Desintoxicação e cuidado do coração

Quanto bastará para termos o necessário? Poderemos guardar no coração o desejo de renunciar ao supérfluo para viver só do necessário? Estas foram questões deixadas pelo P. Provincial no Fé e Cultura.

Quanto bastará para termos o necessário? Poderemos guardar no coração o desejo de renunciar ao supérfluo para viver só do necessário? Estas foram questões deixadas pelo P. Provincial no Fé e Cultura.

1. Para guardar no coração o que for mais preciso e precioso

Regista a apresentação desta 28ª edição do Fé e Cultura que «chegam até nós dados, relatos e evidências de um mundo intoxicado», de modo que «a toxicidade está presente em vários graus e em muitas dimensões das nossas vidas: afecta o planeta que habitamos, as construções sociais em que nos movimentamos, as relações que estabelecemos». Como antídoto, somos convidados para este dia de conversas – possivelmente, seria mais desintoxicante um dia de silêncio. Espera-se que sejam conversas para desintoxicar, em três actos: 1. Centrar; 2. Consertar; 3. Concentrar. Propõe-se «ajudar a focar no essencial, a conhecer exemplos práticos de como descomplicar, promover a dimensão espiritual da vida e ir ao encontro da nossa verdadeira identidade para guardar no coração o que for, de facto, preci(o)so». Por fim, promete fazer-nos «sair de alma lavada», – grande promessa, esta, e muito arriscada. Irá a organização restituir o valor da inscrição a quem não ficar totalmente satisfeito com a prometida lavagem da alma? No final do dia, diremos uns aos outros se saímos com o coração mais vazio do supérfluo, que é sempre o que está a mais e não serve para nada, excepto para pesar e atar o coração, e mais cheios do essencial, aquele necessário sem o qual não vivemos bem.

2. Querer menos sem deixar nada do que está a mais

Desintoxicar é um desejo bom e necessário, para nós que, de facto, vivemos tão intoxicados, tão cheios, tão saturados, tão sôfregos, tão dispersos. E, tantas vezes, tão vazios. No Ocidente, o desejo de menos será consequência de termos demasiado: demasiada comida, demasiada informação, demasiadas experiências, demasiado divertimento, demasiadas possibilidades, demasiada sofisticação. Por isso, mesmo este desejo de desintoxicação pode revelar-se ambíguo. Se o desejo de menos caminha junto com a indisponibilidade para deixar o que quer que seja, colocar a questão da desintoxicação pode ser, ela mesmo, sinal de toxidade. Efetivamente, queremos light, mas com o prazer fácil do fastfood; queremos sem açúcar, mas continuando a beber refrigerantes; queremos sem gordura, mas continuando a comer batatas fritas; queremos saborear, mas de modo imediato e intenso – vale para a vida espiritual e para a liturgia, como para a música e a literatura; queremos uma vida mais simples, mas sem deixar qualquer comodidade. Queremos sol na eira, mas com chuva no nabal.

No Ocidente, o desejo de menos será consequência de termos demasiado: demasiada comida, demasiada informação, demasiadas experiências, demasiado divertimento, demasiadas possibilidades, demasiada sofisticação

3. Quem quiser ganhar há-de perder

No entanto, como diz o Evangelho de Jesus, ‘quem quiser ganhar, há de perder’. Um jogo difícil de jogar, com regras dificilmente aceitáveis. Mas não estará aqui a chave mestra da arte de viver bem – querer menos, apenas o necessário e não mais do que o necessário, dispensando o supérfluo, para viver melhor?

4. As contradições do jogo democrático, económico, publicitário

Convém que tenhamos presentes as nossas contradições, de homens e mulheres de hoje.

Refazendo-me à análise do filósofo e teólogo Elmar Salmann[1], compreendemo-nos intimamente como pessoas democráticas. Vivemos em contínuo movimento e em permanente comunicação; somos emancipados e autónomos, plurais e multifacetados, sensíveis e sensuais, desportistas incansáveis e cultores da saúde e do bem-estar. O nosso íntimo tornou-se, ele mesmo, um parlamento de partidos diferentes e contraditórios, que coexistem e coabitam no mesmo hemiciclo. Vivemos tempos de possibilidades extraordinárias e de enormes contraditoriedades. Queremos liberdade sem limites e segurança garantida; queremos a privacidade, a par da comunicação sem restrições; somos adeptos da meritocracia, mas queremos o acesso gratuito a inúmeros bens; queremos viajar rapidamente, mas somos contra o ruído e a poluição dos aviões. Somos racionalistas e híper sensíveis, adultos e autónomos, mas com um quê de infantil e de mimado.

O nosso íntimo tornou-se, ele mesmo, um parlamento de partidos diferentes e contraditórios, que coexistem e coabitam no mesmo hemiciclo. Vivemos tempos de possibilidades extraordinárias e de enormes contraditoriedades

Depois, estamos profundamente marcadas pelo registo económico. A economia domina o sentimento e a sensibilidade que partilhamos, colonizando todos os outros campos, da política à cultura. Somos uma sociedade inventiva, que investe, que aposta no novo, que responde a tantas necessidades e procura activamente solução para tantos problemas. Vivemos um tempo de enormes possibilidades: de comunicação, de relações entre mundos distantes, de uma cooperação económica que é capaz de superar conflitos políticos e históricos. No outro lado desta moeda, porém, tudo se transformou em linguagem económica, que, em si mesma, é voraz. Devora o espaço público e as relações e, na bolsa, tanto faz subir valores sem que se perceba o motivo, como desvalorizar vertiginosamente o que há bem pouco tempo valia tanto. Essencialmente, somos tidos e comportamo-nos como consumidores que se consomem consumindo. Produzimos coisas em vista da sua perda de validade e de garantia. Consumimos experiências, consumindo-nos nelas. E temos que crescer, crescer sempre mais. Mas até onde, poderemos perguntar?

Somos seres também modelados fortemente pela publicidade, linguagem criativa que joga alegremente entre o mundo real e o mundo maravilhoso de todas possibilidades. A publicidade sussurra necessidades e promete tudo – finalmente, totalmente, verdadeiramente – a custo de nada ou de muito pouco. Oferece o céu já nesta terra. Aquele perfume que recria o mundo e, finalmente, o torna desejável, feliz, perfeito. Mas pode garanti-lo? Vivemos em sobre-excitação, em excesso de conectividade, em consumismo. A fasquia das promessas está demasiado alta, gerando, obviamente, pessoas deprimidas, desiludidas, enganadas. Porque um perfume é só um perfume e não mais do que um perfume. Na realidade, bem sabemos que um perfume não pode garantir o céu. Somos uma multidão de vítimas enganadas. Somos todos vítimas do sistema, das falsas promessas, dos mercados, dos vírus, da poluição. As letras pequeninas dos contratos, ilegíveis porque não são feitas para serem lidas, são o avesso realista dessas promessas fantásticas da publicidade. Em caso de insatisfação ou de litígio, desfazem a expectativa daquele produto poder realizar o que prometera. Não tutelam ninguém e protegem de qualquer responsabilidade quando chega a desilusão e a frustração.

Vivemos em sobre-excitação, em excesso de conectividade, em consumismo. A fasquia das promessas está demasiado alta, gerando, obviamente, pessoas deprimidas, desiludidas, enganadas

5. Confessar o limite para não sobrecarregar a finitude

Seguindo ainda a reflexão de Salmann, o centro da questão parece estar na sobrecarga excessiva da nossa finitude, que precisamos de reconhecer pacificamente como bênção difícil– confessar o limite, não para lamentar as suas restrições, mas para celebrar a bênção, ainda que custosa, das suas promessas e possibilidades. Importa, por isso, começar por colher e confessar os desejos e os medos do coração, as possibilidades e as obscuridades da mente, os encantos e as desilusões que os outros nos geram, a robustez e as fissuras das estruturas sociais.

Precisamos de recuperar o contacto íntimo com a nossa humanidade e com os fios que a cosem, humanidade capaz e frágil, extraordinária nas suas possibilidades e dolorosa nas suas fragilidades. A exigência do crescimento contínuo ofende a nossa finitude incontornável. Precisamos de colher a complexidade e contraditoriedade do real, assim como sabedoria do que é simples, e de preservar o humor e a ironia sobre nós mesmos, contra toda tentação de se levar demasiado a sério, de se tornar rígido, ideológico.

Precisamos de recuperar o contacto íntimo com a nossa humanidade e com os fios que a cosem, humanidade capaz e frágil, extraordinária nas suas possibilidades e dolorosa nas suas fragilidades. A exigência do crescimento contínuo ofende a nossa finitude incontornável.

Exigimos demasiado de nós mesmos e dos outros – das pessoas que amamos, da família, dos afectos, da vida, do trabalho, de quem nos governa, do planeta. Vivemos, por isso, insatisfeitos e ansiosos, ressentidos e de dedo acusatório em riste. Pomos demasiada pressão sobre o limite da vida, a contingência do mundo, as limitações dos outros. Exigimos demasiado, não respeitando as capacidades limitadas do coração, dos outros, dos recursos. Dificilmente nos sabemos retirar no momento certo. Tem que se estar em forma e na plenitude das capacidades até aos 90 anos. A pele tem que ser sem rugas até aos 80. Mas como? Que beleza é essa se a pele não tiver rugas aos 80 anos? Forçamos demasiado o tempo, as situações, os contextos. Impomo-nos aos outros para lá do devido. Há, por isso, que aprender a respeitar o ponto crítico de cada coisa, circunstância e valor. Quando algo de bom e de positivo é levado ao seu extremo e se força para lá do razoável, acaba por se retorcer contra si mesmo e gerar efeitos contrários. A verdade torna-se ideologia, o amor pela justiça torna-se rigorismo, a determinação, obstinação, a bondade, condescendência, a simplicidade, descuido.

6. Sim, é possível fazer alguma coisa: querer menos para receber mais

O cuidado atento às linhas que nos cosem e aos ritmos da nossa humanidade gerará sobriedade e autenticidade de vida, que reforçarão e refinarão a sensibilidade pelo que é essencial, que é o que se distingue do supérfluo e do postiço.

Querer menos pode ser o caminho propício para viver humanamente melhor. As práticas quaresmais oferecem-nos um caminho efectivo de desintoxicação e de desobstrução do coração. Eis o que escreve o Papa Francisco na sua mensagem para a quaresma de 2019: «Jejuar, isto é, aprender a modificar a nossa atitude para com os outros e as criaturas: passar da tentação de “devorar” tudo para satisfazer a nossa voracidade, à capacidade de sofrer por amor, que pode preencher o vazio do nosso coração. Orar, para saber renunciar à idolatria e à autossuficiência do nosso eu, e nos declararmos necessitados do Senhor e da sua misericórdia. Dar esmola, para sair da insensatez de viver e acumular tudo para nós mesmos, com a ilusão de assegurarmos um futuro que não nos pertence. E, assim, reencontrar a alegria do projecto que Deus colocou na criação e no nosso coração: o projecto de amá-Lo a Ele, aos nossos irmãos e ao mundo inteiro, encontrando neste amor a verdadeira felicidade».

Querer menos pode ser o caminho propício para viver humanamente melhor. As práticas quaresmais oferecem-nos um caminho efectivo de desintoxicação e de desobstrução do coração.

A propósito, desenvolve Tolentino de Mendonça[2]. «Contra todos os fatalismos paralisantes e contra a nossa própria acomodação, [a quaresma recorda-nos], que é sempre possível fazer alguma coisa. Esta: colocar-se cada um em revisão crítica, metendo em causa os próprios estilos de vida. O programa quaresmal é, assim, pessoal e prático. Trata-se de agir sobre si mesmo e contribuir desse modo para o emergir de uma consciência comunitária mais atenta. As ‘ferramentas’ que a tradição cristã propõe são de natureza ascética e servem em outras religiões e até em contexto laico para alcançar o mesmo objectivo: uma necessária conversão de vida a partir do esforço de cada um».

«O jejum, por exemplo, começa por ser uma privação alimentar voluntária, mas que nos põe a refletir, e de forma não só mental, sobre aquilo de que nos nutrimos nós e como o fazemos […]. O jejum pode tornar-se assim um élan para modificar a reorientar o nosso modo de habitar o mundo. E é uma questão de comida, claro. Porém, não se esgota aí. O jejum introduz uma ponderação crítica sobre tudo o que nos serve de alimento: palavras, imagens, hábitos, consumos, prazeres».

«A oração, por sua vez, é um antídoto contra a autossuficiência e contra o endeusamento das nossas possibilidades ou necessidades, abrindo em nós um espaço ao que é maior do que nós. Precisamos romper o circuitado movimento que nos faz rodopiar à volta de nós mesmos ou então dispersos em pura exterioridade, consumidos pelo puro imediatismo. A oração abre-nos para um para lá, introduz-nos noutro ritmo, faz-nos respirar de outra forma, ajuda-nos a levantar os olhos que trazemos fixos sobre os sapatos e erguê-los até às estrelas».

7. O necessário e o supérfluo

Quanto bastará para termos o necessário? Como distinguir o necessário do supérfluo? Poderemos guardar no coração o desejo de renunciar ao supérfluo para viver só do necessário?

Mesmo que este dia de “fé e cultura” não consiga, como promete, fazer-nos sair de alma lavada, desejo que consiga despertar o desejo de uma vida com menos e, por isso, melhor.

[1]Intervenção do autor numa iniciativa da Confindustria (principal associação industrial italiana), em 2013. O registo vídeo pode ser visto em https://www.youtube.com/watch?v=DSTKlp0qfHE
[2]“É possível fazer alguma coisa”, Revista do semanário Expresso, 9 de março de 2019, p. 92.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.