Na minha primeira atividade de Gambozinos, num momento cultural, perguntaram: “Quais são os pilares dos Gambozinos?” Eu, com 10 anos e meio metro de altura, pensei: “Pilares? Daqueles que seguram telhados?” Passei a viagem inteira de volta a Lisboa a tentar perceber como é que “Natureza, Amizade, Deus e Serviço” se encaixavam nisso.

Anos depois, percebi que era uma metáfora, e fez sentido: os pilares são aquilo em que nos erguemos. São a estrutura invisível que nos mantém de pé quando tudo à volta parece instável.

No meu primeiro mini-campo, em 2019 (o lendário Mega Oeste), comecei a confiar que talvez valesse a pena fazer amigos de campo, nem que fosse só por aquela semana. No campo de verão desse ano, adoeci e culpei a natureza (falta de higiene, claro). Mas percebi, entre banhos de rio e lama até aos joelhos, que ela era mesmo essencial.

De Deus fui percebendo aos poucos, missa após missa, campo após campo. Mas foi no verão de 2023, nas Jornadas Mundiais da Juventude, que me senti abalada por um amor maior. Um amor que não se explica, sente-se. Faltava-me, no entanto, perceber o tal Serviço. Sabia que era um dos pilares. Sabia que me dava direito a um Chocodu quando o anunciava. Mas o que era, de verdade?

Este ano, no meu último campo de verão como animada, que, por não acaso, é um Campo de Serviço, finalmente percebi.
Durante sete dias, mais do que entregar-me a atividades, entreguei-me aos outros. Construímos tendas (que não é para fracos), escavámos latrinas, improvisámos cozinhas e planeámos dias para os outros. E percebi que, ao contrário dos outros Gs, aqui a magia não vem só da entrega de animadores aos animados, vem da entrega de todos para todos.

Neste campo não há programa pronto, não há cenário montado. Chegamos ao meio do nada, sem luxos (sem ser as clássicas bolachas Maria) e, de mãos dadas, decidimos onde fica o quê, o que precisa de melhorar, como podemos viver melhor o campo. Até escavar uma latrina se torna um ato de amor, porque sabemos que quem vier a seguir vai precisar dela. E sim, por mais frustrante que seja carregar 20 vezes a mesma tábua para o Baltazar partir uma delas a fazer aplausos, sabemos que esse esforço constrói refeições, momentos, memórias.

A diferença está na disponibilidade: a capacidade de colocar o querer dos outros à frente do nosso. E isso, quando se vive com verdade, transforma tudo.

Mais do que em qualquer outro campo, há uma relação de quase-iguais entre animadores e animados. Os mais velhos tornam-se espelho e abrigo. E é nessa proximidade que descobrimos que ser animador é ser servidor, aquele que prepara a bolacha antes de deitar, que garante que o grito é épico, mas que também verifica se o português faz sentido (spoiler: “posso bolacha” não é uma frase).

Jesus veio ao mundo “não para ser servido, mas para servir” (Mt 20, 28). E talvez seja isso que levamos para casa, mesmo sem latrinas para escavar ou lonas para montar: o desejo de amar como Ele amou, com humildade, alegria e entrega. No meio da correria do dia-a-dia, esse desejo é o que nos mantém Gambozinos de verdade.

 

Maria Luísa Alvarenga