Herança de Paganini

Portugal é um país culturalmente rico, com muito para ser descoberto e muito para ser desvendado. Engana-se quem pensar conhecer tudo sobre as artes em Portugal e sobre a sua história.

Portugal é um país culturalmente rico, com muito para ser descoberto e muito para ser desvendado. Engana-se quem pensar conhecer tudo sobre as artes em Portugal e sobre a sua história.

A segunda guerra mundial, entre os anos de 1939 e 1945, impulsionou o êxodo judaico. Inúmeras famílias mudaram-se para territórios neutros, para fugirem ao movimento de exterminação anti-semita lançado por Adolf Hitler.

Um dos destinos mais desejados eram os Estados Unidos. Portugal, país pseudo-neutro, era um excelente ponto de passagem para as Américas. Salazar governava o país, os imigrantes judeus corriam risco de extradição, mas apesar disso, inúmeras famílias judaicas por cá passaram e algumas acabaram por ficar.

Rumo à desejada nova vida, as famílias judaicas traziam consigo os seus bens mais preciosos, entre eles as suas coleções de obras de arte. Também passaram por Lisboa coleções de arte confiscadas pelos Nazis, essas coleções incluíam obras de Renoir, Cézanne, Manet, Monet, Picasso, Gauguin. Nem todas as famílias judaicas conseguiram chegar à América, tendo algumas ficado por Portugal. Algumas das suas obras de arte ainda poderão estar por cá, mas quais e onde, só alguns saberão.

A segunda guerra mundial, entre os anos de 1939 e 1945, impulsionou o êxodo judaico. Inúmeras famílias mudaram-se para territórios neutros, para fugirem ao movimento de exterminação anti-semita lançado por Adolf Hitler.

Foi durante esse êxodo que chegou a Lisboa Maxim Jacobsen, o maior violinista pedagogo do seu tempo.

Maxim nasceu em 1887, em Jelgava, uma cidade da Letónia. O seu pai era um comerciante abastado, judeu ortodoxo, que se instalou em Riga. Aos doze anos Maxim ouviu um concerto de Bronislaw Huberman, grande virtuoso da época, que o marcou profundamente. Apesar da resistência do pai que não lhe deu qualquer apoio financeiro, decidiu tornar-se violinista.

Maxim Jacobsen foi durante muitos anos o chefe do departamento de violino do Conservatório Stern de Berlim. Casou-se pela primeira vez em 1919. No início dos anos trinta começou na Alemanha a exterminação dos judeus.

Maxim Jacobsen mudou-se para Itália. Foi professor de violino de Benito Mussolini, de quem obteve apoio para fundar a Scuola Superiore di Musica na cidade de Milão.

Benito Mussolini presenteou o seu distinto professor com documentos manuscritos, preciosidades de Niccolò Paganini. Dizem que o ditador possuía cadernos não publicados do grande virtuoso. Esses cadernos juntamente com relatos de testemunhas oculares que ouviram Niccolò Paganini em concerto, foram transmitidos em primeira mão a Maxim Jacobsen. Iniciou então a missão que lhe ocupou grande parte do resto da sua vida: desvendar o segredo da técnica lendária de Paganini.

Maxim Jacobsen conheceu também Attila Paganini, neto do célebre Niccolò Paganini. Attila era também um grande admirador de Maxim, e como prova da sua admiração, ofereceu-lhe alguns documentos originais do avô. Documentos de Niccolò Paganini não editados e desconhecidos, ficaram assim nas mãos de Maxim Jacobsen.

Com o aumento da descriminação racial em Itália, Maxim Jacobsen deixou o seu conservatório em Milão. O destino levou-o até Bruxelas, aí se instalou e foi convidado para ser o professor de violino da rainha Elisabeth. A rainha tinha duas horas de aulas de violino por dia, os jovens príncipes também se tornaram discípulos de Maxim, que passou a ser tratado como um membro da família real.

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A rainha Elisabeth da Bélgica manteve sempre grande ligação à música. Fonte: http://www.noblesseetroyautes.com/archives-elisabeth-de-belgique-une-reine-melomane/

Era  frequente Maxim Jacobsen jantar com a família real, ao final do dia após as suas aulas. Consta que uma das princesas roía regularmente as unhas à mesa.  Um dia, no decorrer da refeição, Maxim virou-se para a princesa e disse-lhe com um ar muito sério: “sabes que se continuas a roer as unhas dessa forma, um dia vais ficar como a estátua da Venus de Milo que está no museu do Louvre”. E nunca mais a princesa roeu as unhas.

Quando os Alemães invadiram a Bélgica, a Rainha Elisabeth aconselhou Maxim a fugir e concedeu-lhe um Passaporte Real para lhe proporcionar uma possível nova vida num novo mundo. Fugiu primeiramente para o sul da França, mas com o avanço das forças Nazis viu-se obrigado a fugir mais uma vez. Recebeu então uma proposta de trabalho vinda de Boston nos Estados Unidos. Na época, Portugal era um dos países pseudo-neutros com excelente localização, pois permitia acesso ao continente Americano. Pediu e foi-lhe concedida autorização para se instalar em Portugal. No dia em que tentou embarcar rumo aos Estados Unidos foi impedido de o fazer. Dois dos seus três filhos, ainda muito jovens, que tinham permanecido em Bruxelas, foram obrigados a trabalhar para os Alemães.

Maxim Jacobsen foi autor de importantes métodos de violino, que se baseavam em exercícios de ginástica dos dedos e braços essenciais para um violinismo de alto nível. Os seus métodos não foram bem interpretados nem bem recebidos por alguns músicos portugueses desse tempo.
O mestre partiu, praticamente incógnito para a realidade musical portuguesa, mas as heranças de Paganini que trouxe consigo para Portugal, talvez ainda cá estejam, quem sabe…

Em Portugal estabeleceu-se em Cascais. Aí recebia alunos vindos dos quatro cantos do mundo que o procuravam. Daí partia regularmente para Londres para dar aulas e masterclasses. Já em Cascais colaborava com editoras de partituras musicais de renome internacional como Edition Peters e a Boosey & Hawkes; ainda hoje, a maioria das obras para violino destas editoras, são as que foram revistas por Maxim Jacobsen.

A figura de Maxim Jacobsen era peculiar, grande nariz e cabeleira farta. Em Cascais frequentava regularmente o café Boca do Inferno, que ficava no edifício dos atuais Correios de Cascais. Certo dia, estava Maxim a analisar partituras à mesa do referido café e um cliente perguntou ao empregado se sabia quem era o indivíduo que parecia ser um músico que estava algumas mesas ao lado; o empregado dirige-se a Maxim a contar o sucedido e Maxim responde: “diga ao senhor que o meu nome é Beethoven”.

Maxim Jacobsen casou-se três vezes. A sua primeira mulher, a quem chamava Eroica por ter uma personalidade semelhante à 3ª Sinfonia de Beethoven, tinha um feitio difícil e viril.

O seu segundo matrimónio, foi com a Apassionata, à semelhança da Sonata Apassionata de Beethoven, a sua esposa vivia a vida com uma paixão e intensidade que aos seus olhos era excessiva.

A sua última companheira, uma farmacêutica portuguesa, viúva, era uma mulher simples, calma e dócil, que Maxim apelidou de Pastoral (6ª Sinfonia, a Pastoral de Beethoven).

Maxim Jacobsen faleceu em Cascais no ano de 1973. Só após a sua morte se soube a sua idade exata. Constatou-se que no passaporte emitido pela Rainha Elisabeth da Bélgica, lhe atribuíram menos dez anos. Dez anos a menos que lhe podiam ter proporcionado o começo de uma nova vida.

Maxim Jacobsen foi autor de importantes métodos de violino, que se baseavam em exercícios de ginástica dos dedos e braços essenciais para um violinismo de alto nível. Os seus métodos não foram bem interpretados nem bem recebidos por alguns músicos portugueses desse tempo.

O mestre partiu, praticamente incógnito para a realidade musical portuguesa, mas as heranças de Paganini que trouxe consigo para Portugal, talvez ainda cá estejam, quem sabe…

 

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.