Os seios de Deus ou em busca de um Deus escondido

Quem é, como é e como se mostra Deus, afinal? Vampire Weekend, Élie Wiesel e uma interpretação surpreendente dos rabinos.

Quem é, como é e como se mostra Deus, afinal? Vampire Weekend, Élie Wiesel e uma interpretação surpreendente dos rabinos.

1. Como mel para a boca

Vampire Weekend, grupo de rock americano, faz uma repreensão a Deus na música Ya Hey: «nem através das chamas nem do fogo ousas dizer o teu nome». É feita aqui uma referência ao episódio narrado no livro do Êxodo (capítulo 3), da sarça que ardia sem ser consumida pelas chamas, no qual Deus fala a Moisés e este lhe pergunta qual é o seu nome.

Esta música descreve um Deus longínquo que parece ausente, mas esta não é propriamente a opinião dos rabinos, como comprovaremos aqui…


2. Um texto bíblico

No Livro do Génesis, Jacob abençoa o seu filho José, chamando a Deus El Shaddaï, termo cujo sentido estudaremos mais abaixo.

«Graças ao Deus de teu pai, que será o teu apoio,
e o Deus supremo, que será a tua bênção,
com as bênçãos superiores do céu,
com as bênçãos subterrâneas do abismo,
com as bênçãos dos seios e das entranhas!
As bênçãos de teu pai,
sobrepujando as dos meus antepassados,
atingem os limites das montanhas eternas;
e cumprir-se-ão sobre a cabeça de José,
sobre a fronte do eleito entre os seus irmãos!»

Génesis 49, 25-26


3. O esclarecimento

I «Shaddaï»: um Deus que abençoa, alimentando. |

O que significa Shaddaï, um dos nomes atribuídos a Deus no Antigo Testamento?

  • Shaddaï significa muitas coisas, segundo os especialistas, como por exemplo “aquele que vive na montanha ou no campo” ou ainda “aquele que nutre”… O que nos faz lembrar de uma evidência: não podemos encerrar Deus em apenas uma palavra ou um sentido.
  • Constatação ainda mais significativa — em hebreu, muito literalmente, a palavra Shaddaï significa “meus seios”:

shad = «seio» de uma mulher +  i final = «meu, meus»

Não é por acaso que a atribuição a Deus do nome Shaddaï surge em contextos de benção e de prosperidade material: tal como o recém-nascido bebe o leite dos seios de sua mãe, também o homem abençoado deve ser alimentado pela bondade divina.

…Mas há mais, como se verá já a seguir!!

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Govert Flinck (1615-1660), Isaac abençoando Jacob (óleo sobre tela, 1638), Rijksmuseum, Amsterdão, Países Baixos.

(Na impossibilidade de apresentar um quadro de Jacob a abençoar José – com referência ao texto bíblico – apresentamos o quadro de Jacob a ser abençoado pelo seu pai, Isaac.)

| A interpretação genial dos rabinos |

Quando interpretam a atribuição de Shaddaï a Deus, os rabinos não querem reduzir os seios de Deus à sua mera função de alimentação… Eles vêem-nos como um símbolo concreto que Deus usa para se revelar.

Na verdade, os rabinos dizem que Deus se nos revela como… a silhueta de um peito feminino que transparece por debaixo da roupa!  Isto é: pode ver-se a forma dos seios através do tecido, mas estes permanecem invisíveis.

  • Para estudar mais aprofundadamente as vias pelas quais os rabinos chegaram a tal interpretação, pode ler-se com proveito o Talmude da Babilónia, no tratado Yoma, secção 54a (nós lemos em inglês aqui).

Ora, esta é uma excelente metáfora para falar de um Deus que ao mesmo tempo se nos REVELA (= se nos mostra) e se nos RE-VELA (= volta a esconder-se).

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Sébastien Bourdon (1642-1645), Moisés e a sarça ardente, óleo sobre tela, 136 x 106 cm, São Petersburgo, © Hermitage museum

| Um Deus que joga às escondidas |

Deus esconde-se realmente. Poucos são aqueles que têm provas objetivas da sua existência e até as escrituras vão no sentido do Deus que brinca às escondidas com os seus profetas. E mesmo quando se revela plenamente visível em Jesus Cristo, é como se Deus nos perguntasse:

“Quem dizem os homens que Eu sou?”
(Marcos 8, 27-28)

Conclusão: O Deus que se revela nas Santas Escrituras nunca nos força, nunca se nos impõe. Ele atrai-nos por indícios, visível-invisível, como fazem os seios de uma mulher debaixo da roupa.


4. Uma palavra final 

Partilhamos um excerto que nos emocionou:

«O neto de Rabbi Baroukh, Yéhiel, desfaz-se em lágrimas no seu quarto.
— Yéhiel, Yéhiel, porquê essas lágrimas?
— O meu amigo é batoteiro, não é justo avô, não é justo um amigo fazer batota!
— Mas, o que é que o teu amigo fez afinal?
— Nós estávamos a brincar às escondidas. Escondi-me tão bem que ele não conseguiu encontrar-me; então, ele parou de brincar, parou de me procurar. Percebes, avô? Eu escondi-me dele e ele parou de me procurar, não é justo!
Rabbi Baroukh, transtornado, afaga a cabeça do rapaz, e as lágrimas escorrem-lhe pelos olhos:
— Deus também, Yéhiel, murmura ele, Deus também está infeliz. Ele esconde-se e o homem não o procura. Percebes, meu querido Yéhiel? Deus esconde-se e o homem nem se dá ao trabalho de O procurar

Elie Wiesel, Contre la mélancolie, Célébration hassidique,
Paris : Seuil, 2014

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.


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