Três Décadas a Construir o Reino: Dos Gambozinos para o Mundo

Três Décadas a Construir o Reino: Dos Gambozinos para o Mundo

No dia 3 de agosto de 2023 o Papa Francisco chegava ao Parque Eduardo VII para as Jornadas Mundias da Juventude e o Campo de Gambozinos III, juntamente com o Campo de Serviço. O Papa partira de Roma e os Gambozinos? De Lisboa, Porto, Braga, Pragal ou Peniche? Bem, sim, mas muito mais do que isso. Os Gambozinos (participantes do campo) partiram do pedaço do Reino que tinham construído, nos últimos 4 dias, no meio da Azambuja! Pelo menos foi esta a resposta que um dos participantes do campo deu, ao ser entrevistado em direto para a CNN. “De onde é que vocês vieram?”- perguntou o repórter, “Viemos dos Gambozinos”- respondeu o participante, sem hesitar. 

Sair do campo e ir para o meio das Jornadas foi uma experiência única e irrepetível. Imaginem lá bem, o que seria acordarem de manhã na vossa tenda e pensarem: “Hoje vou ver o Papa!” Nem os imaginários de campo mais criativos ambicionam tanto. Somos mesmo loucos da cabeça, porque de facto o que fizemos foi uma grande loucura – pegar em quarenta miúdos e levá-los para o meio de um milhão e quinhentas mil pessoas não foi tarefa fácil, mas valeu todo o esforço. Fomos parte da enorme onda de alegria que se vivia em Lisboa, nos transportes, nas estações, nos parques e jardins havia sempre um aplauso para ensinar, uma música para cantar, ou uma dança para animar. No meio da multidão éramos guiados por uma cana de pesca com uma bandeira de Portugal e outra da GBZ.  Tudo aquilo era tão novo, tão surreal, mas tão familiar ao mesmo tempo, tão gambozínico. A cada palavra do Papa Francisco a nossa missão era confirmada e o nosso espírito ganhava novo alento, para fazer aquilo que Jesus nos pediu, e que o Papa nos recordava: “amar o próximo”, que é uma boa maneira de descrever a essência dos Gambozinos. 

Ora acordávamos com o “Sai da Tenda”, ora com o beat do Padre Guilherme, ora escutávamos o capelinho no BDS, ora escutávamos o Papa Francisco, ora jogávamos “Tens Mira” ora adormeciamos após (durante) a vigília, ora latrinávamos, ora esperavámos meia hora para usar uma casa de banho portátil. Foi assim a vida durante aquela semana, muitas horas de espera, muito suor, mesmo muito suor (esteve um calor infernal), muitas emoções, muitas pulseiras e brindes, mas sobretudo um coração muito cheio e memórias que ficarão para sempre.

Foi nas Jornadas Mundiais das Juventude, e nos Gambozinos, que eu percebi que a alegria mais autêntica e o amor mais verdadeiro nascem do encontro. Encontramo-nos nos 30 Anos?

António Lima

Fazer Crescer a Missão: Os Gambozinos no Coração de Coimbra

Fazer Crescer a Missão: Os Gambozinos no Coração de Coimbra

Depois de um Viver a Agradecer que nos deixou a todos encantados, arrancámos em setembro com os preparativos das atividades mensais no Planalto do Ingote. Uma das prioridades que estabelecemos para este ano, foi a de conhecer melhor o bairro do Ingote e as suas necessidades, ao mesmo tempo que dávamos a conhecer os Gambozinos às suas familias.

Os Gambozinos chegaram ao Ingote para ser mais do que uma atividade no calendário. Queremos ser um espaço seguro. É ali, naquele lugar de encontro, que crianças do Bairro da Rosa, do Bairro António Sérgio e do Bairro do Ingote se juntam para mais do que brincarem, construirem ligações. O que mais nos impressiona é ver o crescimento do sentido de pertença. Eles já não vêm só “participar”; vêm porque sentem que aquele espaço também é deles. Nota-se na forma como chegam, na vontade contagiante com que aparecem ou nas mensagens que nos mandam entre atividades.

Com o passar dos meses, o bairro tem-se tornado cada vez mais “casa”, também para nós animadores. Não só porque vamos descobrindo melhor os seus cantos, mas sobretudo pelas caras que revemos nas ruas e pelas relações que se vão construindo. Aquilo que antes era estranho, hoje começa a ser familiar. É particularmente bonito perceber que não são apenas os miúdos que se alegram ao ver-nos, também as famílias se têm mostrado recetivas, próximas e curiosas, acolhendo-nos de uma forma que nos faz sentir verdadeiramente bem-vindos.

Há uma sensação de realização que nasce das pequenas coisas: um sorriso, uma participação inesperada, um miúdo que já chega confiante, ou uma mensagem de uma avó a agradecer a alegria que temos trazido à sua neta. São sinais simples, mas que mostram que estamos a semear algo com sentido.

Pessoalmente, este projeto de expansão dos gambozinos tem um significado muito especial. Os Gambozinos dizem-me muito, por tudo o que já me deram, pelo caminho que me ajudaram a fazer e pela pessoa que me ensinam a ser. Tenho agora a oportunidade de fazer parte desta expansão, e fazê-lo precisamente em Coimbra, a cidade onde nasci, torna tudo isto ainda mais especial. É como se, de alguma forma, pudesse devolver um bocadinho daquilo que recebi, tanto aos Gambozinos como à cidade de Coimbra.

Matilde Roque

GEMA: Onde o “Bom” ganha sentido

GEMA: Onde o “Bom” ganha sentido

Bom. Normalmente dizemos que uma coisa é boa quando não sabemos muito bem o que dizer dela, mas uma vez um jesuíta usou “bom” para descrever alguma coisa onde sou por inteiro, onde descanso e sou livre, onde estou e não podia não estar. É este “bom” que tem sido, para mim, este ano de GEMA, o SAGA e os Gambozinos em geral.

Ao longo deste ano, acho que o mais importante tem sido aprender a deixar-me surpreender, ou seja, não achar que já sei tudo nem ter grandes expectativas, mas aproveitar o que vier, seja nos amigos que já tinha ou nos que fui conhecendo melhor, nos animadores, nos BDS, nos jogos… E isso mudou muito a forma como tenho vivido tudo.

Começámos este ano de GEMA com três objetivos: ser “uno”, ser louco e encontrar a luz e sair do templo.

Este ser “uno” tem passado muito pelo grupo, que é cada vez mais um grupo de amigos mais unido, onde podemos ser nós próprios. Amigos que me ajudam a viver de forma mais leve, a não complicar demasiado as coisas, e a viver na verdade, focando-me no essencial e ajudando-me a encontrar Deus nas coisas mais pequenas. E acho que é muito por termos um grupo assim que consigo viver melhor os outros dois objetivos.

Ser louco tem sido não me levar demasiado a sério, aproveitar este último ano como animada, poder ser eu sem estar sempre preocupada com o que pensam ou em fazer tudo bem.

No fundo, este ano tem sido muito isto: encontrar a luz, a alegria, e perceber que, se encontro esta luz, se algo é mesmo bom, então é muito pouco guardá-lo só para mim. E que, por isso, depois de encontrar a luz, é preciso sair do templo. E acho que é aqui que tenho vindo a perceber melhor a vocação de ser animadora, porque, na prática, é isto que é sair do templo, é depois deste tempo tão bom que foi ser animada, deixar de ser só para mim e dar aos outros, mesmo sem saber tudo, ir com esses “medos” e, de alguma forma, transformá-los em alguma coisa boa.

Laura Muragi

 

30 anos Gambozinos

30 anos Gambozinos

Tudo começou há trinta anos. O que nasceu como uns acampamentos de amigos cresceu, transformou-se e, sob o impulso do sonho de derrubar barreiras sociais e criar encontros improváveis, tornou-se nos Gambozinos.

Agora é tempo de celebrar tanto bem recebido! Queremos toda a família gambozínica junta nos dias 25, 26 e 27 de setembro.
Inscreve-te já e ajuda-nos a chegar a toda a gente que faz parte desta história!

 

Escolhas em Cristo, 30 anos de Gambozinos

Escolhas em Cristo, 30 anos de Gambozinos

Todas as escolhas nos colocam numa determinada direção, e todas se orientam para um fim. As maiores e as mais pequenas. A minha passagem pelos gambozinos (passagem não é o termo certo porque não “passou”, mas é um caminho contínuo, conjunto, em peregrinação, diria!) foi o resultado de pequenas (grandes) escolhas, feitas ao longo do tempo. E o que há em comum em todas elas é o facto de terem sido tomadas lado a lado com Jesus (esse grande Gambozino!), e também o facto de terem sido norteadas pelo Bem Maior… que muitas vezes não adivinhamos qual vai ser.

E com “escolhas” não digo um retiro de silêncio de 3 dias, em que peso os prós e os contras com tempo e calma, pensando também no racional e emocional envolvidos. A Escolha pode ter sido uma conversa que decidi ter, um conselho que segui, uma missa a que fui, uma voz que me interpelou e decidi aprofundar, uma alegria contagiante que me chegou… Imagino que Deus nos vai olhando com ternura em todas estas escolhas, e com a Sua mão generosa nos vai encaminhando e sorrindo.

Esta escolha pelo Magis, como nos propõe Santo Inácio, é a decisão honesta de procurar Deus, que nos quer exatamente assim, e que nos diz que somos amados incondicionalmente, com todos os nossos talentos e com a falta de tantos outros. Através dos Gambozinos, Deus diz-nos (muitas vezes de maneira cómica, simples, dramática ou comovente) – é possível! Preciso de Ti assim! Olha à tua volta, olha para cima, olha para fora, e olha para o lado (mesmo ao lado, tão perto que é quase desconfortável…)!
Os Gambozinos falam de Deus, são voz de Deus. E fazem-nos sempre sair. Sair de casa, sair do confortável, sair em direção a outro, em direção ao mais profundo de nós próprios, longe das nossas certezas e seguranças.

Os Gambozinos foram, e são, uma escolha. O resultado de várias escolhas. Das maiores, e mais bonitas que podia ter feito. Novembro é o mês das inscrições de novos sócios na associação, e todos os anos me detenho algum tempo e penso com carinho em famílias e pessoas concretas a quem imagino que esta escolha (inscrever ou não, arriscar ou não, aprofundar ou não, desejar ou não) poderia ser importante.

E depois do texto, convido a ouvir este novo single dos Capitão Fausto:

 

Amelia Souto Moura

Natureza, Amizade, Deus e SERVIÇO

Natureza, Amizade, Deus e SERVIÇO

Na minha primeira atividade de Gambozinos, num momento cultural, perguntaram: “Quais são os pilares dos Gambozinos?” Eu, com 10 anos e meio metro de altura, pensei: “Pilares? Daqueles que seguram telhados?” Passei a viagem inteira de volta a Lisboa a tentar perceber como é que “Natureza, Amizade, Deus e Serviço” se encaixavam nisso.

Anos depois, percebi que era uma metáfora, e fez sentido: os pilares são aquilo em que nos erguemos. São a estrutura invisível que nos mantém de pé quando tudo à volta parece instável.

No meu primeiro mini-campo, em 2019 (o lendário Mega Oeste), comecei a confiar que talvez valesse a pena fazer amigos de campo, nem que fosse só por aquela semana. No campo de verão desse ano, adoeci e culpei a natureza (falta de higiene, claro). Mas percebi, entre banhos de rio e lama até aos joelhos, que ela era mesmo essencial.

De Deus fui percebendo aos poucos, missa após missa, campo após campo. Mas foi no verão de 2023, nas Jornadas Mundiais da Juventude, que me senti abalada por um amor maior. Um amor que não se explica, sente-se. Faltava-me, no entanto, perceber o tal Serviço. Sabia que era um dos pilares. Sabia que me dava direito a um Chocodu quando o anunciava. Mas o que era, de verdade?

Este ano, no meu último campo de verão como animada, que, por não acaso, é um Campo de Serviço, finalmente percebi.
Durante sete dias, mais do que entregar-me a atividades, entreguei-me aos outros. Construímos tendas (que não é para fracos), escavámos latrinas, improvisámos cozinhas e planeámos dias para os outros. E percebi que, ao contrário dos outros Gs, aqui a magia não vem só da entrega de animadores aos animados, vem da entrega de todos para todos.

Neste campo não há programa pronto, não há cenário montado. Chegamos ao meio do nada, sem luxos (sem ser as clássicas bolachas Maria) e, de mãos dadas, decidimos onde fica o quê, o que precisa de melhorar, como podemos viver melhor o campo. Até escavar uma latrina se torna um ato de amor, porque sabemos que quem vier a seguir vai precisar dela. E sim, por mais frustrante que seja carregar 20 vezes a mesma tábua para o Baltazar partir uma delas a fazer aplausos, sabemos que esse esforço constrói refeições, momentos, memórias.

A diferença está na disponibilidade: a capacidade de colocar o querer dos outros à frente do nosso. E isso, quando se vive com verdade, transforma tudo.

Mais do que em qualquer outro campo, há uma relação de quase-iguais entre animadores e animados. Os mais velhos tornam-se espelho e abrigo. E é nessa proximidade que descobrimos que ser animador é ser servidor, aquele que prepara a bolacha antes de deitar, que garante que o grito é épico, mas que também verifica se o português faz sentido (spoiler: “posso bolacha” não é uma frase).

Jesus veio ao mundo “não para ser servido, mas para servir” (Mt 20, 28). E talvez seja isso que levamos para casa, mesmo sem latrinas para escavar ou lonas para montar: o desejo de amar como Ele amou, com humildade, alegria e entrega. No meio da correria do dia-a-dia, esse desejo é o que nos mantém Gambozinos de verdade.

 

Maria Luísa Alvarenga