É Missionar

Havia sempre algo de incerto associado ao trabalho, dia a dia e lugares de missão. Percebi que o Senhor me chamava a partir, mesmo, sem ser tudo claro.

Ainda estou a descobrir o que significa Missão.

Mesmo até ao dia de partir para São Tomé com os Leigos para o Desenvolvimento, Missão era uma palavra com algum mistério. Havia sempre algo de incerto associado ao trabalho, dia a dia e lugares de missão.

Percebi que o Senhor me chamava a partir, mesmo, sem ser tudo claro.

Esta incerteza do dia a dia de missão que me esperava, leva-me a partilhar convosco o que tem sido para mim missionar.

Foi me confiada a Comunidade LD, a Comunidade do Bairro da Boa Morte e o bonito projeto Bairro Limpo. Estas são para mim 3 formas concretas a que fui chamada a Missionar.

A COMUNIDADE LD

Fui enviada a missionar e em missão com mais 5 raparigas. Somos uma comunidade de 6 pessoas. Cuidamos umas das outras e deixamo-nos ser cuidadas. Fomos enviadas a estar juntas.

Partilhar as refeições à luz das velas, é Missionar!
Rezar juntas, é Missionar!
Acompanhar os projetos umas das outras, é Missionar!
Descansar e passear à segunda feira pela ilha fora, é Missionar!
Dançar uns belos Kizombas juntas, é Missionar!
Ir ao Mercado e preparar a ementa da semana, é Missionar!
Tomar uns belos banhos de caneco, é Missionar!
Partilhar o caminho desde casa até ao Bairro da Boa Morte, é Missionar!
Saborear acompanhada o silêncio e a beleza esmagadora da Ilha de São Tomé, é Missionar!

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A COMUNIDADE DO BAIRRO DA BOA MORTE

A comunidade da Boa Morte são as pessoas que vivem no bairro onde os projetos dos LD são desenvolvidos.
Fui chamada a missionar para o desenvolvimento desta comunidade concreta.
Fui chamada a viver e partilhar a minha vida com estas pessoas.

Cumprimentar as pessoas por onde passo diariamente na Boa Morte, é Missionar!
Partilhar refeições, entrar em casa das pessoas e conhecer as suas histórias e famílias, é Missionar!
Ajudar a carregar água, ou simplesmente ver as mulheres e mães a escamar peixe ou lavar roupa, é Missionar!
Comprar frutos e legumes numa banca da rua, é Missionar!
Falar de Jesus, e participar na missa da Boa Morte, é Missionar!
Perder-me nas horas a ser criança com as crianças deliciosas que aqui vivem, é Missionar!
Simplesmente estar, ouvir e fazer companhia, é Missionar!

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O PROJETO BAIRRO LIMPO

O Bairro Limpo, em forro Luxan Nón Limpo, é o meu trabalho em missão. É o projeto que estou a acompanhar, que oferece uma solução para o problema do lixo que existe em São Tomé. Aqui, o lixo espalha-se pelas ruas, é impressionante. Estamos a implementar um modelo de recolha de resíduos sólidos e urbanos, que inclui caixotes pelo bairro, um serviço de recolha do lixo porta a porta e a promoção da compostagem doméstica.

Acompanhar a recolha do lixo porta a porta, é Missionar!
Sentar-me num tosco banco de madeira no quintal de um dos elementos do grupo, em reunião com a equipa do Bairro Limpo, é Missionar!
Passar a manhã na oficina do Senhor Gervásio, o mecânico do Bairro Limpo, é Missionar!
Colocar mais um caixote na estrada principal da Boa Morte, é Missionar!
Sentar-me ao computador para sonhar e avaliar o projeto em relatório, é Missionar!
Estar, ouvir, visitar e acompanhar as pessoas com quem trabalho, é Missionar!
Esperar por qualquer compromisso, acompanhada por quem aparecer, é Missionar!

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Viver em missão, tem sido ser convidada a viver com um olhar e um coração disponível para estar, ouvir, cuidar, trazer alegria e esperança a cada pessoa com quem me encontro.
Viver em missão tem sido fazer o exercício de me abandonar, e abandonar o controlo do meu próprio tempo.
Este abandono do tempo abre espaço para os verbos “estar” e “esperar” serem vividos.
“Estar e esperar” abre espaço para o encontro e para a providência.

Aos poucos o incerto da Missão ganha o valor de certo.

Estou a descobrir que Missão se assemelha a Encontro.

Francisca Aguiar
São Tomé e Príncipe, 2021-2022