No princípio era assim

«No princípio»… é assim que começa. Foi assim há sei-lá-quanto-tempo, quando Deus decidiu criar o mundo, o céu e a terra, a luz, o dia e a noite, o sol e a lua. (...)

«No princípio»… é assim que começa. Foi assim há sei-lá-quanto-tempo, quando Deus decidiu criar o mundo, o céu e a terra, a luz, o dia e a noite, o sol e a lua. Foi assim há dois mil anos, quando decidiu encarnar para nos salvar, quando viveu e comeu com os Seus amigos, quando morreu na cruz e ressuscitou. Foi assim em 1996 quando Se decidiu a criar os Gambozinos. «No princípio». Tal e qual. Porque haveria de ser diferente? Afinal, ser Gambozino é ser como Jesus – é morrer um bocadinho cada dia, é dar a vida, é tê-la nova.

 

É certo para todos os que são ou foram (pode deixar de se ser?) Gambozinos, que sê-lo é uma travessia. No princípio, pelo menos, custa horrores passar dez dias longe de casa. No princípio, pelo menos, a sujidade é uma chatice. No princípio, pelo menos, ser Gambozino dá cabo de nós – mata-nos.

 

O que tem ser Gambozino a ver com a Páscoa? Tudo.

 

É que começa assim mesmo! No princípio é preciso morrer. É preciso ser escravo no Egipto, como o povo Judeu. É preciso sair de casa, sair da tenda, e caminhar. Lá vem a peregrinação… Há que atravessar o mar vermelho. Há que atravessar Braga, Peniche e o Pragal. Há que atravessar Porto e Lisboa! Não chega. Há que atravessar o resto do mundo! Sabes, é isso mesmo que significa “Páscoa” – passagem. Há que passar por aquela fase tímida em que não sei onde me vim meter; há que atravessar os meus medos; há que cruzar o que nunca imaginei ser capaz. A única coisa que não podemos passar é mesmo pelo meio da roda.

É que, quando as mulheres foram ver o sepulcro, a roda que o fechava tinha rolado. E rolaram os BDSs, rolaram os Boas-Noites, rolaram as missas… No princípio, quando chegaste aos Gambozinos, havia uma porta fechada, uma tenda desconfortável, um aplauso ridículo que nunca irias fazer. Aí, no princípio, havia um mar entre ti e aquele outro animado que vem de uma realidade monstruosamente diferente. Mas isso, sei bem, foi só no princípio.

 

Onde é que eu ia? Ah!, sim, a roda rolou. Mas que volta a vida deu! A porta abriu-se. Talvez tenhas feito companhia a Maria Madalena e ficado a chorar à porta. Talvez tenha sido num sketch que viste Jesus vestido de jardineiro, ou talvez tenhas visto um anjo nos jogos da lama – vestido com uma «túnica branca» – que te contou tudo: o Senhor Ressuscitou! Aleluia! «Gambozino, porque choras»? Afinal, quem nunca chorou? Dizem que um homem não chora… isso é até Jesus nos falar. Depois disso, não somos mais homens nem mulheres, crianças nem adultos, animados nem animadores, PBPs nem LPRs… chegados ao ponto em que Jesus nos olha – a nós, particularmente, intensamente, docemente – já não há eu. Aí podemos chorar. Mas Ele, esse Deus tão bom que nos entrou pelo bairro adentro, que nos entrou pela vida adentro, que nos entrou pelo coração adentro… esse Deus que nos ensinou a chorar.. não nos deixa a chorar. Disse e repete: «Gambozino, porque choras»? E, quando não Lhe conseguimos responder, traz-nos chá e bolachas, um abraço, um sorriso, a Sua presença.

 

No princípio – vá, talvez durante – talvez até ao fim – é preciso morrer. A porta aberta mostra um túmulo vazio. Afinal, o que procuravas? Quem sabe seja essa a grande travessia, a grande páscoa: procurar algo diferente. Daí em diante, a vida é diferente. «Doravante, serás pescador de homens». Acabou o Campo; acabou o Dia-Fixe; acabou o Louco. E agora?

 

Sorri! Não é só uma nova vida, um recomeçar. É uma vida nova, um recriar. No princípio… Isto é a Páscoa.

O que é que isto tem a ver com os Gambozinos? Não sei, diz-me tu.

 

Gonçalo Costa, SJ