jardim também é significativa. De algum modo, elas são a garantia de que o que estamos a assistir não é um concerto, mas um momento (sofisticado) de reunião comunitária e familiar (veja-se os minutos 36:00-38:15).

4. Coreografia: olhar para o movimento

Muito haveria a dizer sobre o lugar e importância do movimento nesta celebração. Como dizia o maestro a dada altura: «este é um lugar de liberdade». Possivelmente, a dança é a materialização mais cabal dessa afirmação. Não obstante a exuberância e fragrância das flores, ou a força cénica da luz, o dramatismo das palavras, ou mesmo a intensidade e riqueza dos sons, algo ficaria irremediavelmente truncado, inédito e silenciado se não houvesse espaço para o movimento. Uma comunidade que encoraja o movimento dos seus membros torna-se também ela uma comunidade que se mexe. Ao mesmo tempo, uma comunidade que dança é uma comunidade que reconhece o valor do corpo e que percebe que a fé é para ser vivida da cabeça aos pés, sem contrapor corpo e espírito, afecto e inteligência, contemplação e acção.

5. Síntese: uma experiência total

Nestes parágrafos simples, pretendi pôr em relevo apenas alguns aspectos relevantes destes Sunday Services, animados pela equipa de Kanye West, naquilo que poderíamos descrever como uma «experiência total». ‘Total’ pelo modo como faz apelo aos diferentes sentidos; ‘total’ pelo modo como convoca afectividade, liberdade (para tomar decisões; para se exprimir) e inteligência; ‘total’ pelo modo como concilia protagonismo pessoal (todos somos Kanye) e dinâmica comunitária. Nessa medida, há algo de potencialmente libertador e refrescante nesta experiência. No final, resta-nos encontrar um jardim para aprender a dançar, na esperança de um dia sermos luz. Até lá, temos aqui umas primeiras dicas:

Nota: Este serviço litúrgico teve lugar no dia 3 de novembro de 2019

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.