O Messias – no Natal ou na Páscoa?

Uma peça musical reflete as emoções do compositor e as circunstâncias da sua vida no momento da composição.

A Oratória foi um estilo musical muito utilizado pelos compositores do período barroco, que teve origem em Itália. Surgiu da Lauda, um drama litúrgico que evoca cenas bíblicas representativas da Natividade, da Paixão e da Ressurreição de Cristo. São obras vocais com acompanhamento instrumental de teor narrativo. Integram a formação da obra: cantores solistas, um coro e uma orquestra. É um género musical comparável à ópera por ter árias e recitativos, nos quais os cantores solistas dialogam com a orquestra ou com o baixo contínuo (cravo, violoncelo ou viola da gamba).

O compositor que se destacou no género da Oratória, foi Georg Friedrich Handel. Handel nasceu a 23 de fevereiro de 1685 em Halle na Alemanha, e faleceu a 14 de abril de 1759 em Londres. Dada a sua forte relação com Inglaterra e com Sua Alteza Real Jorge I, acabou por se tornar cidadão britânico em 1726.

Handel chegou a Inglaterra em 1711 e durante muito tempo viveu envolto em sucesso, mas por volta de 1740 encontrava-se falido. Dedicava-se então a escrever óperas que estavam a sair de moda, e participava na organização da ópera da “Real Academia de Música”, tendo acabado na ruína financeira. A sua vida de sucesso terminara e começou a ser o alvo dos credores.

Neste momento da sua vida, Handel volta-se para Deus. Contava então 58 anos e sabia que com a sua idade iria ser difícil voltar ao sucesso na música.

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Cristo no calvário, pintura de Bartolome Esteban Murillo

Têm então lugar dois acontecimentos que vão culminar na composição do Messias, uma das obras mais importantes de Handel e a mais importante Oratória da história da música.

O primeiro, foi a visita que Handel recebeu do Lord Lieutenant da Irlanda, o Duque Willian Cavendish, que lhe encomendou uma Oratória. Era habitual na época este género de obras serem apresentadas em igrejas, mas a pedido do Duque esta seria para ser apresentada em teatros. A ideia do Duque era organizar concertos de beneficência para ajudar um hospital que atendia pessoas carentes.

Por ocasião da encomenda, o Duque pagou a Handel a composição da obra. Essa ajuda foi essencial para que conseguisse pagar algumas dívidas. Handel interpretou a visita de Willian Cavendish como uma resposta às suas orações, mas tinha como desafio compor algo extraordinário para o agradar.

Quase em simultâneo teve lugar o segundo acontecimento que levou à composição do Messias. Handel recebe um pacote de um indivíduo chamado Charles Jennens. Jennens era um admirador da música de Handel, também ele um profundo crente e conhecedor da Bíblia. No passado, mais precisamente em 1739, Jennens já tinha ajudado Handel a selecionar passagens da Bíblia para a sua obra “Israel no Egito”. Agora, cinco anos depois, Jennens selecionou textos bíblicos e queria que Handel escrevesse uma Oratória que relatasse a história de Jesus. Consta que Jennens enviou essa seleção de textos a Handel, num pacote, através de um portador, mas que Handel estava tão preocupado com as suas dívidas, que recebeu mal o homem enviado por Jennens, pensando que fosse mais um credor. Acabou por aceitar o pacote, mas sem interesse. Assim que o abriu, encontrou uma carta com a seguinte frase: “O Senhor Deus encarregou-me de to entregar”.

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Primeira página do côro “Digno é o Cordeiro”, do manuscrito original do Messias de Handel. Arquivos da British Library, Londres.

Estes acontecimentos levam Handel a iniciar a composição do Messias no final do verão de 1741. Concluiu a primeira parte a 28 de Agosto, a segunda a 6 de Setembro e a terceira a 12 de Setembro. Após concluir a composição do Messias, Handel fechou-se no seu quarto, sem quase nunca sair durante os vinte e quatro dias que se seguiram. Foi várias vezes surpreendido pelo seu empregado, a chorar e a rezar. Segundo refere Paul Henry Lang (1966), no seu livro intitulado George Frideric Handel, um dia quando o seu empregado subiu ao quarto para lhe levar comida, encontrou-o andando de um lado para outro, em lágrimas, cantando “Aleluia, Aleluia, o Senhor Omnipotente reina!” Numa outra ocasião, o seu empregado ouviu-o dizer: “Eu creio ter visto o céu diante de mim e o próprio Deus sentado no trono”.

Em música, as circunstâncias vividas pelos artistas, têm grande influência sobre as suas obras. Uma peça musical reflete as emoções do compositor e as circunstâncias da sua vida no momento da composição. Tal parece ter aqui acontecido com Handel e o seu Messias.

“… a deidade que finalmente emerge deste grande trabalho, é o triunfante Deus do Antigo Testamento que Handel frequentemente louvava…” (Paul Henry Lang, George Frideric Handel, pp. 342 e 343).

O Messias teve a sua estreia na noite do dia 13 de Abril de 1742 em Dublin, durante o tempo pascal. A sala encontrava-se repleta de público que no final aclamou Handel efusivamente. O sucesso fez com que a obra voltasse à cena várias vezes.

Após os sucessos obtidos, Handel regressa a Londres com o objectivo de utilizar o Messias para angariação de fundos nesta cidade, mas os sucessos de Dublin não se repetiram. Facto curioso é um anúncio sobre uma apresentação do Messias publicado num jornal Londrino nem sequer mencionar o nome de Oratória. Os ingleses, ao contrário dos irlandeses, não eram favoráveis à apresentação de música religiosa num espaço que não fosse uma igreja.

O Messias é composto por vários relatos da vida de Jesus Cristo desde a sua anunciação profética e nascimento e até à sua morte e ascensão ao céu. A obra está dividida em três partes: a primeira apresenta a profecia do nascimento de Jesus, a segunda relata episódios da Paixão culminando no famoso coral “Aleluia”, e a terceira parte descreve o tema da Redenção.

Inicialmente o Messias foi composto para ser executado na semana da Páscoa, mas por volta dos anos sessenta foi transformado numa obra Natalícia. No livro Histórias por trás das grandes tradições do Natal, Ace Collins refere que “Em 1900, o Messias estava tão intimamente ligado à Páscoa, que as pessoas começaram a querer ouvir a Oratória todos os anos. As apresentações do Messias tornaram-se úteis para encher igrejas e salas de concertos. Em pequenas cidades inglesas, bem como em grandes cidades, as apresentações anuais da obra de Handel atraíam multidões. Tinham-se tornado numa tradição e muitos não podiam imaginar a Páscoa sem o Messias de Handel…”. Qual terá sido então o motivo que levou a que fosse alterado o momento do ano em que se apresentaria a obra? Ace Collins (2003) justifica este facto da seguinte forma: “As interpretações do Messias no Natal basearam-se em questões de marketing. As grandes multidões que desejavam ouvir a Oratória, levaram os promotores de concertos a repensar o momento do ano para a apresentação da obra de Handel. Em especial aqueles que angariavam dinheiro para instituições de caridade, sabiam que o espírito de entrega das pessoas era muito maior no Natal do que na Páscoa. Outra razão em desfavor da Páscoa era o período de férias ser muito curto, durava apenas três dias. Durante alguns anos, em especial em Inglaterra, a Oratória de Handel fez parte das experiências de Natal e Páscoa. Mas na década de 1960, o Messias transformou-se num evento de Natal”.

Como refere Collins, as interpretações do Messias passaram a ter lugar no Natal por questões de marketing. Assim permanece até aos nossos dias. É frequente a obra ser apresentada no Natal e muito raramente ou quase nunca na Páscoa.

Será justo cingir as apresentações do Messias ao período Natalício por questões de marketing? Não será mais importante que se tente dar a possibilidade de fruição deste monumento da história da música, ao maior número de pessoas possível? Na minha opinião, a música é um bem comum que deve ser partilhado por todos. O Natal e a Páscoa são ambos períodos especiais, adequados à apresentação do Messias. Mas, porque não levar à cena ou escutarmos uma gravação desta obra sempre que o nosso estado de espírito o desejar? A música é um dos alimentos da espiritualidade humana. Vivemos numa época abençoada por um Papa singular, que não olha à cor ou ao género. Talvez devamos seguir o seu exemplo e ultrapassar as barreiras impostas pela história e pelos preconceitos dos homens. Ouçamos quando desejarmos ouvir, independentemente de estarmos no Natal, na Páscoa, no Inverno ou no Verão.

O Messias é composto por momentos de música tão especiais e sublimes, que parecem realmente ter sido obra de Deus. Eventualmente muitos dos leitores não conhecem o Messias. Desafio-vos a escutar esta obra, que é sem dúvida o maior legado que Georg Friedrich Handel nos deixou, um hino à pureza, à meditação e à paz de espírito.

 

 

Link’s para audição. Excertos de “O Messias”:

 

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.