Dois inimigos (ou enganos) subtis

Uma análise aos perigos enunciados pelo Papa Francisco na Exortação Apostólica "Gaudete et Exsultate", publicada em março.

Uma análise aos perigos enunciados pelo Papa Francisco na Exortação Apostólica "Gaudete et Exsultate", publicada em março.

Os caminhos de santidade correm perigo. E a cada época seu perigo.

O Para Francisco denuncia (cap. II) duas falsificações da santidade. Sob um formato mais moderno, encontramos um gnosticismo e um pelagianismo. Essas duas heresias dos primeiros séculos do cristianismo têm, hoje, “uma alarmante actualidade”. Vale a pena observar criticamente estes desvios, presentes até no interior da Igreja, pois, além dos simpatizantes atraídos pela aparência de santidade, têm os seus mentores e a sua organização.

Neo-gnosticismo

Um neo-gnosticismo. A palavra grega gnose significa conhecimento, elaboração mental sobre a realidade e os acontecimentos. O gnosticismo indica uma corrente de pensamento que se acha dona da verdade, através das experiências iluminantes da razão e do sentimento, tudo interpretando, desligando-se da realidade concreta, com um certo “horror à carne”. Vão nessa linha os que caem numa compreensão da fé e da sua vivência, fechada num subjectivismo puritano. Trocam a caridade e o sujar das mãos pelo acumular de experiências e conhecimentos, de leituras simbólicas, mais ou menos esotéricas, da captação de energias e busca de pacificação e equilíbrio formal, em rituais mais ou menos orientalistas, sincretistas, ao encontro de “um Deus sem Cristo, de um Cristo sem Igreja, uma Igreja sem povo” (n.37), fugindo da carne sofredora. De facto, a heresia do gnosticismo cristão dos primeiros séculos, sob influência da filosofia grega mais platónica, explicam tudo e podem chegar a crer num Jesus mais divino, mas a sua humanidade e a sua incarnação seriam aparentes.

Pode acontecer hoje que esse tipo de refúgio espiritualista se confunda com um caminho de santidade na Igreja, suportado por uma “teologia” e um ensino mais levado por racionalismos, pelos simbolismos, “domesticando o mistério”, do que pelo discernimento do Espírito de amor, de justiça e de verdade.

O perigo maior é que se criem grupos elitistas que pretendam oferecer, e até impor, uma via mais segura, mais limpa, a da sua “ideologia”. Perigoso caminho de autossatisfação, tentação de trocar a paz pelo bem-estar, o amor pelo saber.

O perigo maior é que se criem grupos elitistas que pretendam oferecer, e até impor, uma via mais segura, mais limpa, a da sua “ideologia”. Perigoso caminho de autossatisfação, tentação de trocar a paz pelo bem-estar, o amor pelo saber.

P. Vasco Pinto de Magalhães, sj

Neo-pelagianismo

Mas há também o perigo de um neo-pelagianismo. Pelágio foi um monge que nos inícios do século V veio das Ilhas Britânicas (não se sabe bem de onde) para o sul da Europa e difundiu um perigoso espiritualismo. Em fórmula breve, pode dizer-se que o poder que os gnósticos atribuem à inteligência, os pelagianos atribuem-no à vontade. Pelágio, de algum modo, nega a nossa condição de pecadores, desvaloriza a graça de Deus e a misericórdia e propõe um cristianismo a pulso, apoiado na segurança dos seus rituais e liturgias, das práticas religiosas e do cumprimento das normas. Assim também os neo-pelagianos se apresentam como uma elite de fiéis: os que testemunham a sua superioridade pela “ortodoxia” do cumprimento das leis e das suas tradições. No seu rigor, em actos de piedade e “sacrifícios” pretendem resistir a este mundo que consideram decadente, relativista e subjectivo. Caem assim num tradicionalismo sem misericórdia nem pensamento crítico.

O novo pelagianismo (diz o Papa no n.57), “manifesta-se em muitas atitudes aparentemente diferentes entre si: a obsessão pela lei, o fascínio de exibir conquistas sociais e políticas, a ostentação no cuidado da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, da vanglória ligada à gestão de assuntos práticos, a atração pelas dinâmicas de autoajuda e realização autorreferencial.”

A Igreja, seguindo o Novo Testamento, sempre ensinou que não somos justificados pelas nossas obras ou pelos nossos esforços, mas pela graça do Senhor que toma a iniciativa. Mais uma vez o que fica de fora, ou é esquecido, é a graça e o próprio Cristo. Mas, como disse o Concílio de Orange (sec. VI), ao condenar uma forma mais mitigada desta heresia, o semi-pelagianismo: “até o desejo de ser puro se realiza em nós por infusão do Espírito Santo e com a sua acção sobre nós”(n.53)

A Igreja, seguindo o Novo Testamento, sempre ensinou que não somos justificados pelas nossas obras ou pelos nossos esforços, mas pela graça do Senhor que toma a iniciativa.

P. Vasco Pinto de Magalhães, sj

O que há de comum nestes dois inimigos?

Diz o Papa Francisco: “Aparece expresso um imanentismo antropocêntrico, disfarçado de verdade católica. Estas duas formas de segurança doutrinária ou disciplinar, dão origem a um elitismo narcisista e autoritário, onde, em vez de evangelizar, se analisam e classificam os demais e, em vez de facilitar o acesso à graça, consomem-se as energias a controlar. Em ambos casos, nem Jesus Cristo nem os outros interessam verdadeiramente”. (n.35)

Nota: Este texto é um excerto de um artigo que será publicado na sua versão integral na edição de julho da revista Brotéria, intitulado “A Santidade, a Alegria e o seus enganos”

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.