A resistência das democracias liberais: Taiwan

A luta entre as democracias liberais e as ditaduras será intensa ao longo deste século. A esperança de uma vida melhor e livre é o que nos faz muitas vezes desafiar o destino, a prudência e a cautela.

Não é exagero afirmar que a Democracia Liberal enfrenta muitos desafios e que perdeu o fulgor vivido na década após a queda do Muro de Berlim e da própria União Soviética. Hoje em dia, observamos a insatisfação e o desencanto de muitos cidadãos de países democráticos. Uns optam por votos de protesto e outros pela abstenção. Na verdade, a própria Europa e os EUA vivem hoje tempos complexos e perturbadores. As razões para a «realidade populista» são muitas e não podem ser reduzidas, descartadas ou simplificadas e cada país tem o seu contexto e os seus problemas específicos.

No entanto, há alguns factores em comum como o alcance das chamadas fake news e das campanhas de propaganda e desinformação. Todos os dias somos confrontados com este fenómeno nas redes sociais e nos próprios media. Por vezes, nem nos apercebemos do modo como estamos a ser condicionados para formar uma determinada opinião. Escândalos como o que foi revelado sobre a Cambridge Analytica e o Facebook devem-nos fazer reflectir sobre a qualidade das nossas democracias liberais. Os sinais de alarme são muitos e as preocupações também.

Talvez não fosse possível imaginar que em estados-membro da União Europeia assistíssemos ao assassínio de jornalistas como o de Daphne Caruana Galizia em Malta, ao crescimento do iliberalismo na Hungria e ao questionar da independência dos tribunais e do pilar fundamental que é o Estado de Direito na Polónia. Em paralelo, temos que incluir nesta fotografia a influência crescente de países ditatoriais como a Rússia e a China no espaço europeu.

Por todas estas razões a eleição presidencial este ano nos EUA adquire ainda maior importância. Neste momento, temos um Partido Republicano a cerrar fileiras à volta do actual Presidente, um Congresso em «modo impeachment» e um Partido Democrata, que parece não ter aprendido nada com a derrota. Não há até agora uma candidatura agregadora que seja capaz de oferecer aos eleitores norte-americanos uma alternativa à actual Administração. Tudo isto é uma má noticia para o fortalecimento da Democracia Liberal a nível global. É muitas vezes difícil ou mesmo impossível separar a retórica e o estilo do conteúdo relativamente às medidas concretas de política externa do Presidente Donald Trump. Mas há um facto inegável: a sua política externa não privilegia o apoio às democracias liberais no mundo.

Para além destas medidas concretas no nosso quotidiano enquanto cidadãos há outra perspectiva que temos de passar a incluir: deixarmos de olhar para o nosso umbigo ocidental e prestar atenção aos desafios e aos dilemas de outras democracias liberais.

O que podemos fazer face a esta situação preocupante de fragilidade das democracias liberais? Enquanto cidadãos podemos participar mais na discussão pública, na vida dos partidos, estar mais e melhor informados procurando diversificar as nossas fontes em matéria de notícias, ler mais e, em suma, não nos deixarmos acantonar. Bem sei que não é fácil. Temos hoje em dia ritmos de trabalho tão intensos que só nos apetece «desligar». Eu bem sei do que falo. No meu caso, o futebol é o meu escape. Internacional claro está, pois quando joga o Benfica há muita, muita concentração.

Para além destas medidas concretas no nosso quotidiano enquanto cidadãos há outra perspectiva que temos de passar a incluir: deixarmos de olhar para o nosso umbigo ocidental e prestar atenção aos desafios e aos dilemas de outras democracias liberais. Há vários exemplos importantes, mas tendo em conta o adversário talvez a mais importante seja Taiwan. Este pequeno território e com uma história muito sui generis foi a votos recentemente para escolher o seu Presidente e uma nova composição parlamentar.

A actual Presidente Tsai Ing-wen foi reeleita e o seu partido venceu as eleições legislativas. No entanto, esta vitória dupla estava longe de ser certa em meados de 2019. O que mudou? Em primeiro lugar, as manifestações em Hong Kong e sobretudo a reacção do Executivo desta região administrativa especial da República Popular da China. Em segundo lugar, a própria política de Beijing face às eleições em Taiwan com o seu tom assertivo e intimidatório, campanhas de desinformação sobre os candidatos e uma ameaça constante.

Taiwan é uma democracia liberal plena com uma sociedade civil forte e viva, que tem acompanhado com muita atenção o que tem acontecido em Hong Kong. Perante o bullying de um estado tão poderoso como a China, cuja escala é tão grande (maior população, o segundo maior orçamento de defesa e a segunda maior economia mundiais) que acaba por tornar Taiwan um território pequeno com os seus 23 milhões e 500 mil habitantes, Taipé decidiu não ceder às ameaças de Beijing.

A luta entre as democracias liberais e as ditaduras será intensa ao longo deste século. É uma luta global e não apenas europeia ou transatlântica. É preciso pormos mãos à obra. A esperança de uma vida melhor e livre é o que nos faz muitas vezes desafiar o destino, a prudência e a cautela.

Não é possível quantificar esta esperança, mas é possível exprimi-la. Thomas Paine apelou assim a outros «patriotas» na revolta das 13 colónias norte-americanas face à grande potência da época, a Grã-Bretanha: «Tyranny, like hell, is not easily conquered; yet we have this consolation with us, that the harder the conflict, the more glorious the triumph. What we obtain too cheap, we esteem too lightly: it is dearness only that gives everything its value.»

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.