Os Leigos para o Desenvolvimento fundados pelo pe. António Vaz Pinto sj, com a missão de “promover o desenvolvimento integral e integrado de pessoas e comunidades, com vista à sua capacitação e autonomização, através do testemunho e da intervenção preferencial de voluntários missionários qualificados”, chegaram a Angola, no início dos anos 1990, mais especificamente em 1994, com a chegada da primeira equipa de missão à Benguela. Por sua vez, o Mosaiko foi fundado em 1997 pelos dominicanos de Angola com o objectivo de promover e defender os direitos humanos. LD e Mosaiko tornaram-se duas organizações pertinentes e relevantes no contexto da Angola ainda em guerra. Naquele contexto e desde aquela altura, cada uma destas organizações leva a cabo inúmeras actividades. Os Leigos para o Desenvolvimento destacam-se no trabalho para o desenvolvimento comunitário, educação (ensino nos seminários e outras escolas) e trabalho na saúde através do controlo e gestão de centros de saúde. O Mosaiko por seu turno, trabalhou e trabalha na promoção dos Direitos Humanos, com particular ênfase na educação para a cidadania; no apoio e acompanhamento aos Grupos Locais de Direitos Humanos (GLDH); agindo a partir de uma profunda análise de contexto por meio de pesquisas sociais orientada para acção.
Um dos elementos a destacar na relação Mosaiko e LD tem que ver com o trabalho em desenvolvimento comunitário. Para o Mosaiko e para os LD a transformação positiva da sociedade passa pela inclusão e participação de todas as forças vivas da comunidade. Entre as mais lindas experiências neste sector, destacam-se a formação e o acompanhamento dos Grupos Comunitários(GC) que são, segundo o professor Roque Amaro, “No essencial, um Grupo Comunitário (GC) é uma plataforma ou um ponto de encontro, para trabalho e Ação conjunta, entre o Envolvimento Ativo da Comunidade, designado por Participação, e o Envolvimento Ativo das Instituições e Serviços que nela intervêm, designado por Parceria, com vista ao Bem-Estar e ao Bem-Viver da Comunidade” . Num mundo cada vez mais guiado pelo lucro e por uma economia que exclui e marginaliza os pobres, os grupos comunitários são uma fonte de esperança e consolidam caminhos para uma sociedade mais inclusiva, plural e por uma economia mais solidária, pois os GC e os GLDH trabalham para o desenvolvimento integral das comunidades a partir do contributo de cada homem e de cada mulher da comunidade.
O Mosaiko e os Leigos para o Desenvolvimento têm raízes cristãs comuns e uma relação de trabalho que data dos finais de 2012/13. Tudo começou com um convite da então Missão de Benguela para a facilitação de um seminário de Direitos Humanos na comunidade do Bairro da Graça, em Benguela, organizada pelo Grupo Comunitário do mesmo bairro. Na sequência desta formação e de vários outros momentos, surgiram outras acções conjuntas, nomeadamente, a troca de experiências entre mulheres da Associação Mulher Raiz da Vida (sediadas em Luanda) e mulheres do Bairro da Graça. Neste intercâmbio, as mulheres da Graça aprenderam a fazer sabão, contribuindo assim para a participação cívica e a autonomia económica das mulheres de várias associações com as quais trabalhamos. A relação é tão profunda que o Mosaiko tem um assessor que é o ponto focal da relação Mosaiko – Leigos por via do acompanhamento directo das dinâmicas internas e de participação das acções do grupo comunitário. Hoje Mosaiko e LD não apenas implementam projectos, mas partilham sonhos e ideias. Mosaiko e LD são parceiras estratégicos.
Apesar disso, importa destacar um momento marcante nesta relação. Trata-se do período de implementação do projecto PAPPIA – Projecto de Advocacia para Políticas Públicas inclusivas em Angola, nos anos de 2018_2021. Foi neste período que os LD e o Mosaiko realizaram mais actividades conjuntas. No âmbito deste projecto, foram realizados módulos de formação em TfT no qual participaram 50 membros da comunidade da Graça; realizaram-se formações e seminários sobre vários temas ligados aos Direitos Humanos, OGE, políticas públicas e advocacia social; foram organizados festivais de cinemas e arte, com destaque para a participação dos jovens do GC no documentário “Sopro no quintal” produzido pela documentarista Gretel Marín e Kamy Lara, Assim como outras iniciativas de teatro comunitário realizados por membros do grupo comunitário da Graça mas especificamente.
Os LD e o Mosaiko desenharam em 2023 um projecto sobre a participação da sociedade civil e as autoridades locais, um projecto financiado pela UE e gerido por um consórcio de organizações. Por terem sido alteradas as regras do jogo depois do anúncio da candidatura vencedora, o Mosaiko e os LD decidiram não assinar o contrato e desistiram de participar no projecto.
Da análise conjunta da realidade angolana, as duas organizações identificaram a juventude como um dos principais públicos-alvo da sua acção por estes serem a maioria da população angolana e um dos grupos que enfrentam os maiores desafios. Em resposta a este problema identificado, nasceu a ideia da elaboração do projecto “jovens hoje, líderes agora” que visa contribuir para uma participação qualitativa dos jovens nos processos democráticos, sociais e económicos das suas comunidades por meio de iniciativas de empreendedorismos e de obtenção de competências para vida através de formações e estágios profissionais nas províncias de Benguela, Luanda e Malanje.
As experiências narradas demonstram o caminho feito por duas organizações de fundamento cristão, inspiradas em dois grandes carismas da Igreja Católica, a Espiritualidade Inaciana por os Leigos terem sido fundados por um Jesuíta e o Carisma Dominicano sob a qual se funda e inspira a acção do Mosaiko.
Da acção dos Leigos destacamos os valores da entrega, do voluntariado e da comunidade em missão que os leigos defendem. São estes os valores que os GLDH partilham enquanto associações de participação que têm no centro o interesse colectivo e que contribuem para a valorização dos ganhos colectivos. Isto significa para Mosaiko o maior Dom, a maior oportunidade e um dos maiores ganhos da relação entre o Mosaiko e os Leigos para o Desenvolvimento
Hoje, volvidos todos estes anos, o Mosaiko espera que a relação entre as duas organizações cresça e se solidifique; e espera continuar a aprender com os Leigos para o Desenvolvimento. Para o Mosaiko, os Leigos para o Desenvolvimento vão se tornando e são na verdade um parceiro estratégico na medida em que vê a materialização de um dos pontos principais da sua filosofia: o desenvolvimento comunitário. Partilhamos juntos os valores cristãos do compromisso com base na fé e nos valores do Evangelho e o trabalho realizado em conjunto tem dado provas de que resultou. Por isso, consideramos que a opção do trabalho conjunto Mosaiko e LD foi uma opção acertada e tudo faremos para uma maior participação dos cidadãos e cidadãs de Angola
Juntos, LD e Mosaiko trabalhamos com as pessoas e não para as pessoas rumo a uma Angola e um mundo melhor para todos/as.
Fr Júlio Candeeiro, OP
